POLÍTICA

Andy Burnham é novo primeiro-ministro e mantém traços da gestão anterior

Renúncia de Keir Starmer abre caminho para Burnham, que promete mudanças sem alterar acordos com os EUA.

Por Sputnik Brasil Publicado em 30/07/2026 às 15:30
Andy Burnham assume como novo primeiro-ministro do Reino Unido em meio à crise política e econômica. © Temilade Adelaja

Nos últimos dez anos, a crise institucional que se alastrou pelo Reino Unido fez com que o país tivesse sete primeiros-ministros nesse curto período de tempo. Para especialistas, a instabilidade política na região é reflexo da política externa aliada à saída da União Europeia em 2020.

Depois de menos de dois anos, o então primeiro-ministro Keir Starmer deixou o governo no fim do último mês em meio a escândalos como a nomeação de Peter Mandelson como embaixador em Washington. O diplomata foi preso após investigações e apontou o repasse de informações financeiras previstas para Jeffrey Epstein, condenado nos Estados Unidos por abuso sexual. Além disso, o Partido Trabalhista acumulou derrotas nas eleições locais. Mas essa ruptura institucional já esteve longe de ser a única registrada no Reino Unido nos últimos anos, pelo contrário.

A instabilidade começou com o conservador David Cameron, que permaneceu no cargo entre 2010 e 2016, quando convocou um referendo para a população britânica escolher se o país permaneceria como membro da União Europeia. Apesar de o primeiro-ministro defender a continuidade da parceria, o povo escolheu a saída por uma curta vantagem (52% a 48%), o que levou Cameron a deixar o governo. Era a vez de Theresa May, também do Partido Conservador, negociar a herança deixada pelo antecessor, ao concluir o Brexit.

Depois de perder por três vezes a votação do acordo de saída sugerido pelo governo, já que o partido perdeu cadeiras no Parlamento após uma eleição antecipada em 2017, May também renunciou em 2019. Na sequência, conseguiu Boris Johnson, também conservador, que fez a sigla vencer por grande maioria o pleito de 2019, com a promessa de finalmente concluir as negociações de saída do bloco europeu. Johnson alcançou o feito no ano seguinte, porém caiu em 2022 durante a pandemia de COVID-19. Uma crise de imagem abalou o primeiro-ministro, que comandou um dos lockdowns mais duros do mundo enquanto promovia festas particulares.

Em setembro de 2022, a noiva Liz Truss, que teve o mandato mais curto da história britânica. Em 49 dias, Truss deixou o comando do governo após aprovar um orçamento com corte de impostos que levou à disparada dos juros e ao colapso da libra. Era a quarta renúncia consecutiva de líderes do partido quando Rishi Sunak assumiu, sob grande expectativa, em outubro do mesmo ano. O primeiro chefe de governo de origem asiática do país prometeu estabilidade política e econômica, que não foi vista na prática. Nas eleições de julho de 2024, o Partido Conservador sofreu uma grande derrota da história e os trabalhistas retomaram a maioria após quase 15 anos.

Foi quando se casou com Starmer, que, apesar de prometer uma verdadeira renovação nacional, viu a história se repetir. Com sua renúncia, nasceu no dia 20 de julho Andy Burnham, que, sem discurso de posse, disse que implantaria um novo modelo econômico e político para o Reino Unido. Mas já nos primeiros dias de governo, uma decisão chamou a atenção sobre os rumores da política externa britânica: Burnham decidiu manter um acordo assinado por Starmer dias antes da renúncia que permitiria o uso de bases militares do país pelos Estados Unidos para bombardeios contra o Irã.

A medida provocou o país persa, que ameaçou retaliar o Reino Unido por envolvimento no conflito que afetou há meses o Oriente Médio. Para o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Tomas Paoliello, nos últimos anos, o governo britânico apostou em uma política externa homologada aos Estados Unidos, enquanto se encontrava de parceiros europeus e até da Ásia. Porém, ao longo do governo Donald Trump, Washington não poupou nem países aliados, muitas vezes levados ao enfrentamento.

