SEGURANÇA PÚBLICA

São Paulo revisa protocolos de segurança em corridas após morte de atleta

Grupo de trabalho terá 20 dias para estabelecer novas diretrizes de emergência durante eventos esportivos.

Por Estadao Conteudo Publicado em 30/07/2026 às 15:49
Morte de corredor leva SP a revisar protocolos para corridas de rua; entenda Nano Banana (Google Imagen)

A Prefeitura de São Paulo criou um grupo de trabalho para verificar os protocolos de segurança e atendimento médico em corridas de rua e outros eventos esportivos da capital paulista.

A iniciativa foi anunciada dois dias depois da morte do publicitário e atleta amador Júlio Barreto , de 50 anos. Ele sofreu uma parada cardíaca após concluir a meia maratona da Maratona da Cidade de SP, no domingo, 26 (saiba mais abaixo).

Segundo a medida assinada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), o grupo terá 20 dias para apresentar uma proposta com parâmetros mínimos de segurança, estrutura médica e atendimento de emergência para esse tipo de evento.

O objetivo é padronizar critérios técnicos que hoje envolvem diferentes órgãos municipais e entidades esportivas. Entre as atribuições do grupo estão:

- diagnosticar as exigências impostas para a autorização de corridas de rua;

- estabelecer parâmetros mínimos de segurança e de atendimento médico-emergencial;

- definir uma matriz de responsabilidades entre os órgãos públicos e os organizadores nas etapas de autorização, realização e fiscalização dos eventos.

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde informa que “revisa continuamente os fluxos assistenciais e os critérios técnicos aplicáveis ​​aos eventos temporários na cidade”.

"Como parte desse processo de avaliação contínua", continua o documento, "foi instituído um grupo de trabalho para revisar e aprimorar os procedimentos relacionados à realização de corridas de rua e eventos esportivos".

De acordo com a Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC-SP), a Prefeitura de São Paulo ainda não tem um protocolo específico para corridas de rua. "Seria muito interessante termos esta conversa com eles e poder participar da construção deste protocolo, considerando tudo o que já foi elaborado na Corrida Segura (protocolo nacional)".

SP epicentro das corridas

São Paulo é hoje a cidade que mais recebe corridas de rua no Brasil. A previsão do setor é que cerca de 300 provas sejam realizadas na capital ao longo deste ano, entre eventos de 5 km, 10 km, meia maratona e maratona.

Segundo Guilherme Celso , presidente da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo), a realização de uma corrida depende de uma série de licenças municipais e da obtenção do chamado Permit , documento emitido pelas entidades responsáveis ​​pela modalidade.

Existem três categorias de certificação - Bronze , Prata e Ouro . A Permissão Bronze é concedida pela Federação Paulista de Atletismo ; as demais categorias são homologadas pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Para obter a autorização, os organizadores devem cumprir os critérios previstos na Norma 7 do CBAt, que estabelecem critérios para aspectos como percurso, interdição de vias, guarda-volumes e estrutura médica.

O Anexo 3 da norma, produzido pela Abraceo, CBAt, Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) e Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC-SP), detalha o plano médico da prova, incluindo o número mínimo de ambulâncias, a distribuição dos desfibriladores, a presença de diretor médico e outros requisitos.

Além das regras da confederação, cada município possui critérios próprios para emissão dos alvarás necessários à realização dos eventos. “Há uma dupla fiscalização: das entidades esportivas e do poder público municipal”, afirma Guilherme Celso.

O especialista afirma que o protocolo municipal não deve substituir as normas já existentes. “O ideal é que ele seja complementar, considerando as particularidades locais, mas mantendo o alinhamento com as diretrizes técnicas nacionais e com as normas que regem a emissão do Alvará pelas Federações de Atletismo”, avalia.

