MEMÓRIA

28 de julho de 1938: A madrugada sangrenta que pôs fim à trajetória de Lampião e Maria Bonita

Por Vladimir Barros Publicado em 29/07/2026 às 10:35
88 anos sem Lampião: A memória do Rei do Cangaço resiste na Grota de Angico

Ontem, 28 de julho de 2026, o Brasil marcou os 88 anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o lendário Lampião, sua companheira Maria Bonita e mais nove cangaceiros, abatidos em uma emboscada na Grota de Angico, no município de Poço Redondo, Sergipe. Mais do que uma data, o episódio continua a reverberar na história nacional como símbolo de luta, medo, justiça e resistência. Mas o que poucos conhecem é o protagonismo da volante alagoana nesse estágio sangrento do ciclo do cangaço.

A emboscada de 1938: a caçada chega ao fim


Na madrugada de 28 de julho de 1938, o tenente João Bezerra da Silva, à frente de uma força policial mista — em sua maioria composta por soldados da volante alagoana —, ofereceu Lampião e seu grupo. A operação contornou o apoio logístico e estratégico do exército brasileiro e de coronéis da região que há anos perseguiram os cangaceiros.

Segundo relatos históricos, a atuação estratégica do volante vinda de Alagoas, considerada uma das mais temidas e disciplinadas da época, foi fundamental para o sucesso da ação. A emboscada, construída com base em delações e informações de sertanejos coagidos, resultou na morte imediata dos líderes do bando, com requintes de violência que chocaram o país.

As cabeças dos cangaceiros foram decepadas e levadas como troféus até a cidade de Piranhas, em Alagoas, onde foram expostas no cais do rio São Francisco para comprovar o fim do reinado de terror de Lampião.

A volante alagoana: símbolo da repressão e da bravura


A volante de Alagoas foi formada por homens suportados pelo sertão e pelas privações. Muitos não eram policiais de carreira, mas contratados pelo Estado para combater o cangaço com métodos semelhantes aos do próprio Lampião — brutais, rápidos e letais. Famosos pela coragem e pela crueldade, os volantes alagoanos se destacaram ao longo da década de 1930 como os principais algozes do bando.

Essa tropa atuava em regiões de difícil acesso, conhecia os caminhos do sertão, dominava técnicas de rastreamento e recebia gratificações por cangaceiro morto. A caçada era também uma disputa de prestígio político e militar.

Lampião: bandido ou herói?


Virgulino Ferreira, o Lampião, ainda divide opiniões. Para muitos, foi um bandido cruel, autor de saques, estupros e assassinatos. Para outros, foi uma rebelde social, uma espécie de Robin Hood do sertão, que desafiava os latifúndios e os coronéis que comandavam com mão de ferro as populações pobres do Nordeste.

Filho de uma família de pequenos criadores de gado em Vila Bela (atual Serra Talhada), Lampião aderiu ao cangaço após a morte do pai, assassinado por policiais. A partir daí, tornou-se uma figura mítica: usava roupas sofisticadas, tinha postura militar e cultivava o medo e a admiração por onde passava.

Sua companheira, Maria Bonita, foi a primeira mulher a integrar um bando de cangaceiros e tornou-se ícone da luta feminina — ainda que em um contexto de violência e ilegalidade.

Legado, turismo e cultura


Hoje, a Grota de Angico, transformada em Monumento Natural, recebe centenas de visitantes todos os anos. A Missa do Cangaço, celebrada no local, reúne familiares de ex-cangaceiros, pesquisadores, romeiros e curiosos. A cidade de Piranhas (AL), que teve papel crucial na operação, também preserva memórias em museus, roteiros turísticos e atividades culturais.

O cangaço virou tema de filmes, peças de teatro, músicas e cordéis, eternizando Lampião como um personagem multifacetado — ao mesmo tempo marginal e mito, vilão e juiz, assassino e símbolo de resistência sertaneja.

A memória não morre


88 anos depois, o fim de Lampião não significou o fim de sua influência. O debate sobre sua figura histórica, sobre o papel do Estado, dos volantes e das desigualdades sociais do Nordeste continua vivo. Relembrar essa história é também refletir sobre as heranças da violência, da pobreza, da resistência e da injustiça social que ainda marcam a realidade brasileira.