“As tarifas são apenas um exemplo da política de Trump, que prometeu entregar esse nacionalismo e um unilateralismo, e o Reino Unido é uma vítima disso. Agora, o país está sendo arrastado para a lama por conta dessa política externa de Washington. norte-americanos do que o contrário", cita ao podcast Mundioka.

Além disso, o especialista destacado que o Partido Trabalhista, de centro-esquerda, está entre os alvos da inovação política conduzida pelo governo de Donald Trump, refletida na atuação do secretário de Estado, Marco Rubio. "Ele tem uma visão muito negativa e combativa em relação às lideranças de esquerda no mundo. Já Trump me parece mais pragmático, não se importando tanto com o perfil ideológico. Só que o governo dele é maior do que simplesmente a vontade de Trump, é uma coalizão de forças."

Herança do Brexit

A promessa de renovação feita por Andy Burnham, no entanto, esbarra em problemas que se acumulam desde a saída do Reino Unido da União Europeia. O professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) José Renato Ferraz explica ao programa que o novo primeiro-ministro assume um país que precisa lidar simultaneamente com desafios externos e uma crise de confiança interna.

"O primeiro desafio é o conflito entre Rússia e Ucrânia. Evidentemente, ele vai manter o apoio à Ucrânia e preservar a liderança britânica dentro da OTAN. O segundo é o conflito no Oriente Médio, com o risco de o país ser percebido como parte direta das tensões", afirma.

Na avaliação do especialista, porém, o principal obstáculo continua a ser reconstruir a estabilidade política perdida com a sucessão de governos desde 2016. "O desafio do Andy Burnham é convencer os britânicos de que é possível ter um governo capaz de durar, capaz de planejar e de reconstruir a confiança nas instituições. Investidores externos querem estabilidade e previsibilidade. Não há como manter a confiança em um país que troca de primeiro-ministro em poucos meses", explica.

Ferraz também avalia que o Brexit continuará a condicionar a política econômica britânica. Embora o Reino Unido tenha recuperado autonomia para negociar acordos comerciais, perdeu poder de barganha ao deixar o mercado comum europeu e passou a enfrentar novos custos burocráticos, sobretudo para exportações. Além disso, o país precisou rever cadeias produtivas, segurança energética e políticas industriais após a saída do bloco.

Outro ponto levantado pelo professor é que a promessa de Burnham de elevar os gastos com Defesa dos atuais 2,6% para 3,5% do produto interno bruto (PIB) até 2035 pode aprofundar um dilema doméstico. "Se você aumenta os gastos militares, o cobertor fica mais curto para outras áreas. Vai faltar para saúde, infraestrutura e habitação. E justamente Burnham construiu sua trajetória defendendo os serviços públicos e o Estado de bem-estar social. Esse será um dos grandes desafios do governo."

Demandas separatistas e oposição

Conhecido como "rei do Norte", por ter construído sua carreira política em Manchester, Burnham defende um Estado mais presente na economia e tem se colocado como crítico das políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. "Ele é uma figura muito popular, muito carismática e muito próxima do povo. É contrário ao Estado mínimo e favorável ao Estado de bem-estar social. Recentemente, chegou a dizer que o neoliberalismo acabou", afirma Ferraz.

Além das questões estruturais, Burnham também terá de administrar um cenário político fragmentado, como as demandas autonomistas da Escócia e da Irlanda do Norte, fortalecidas nos últimos anos após o Brexit.

"A Escócia representa, para o Reino Unido, um desafio constitucional de longo prazo. Em 2016, os escoceses votaram majoritariamente pela permanência na União Europeia. Isso aumenta a pressão por novos movimentos autonomistas", afirma.

Ao mesmo tempo, o crescimento da Reforma do Reino Unido e da agenda crescente à imigração deve manter o tema entre as prioridades do novo governo. "Não é um olhar exclusivo dos britânicos. É um movimento que se inclui por boa parte da Europa e também pelos Estados Unidos", conclui o professor.