O texto da CBAt também ressalta que a segurança das provas depende de uma atuação conjunta entre organizadores, equipes médicas e atletas, destacando que cabe ao participante manter sua avaliação clínica em dia e conformidades com as orientações médicas antes da competição.

Debate mortal sobre segurança nas corridas

A criação do grupo ocorre após a repercussão da morte de Júlio Barreto, corredor que completou os 21 quilômetros da meia maratona da Maratona Municipal de SP e começou a se sentir mal na área de chegada.

A prova chegou à edição da décima em 2026. A largada foi realizada na Praça Charles Miller, no Pacaembu, e a chegada aconteceu no Jockey Club, na zona sul da cidade. O evento reuniu atletas nas distâncias de 21,1 km e 42,2 km.

Segundo o boletim de ocorrência, Júlio reclamou de dores no braço logo após cruzar a linha de chegada. Enquanto caminhava em direção a uma ambulância disponibilizada pela organização da prova, sofreu um mal súbito e caiu.

O médico Miguel Carvalho Santacreu , que participou da prova e ajudou nos primeiros atendimentos, afirmou nas redes sociais nesta quinta-feira, 30, que houve demora de 15 minutos na chegada de uma ambulância com Desfibrilador Externo Automático (DEA).

"E aí continuamos tocando a parada ali (fazendo atendimentos) por uns 10 minutos, quando chegou a primeira ambulância. A primeira ambulância chegou com uma equipe de bombeiros, e sem nenhum médico. A gente solícita um DEA, e eles falaram que aquela ambulância não tinha", contou.

"Eu e as ofertas de outras pessoas que estavam lá sabemos que o atendimento do evento demorou a chegar, não foi instantâneo. O primeiro foi com diversas falhas. Não vou falar que o desenvolvimento poderia ter sido diferente, não sei. Mas a conduta toda poderia ter sido diferente", revelou.

A Iguana Sports , organizadora da Maratona Municipal de SP, afirmou que "nenhuma estrutura médica, por mais completa que seja, consegue prevenir 100% desses eventos - o que ela consegue é reduzir o tempo entre o colapso e o primeiro atendimento, que é o fator que mais influencia a sobrevida", afirma uma nota assinada por Paulo Carelli , diretor de prova.

“E nós estávamos na linha de chegada a 100 metros onde tudo aconteceu com os DEAs, conforme registrado nos relatórios médicos e imagens fotográficas, que confirmam que o atleta recebeu atendimento protocolar assim que chegou a comunicação à equipe”, continua o comunicado.

“Infelizmente o quadro clínico do atleta não permitiu sua recuperação, apesar de todo esforço da equipe médica e adoção de todos os procedimentos de suporte avançado”.

A família ainda não se pronunciou oficialmente. O Estadão apurou que os pais estão em contato frequente com os organizadores do evento. O caso foi registrado como morte natural pelo 7º Distrito Policial (Lapa), informado a Secretaria da Segurança Pública.

A Secretaria Municipal da Saúde informou que a Maratona Municipal de SP cumpriu as exigências médicas e que a infraestrutura voltada para a assistência à saúde é de responsabilidade dos organizadores.

"Em grandes eventos realizados na cidade de São Paulo, é obrigatória a contratação de recursos de saúde, conforme previsto na Portaria SMS nº 490/2020 , que estabelece as normas para elaboração dos Planos de Atenção Médica, que devem ser submetidos ao Grupo de Planejamento e Apoio a Eventos (GPAE), da SMS, cumpridos pela Maratona Municipal de SP".

Júlio Barreto atuou como gerente de acesso ao mercado na Danone , com atuação voltada para saúde suplementar, nutrição especializada e oncologia. Ele havia ingressado na empresa em abril deste ano, depois de ter trabalhado como gerente de Oncologia na Johnson & Johnson .

Com experiência em provas de longa distância, Barreto foi atleta amador de ciclismo. Ele migrou para as corridas de rua e trilhas, participando de maratonas e competições de montanha em 2021.