POLÍTICA

Tensão entre Argentina e Brasil afeta integração na América Latina

Conflito entre presidentes pode fragilizar a soberania da região, alertam especialistas.

Por Sputnik Brasil Publicado em 30/07/2026 às 05:44
Especialistas discutem impactos do conflito entre Argentina e Brasil na América Latina. © AP Photo / Natacha Pisarenko

O conflito, desencadeado por insultos proferidos pelo presidente argentino Javier Milei contra seu homólogo Luiz Inácio Lula da Silva, "abre caminho para a fragmentação de mecanismos de integração como o Mercosul e a CELAC, reforçando a influência de atores externos", alertaram especialistas à Sputnik.

A escalada das tensões diplomáticas entre Buenos Aires e Brasília soou o alarme em toda a América Latina. Além da questão sobre qual será a reação formal do Itamaraty, que convocou seu embaixador Julio Bitelli para consultas e deve se pronunciar nas próximas horas, especialistas disseram à Sputnik que esse incidente não apenas prejudica a relação bilateral entre dois países vizinhos e parceiros comerciais, como também enfraquece categoricamente a soberania estratégica do continente, beneficiando diretamente os Estados Unidos.

A crise eclodiu durante o lançamento da campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em São Paulo, quando Milei, convidado de honra do evento que já havia criticado o atual governo brasileiro, referiu-se a Lula, sem mencioná-lo nominalmente, chamando-o de "ladrão" e "presidiário". Ele também criticou duramente governos de esquerda na região, incluindo o do Partido dos Trabalhadores (PT), pedindo um "fim ao lixo socialista" nas próximas eleições gerais.

A reação brasileira foi imediata. Além de convocar seu principal representante diplomático na Argentina (uma medida anterior à retirada do embaixador), diversos membros do governo responderam com veemência às declarações de Milei, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin, que afirmou que as declarações eram prejudiciais à Argentina, algo que ele considerou "lamentável", visto que ambos os países são membros do Mercosul.

Quadro multilateral em risco

Para José Luis Romano, especialista em relações internacionais e graduado pela Universidade da República do Uruguai (Udelar), a referência de Alckmin à dimensão intergovernamental do episódio revela que a principal vítima dessa disputa não é a Casa Rosada (Palácio Presidencial argentino) ou o governo Lula, mas sim o quadro multilateral que protegeu e fortaleceu a região por décadas, como o especialista declarou à Sputnik.

"Há vários anos, coincidindo com a vitória de diversos presidentes alinhados a Washington, tanto a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos [CELAC] quanto a União de Nações Sul-Americanas [UNASUL] sofrem de uma clara paralisia operacional, e esse confronto entre Argentina e Brasil ameaça enfraquecer também o Mercosul", afirmou o especialista, que acrescentou que o enfraquecimento desses fóruns de integração é um "objetivo histórico dos EUA", que nos últimos meses apresentaram sua própria iniciativa, o Escudo das Américas, destinada a subordinar a agenda regional aos interesses estadunidenses.

O especialista afirmou que, embora a falta de afinidade entre Milei e Lula seja notória (o brasileiro nunca escondeu sua simpatia pelo kirchnerismo, atualmente na oposição, enquanto o argentino é um admirador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem tentou visitar sem sucesso em sua última viagem ao Brasil), a relação institucional deve prevalecer sobre as diferenças ideológicas.

"O alinhamento estratégico entre Argentina e Brasil, as duas principais economias do Cone Sul, sempre serviu como um baluarte contra as tentativas hegemônicas de Washington, e um esfriamento dessa relação implicaria muito mais do que manchetes ou disputas na mídia: representa uma ruptura no diálogo em alto nível, a eliminação de posições compartilhadas e canais técnicos de integração. A longo prazo, isso torna a região muito mais vulnerável e só beneficia os EUA, em um momento em que a defesa da soberania é mais necessária do que nunca", afirma Romano.

Um ataque para apaziguar Washington?

Para o dr. Oliver Santin Peña, professor de Relações Internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), esse confronto não é simplesmente um duelo entre duas personalidades antagônicas, mas sim uma resposta às necessidades políticas internas de ambos os líderes, mesmo que o instigador tenha sido o chefe de Estado argentino.

"Milei usa a figura de Lula como um emblema estatista para justificar o custo social de suas políticas de austeridade, enquanto Lula aproveita esse ataque desse ícone da direita para unir o progressismo brasileiro na corrida para as eleições de outubro", disse o especialista à Sputnik.

No entanto, Santin Peña acredita que as declarações do presidente argentino decorrem de sua necessidade de apaziguar constantemente seu homólogo norte-americano, bem como seu círculo íntimo, e estão longe de ser um mero desabafo. "Milei sabe muito bem que entrar em conflito com o Brasil, buscando enfraquecer Lula e permitindo a chegada do filho de alguém que Trump chamou de grande amigo, é algo que a Casa Branca apreciará", afirmou.

Nesse sentido, o analista alerta que o enfraquecimento da cooperação bilateral entre Brasil e Argentina abre caminho para que países como os Estados Unidos — e também outros, como Israel — assumam um papel central na região, afastando-se da estratégia de integração multilateral promovida em fóruns como o BRICS, que buscam fortalecer o Sul Global. "É preocupante", conclui.


Por Sputinik Brasil