POLÍTICA

China propõe WAICO para democratizar debates sobre IA e desafiar as big techs

Analista destaca a importância de um organismo multilateral para apoiar o Sul Global na era da inteligência artificial.

Por Sputnik Brasil Publicado em 29/07/2026 às 11:53
Analista Renato Peneluppi Jr. discute a influência da IA no Sul Global e o papel do WAICO. © AP Photo / Ng Han Guan

A inteligência artificial deixou de ser uma revolução corporativa para se tornar um ativo de disputa na geopolítica moderna. Enquanto Washington tenta conter o avanço tecnológico de Pequim, a China responde com a criação da WAICO (Organização Mundial de Cooperação em IA), unindo diversas nações como fundadoras, entre as quais Brasil e Rússia.

Nesse sentido, o WAICO tem como finalidades ser um organismo multilateral entre países para se democratizar e discutir formas de superar os impactos da IA no seio do Sul Global, conforme explica Renato Peneluppi Jr., analista político e doutor em administração pública pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em entrevista à Sputnik Brasil.

"É um processo bem interessante que a China está tentando encabeçar de construir uma sede para poder criar um multilateralismo, uma participação coletiva no destino da IA. O que é muito rico é que não é um processo individualizado da China tentando apresentar regras, mas sim, tentando chamar os demais países do Sul Global em específico para participar, apontar riscos e criar uma normativa", disse.

Dessa forma, o especialista aponta as diferenças de concepção e de desenvolvimento da IA, enquanto Pequim tem o humano como centro; os Estados Unidos, através das big techs, têm fundamentos estritamente relacionados ao econômico e em prol do setor privado.

"Os EUA também estão construindo uma iniciativa de pautar a IA no mundo com uma perspectiva mais de mercado e liberal. Na China tem uma perspectiva mais coletivista, multilateral, de inclusão das nações, então é antropocêntrica, tentando manter o ser humano no centro da discussão. Então, acho que tem esse contraponto", comenta.

Novos empregos serão gerados com o avanço da IA

Outro ponto levantado por Peneluppi, que reside em Pequim, onde é presidente do Conselho dos Cidadãos Brasileiros e parceiro estratégico no Brasil do think tank chinês Beijing Club, ressalta algo que consta no 15º plano quinquenal do país: a criação de cerca de 12 milhões de empregos anuais por conta do avanço da IA, o que, na realidade chinesa, é visto como desafio.

"O debate sobre a questão do trabalho é agudo na China. No último plano quinquenal, [aponta-se para a necessidade] de gerar 12 milhões de empregos anuais, que é o número de jovens que entram no mercado de trabalho. Então, a China tem corrido com isso e não vê a IA como um ponto baixo, muito pelo contrário, ela vê como instrumento que pode ajudar a gerar novos empregos", destaca.

O pesquisador também revela como a IA, por meio de aplicações cotidianas, faz parte da realidade chinesa, como automóvel autônomo para transporte de passageiros, e também revela quando visitou uma mina no país, onde o trabalho mais pesado e de risco estava sendo administrado de forma autônoma com alta tecnologia.

"A China tem utilizado a IA para construir novos caminhos de geração de emprego. Quando eu falo do desafio das novas forças produtivas, que Xi Jinping tem dado as boas-vindas, ele tem entendido como instrumento que vai fazer esse salto. Em 2023, visitei uma mina de carvão, que já utilizava IA. Toda mineração, todo transporte de carga bruta, que envolve risco de vida humana, já estava sendo utilizada por robôs, onde o 5G também tem uma boa aplicação", observa.

Iniciativa põe o Sul Global no palco geopolítico por IA

Para Peneluppi, o WAICO também representa uma forma de inserir nações que compõem o Sul Global na questão geopolítica que envolve a inteligência artificial. Uma vez que, neste momento, a tecnologia ainda é dominada por poucos.

"O Sul Global dentro dessa entidade [WAICO] dá um passo na direção de disputar esse ativo [IA]. Já existe o uso da IA por atores privados que já são superiores muitas das nações do Sul Global. Então, esse passo que a gente discute aqui é de como trazer a IA como um ativo para as nações poderem utilizar para sua emancipação, para sua evolução e para o seu desenvolvimento", conclui.

Com a transformação constante da economia global, a IA tornou-se crucial não apenas para os setores produtivos, mas também no campo político. Como o domínio dessa tecnologia concede vantagens geopolíticas decisivas, a cooperação multilateral entre os países é cada vez mais necessária para mitigar monopólios e tentar equilibrar o poder internacional.