Mercado de juros fecha em alta após decisão do Fed
Taxas de juros reagiram com volatilidade, refletindo o discurso do presidente do Fed sobre política monetária.
O pregão desta quarta-feira, 29, foi de elevada volatilidade no mercado de juros futuros, que pouco reagiram ao Caged mais forte de junho, mas oscilaram bastante após a decisão do Federal Reserve (Fed) de manter a taxa de juros inalterada, na faixa de 3,50% a 3,75%. Os DIs chegaram a recuar em bloco com declarações consideradas mais amenas do presidente do Fed, Kevin Warsh, mas a curva voltou a ganhar inclinação rumo ao final da sessão, seguindo os Treasuries. Isso porque, segundo agentes, um Fed mais 'dovish' agora sinaliza que as taxas terão que subir à frente.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu levemente a 13,85%, vindo de 13,87% no ajuste da véspera. O DI para janeiro de 2029 subiu de 14,223% no ajuste a 14,25%. O DI para janeiro de 2031 fechou em 14,515%, de 14,467%.
A manutenção do juro básico nos EUA não foi unânime: três dos 12 integrantes do Comitê de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) votaram por uma alta de 0,25 ponto porcentual. Foram eles Beth Hammack (Fed de Cleveland), Neel Kashkari (Fed de Minneapolis) e Lorie Logan (Fed de Dallas). Segundo a BMO, este foi o maior número de votos divergentes desde setembro de 2016. O comunicado, enxuto, foi praticamente idêntico ao da reunião anterior.
A coletiva de Warsh, porém, forneceu alívio ao mercado de renda fixa local em um primeiro momento. Segundo um estrategista de uma grande tesouraria, as declarações do comandante do Fed que acalmaram os ânimos foram as de que "as taxas de juros podem ser a medida dominante, mas não a única solução para uma inflação mais alta", e a de que houve "algum progresso" ao ancorar as expectativas inflacionárias em torno da ideia de que há uma "meta firme" de 2%.
Head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida ressalta que o banqueiro central citou novamente em seu discurso a análise contida no comunicado de que o aumento da inflação nos EUA decorre de um choque de oferta. "E, seguindo a cartilha, choque de oferta não se combate com juros", comentou. Além desta passagem, Almeida menciona os comentários de Warsh sobre os dissidentes, que estariam com uma leitura "parcial" do cenário e, por fim, a fala de que tem recebido dados de inflação "animadores".
O estrategista, sob anonimato, afirmou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que o mercado leu o discurso como bastante 'dovish', o que induziu o ganho de inclinação da curva dos Treasuries e a mesma dinâmica por aqui rumo ao final do pregão. "É o mercado entendendo que ele acha que vai ganhar só no gogó", disse.
Para Thomas Ryan, economista para América do Norte da Capital Economics, o contingente "hawkish" um pouco maior do que o antecipado no Fomc sustenta a visão de que o Fed elevará os juros já em setembro, cenário que concentra cerca de 70% das apostas do mercado. "A interpretação dos mercados financeiros até aqui, porém, é 'dovish'... Isso provavelmente reflete que a ausência de alta nesta quarta reduz o risco de cauda de um ciclo de aperto pronunciado, para o qual alguns investidores vinham se preparando", comentou Ryan.
Por aqui, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) divulgou que a geração líquida de postos de trabalho formais foi de 145,1 mil em junho, acima do consenso de mercado, que apontava criação de 110 mil empregos com carteira assinada. O dado, porém, não fez preço. O Caged poderia levar a um pessimismo adicional, mas com os holofotes no Fed, ficou ofuscado, disse Almeida, da Suno.
O head de macroeconomia da Kínitro Capital, João Savignon, diz que o número não altera a avaliação de que o mercado de trabalho segue em desaceleração gradual. Nos cálculos com ajuste sazonal de Savignon, foram abertos 71,4 mil empregos formais no mês passado.