SEGURANÇA PÚBLICA

A crise da segurança na Oceania e suas raízes geopolíticas

Pesquisador analisa a influência da militarização na Nova Zelândia e na Austrália em meio ao tráfico de drogas.

Por Sputnik Brasil Publicado em 28/07/2026 às 11:14
A análise de Bruno Gagliano sobre a segurança pública na Oceania e suas conexões geopolíticas. © Força de Defesa da Nova Zelândia/Divulgação

Enquanto na América do Sul o debate sobre interferência externa foi reacendido após os EUA classificarem o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas se repetem, na Nova Zelândia, com ataques em países da região, as características da segurança pública são problematizadas para além das fronteiras.

Nesse sentido, a postura do governo de Donald Trump em tratar a segurança doméstica de terceiros como ameaça transnacional, somada à escalada geopolítica da atual guerra com o Irã, impulsionando a militarização global. Esse cenário força até mesmo nações distantes de pontos de tensão a ampliar seus investimentos em defesa, conforme explicado pelo pesquisador Bruno Gagliano, do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), à Sputnik Brasil.

“Esse aumento da militarização, por parte especialmente da Austrália, da Nova Zelândia e dos EUA, que possuem bases militares na região, e também da França, uma potência que interferiu historicamente nos assuntos da Oceania, se deve à instabilidade do sistema internacional, que se acentuou com Trump, onde os países perceberam que não podem depender e nem terceirizar sua segurança para os EUA”, disse.

Nesse panorama, Gagliano também observa que essa empreitada neozelandesa, por meio do programa Plano de Capacidades em Defesa 2025, também tem a ver com o crescimento da presença de organizações criminosas que compõem aquela rota, também conhecida como Pacific Drug Highway (Corredor do Narcotráfico no Pacífico, em tradução livre), que serve como conexão entre os mercados ilícitos da Ásia e da América.

“Ao pesquisar mais a fundo, o programa feito entre o Estado e a organização de defesa da Nova Zelândia era apenas a ponta do iceberg de um problema maior, que era essa questão dos crimes transnacionais, que foram aumentando, em especial dos anos 2000 até aqui, onde a gente vê que a Oceania é uma rota de tráfego para essas organizações de tráfico de drogas da América do Sul e da Ásia”, comenta.

Segurança coletiva, porém, com soberania em risco

Outro ponto levantado pelo pesquisador, que publicou o artigo "Modernização Naval Neozelandesa Frente ao Agravamento dos Crimes Transnacionais" no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, é que essa ação da Nova Zelândia limita a soberania de nações de seu entorno estratégico.

"Um caso que também aconteceu entre a Nova Zelândia e as Ilhas Cook. As Ilhas Cook foram uma ex-colônia da Nova Zelândia, e, no começo deste ano, elas revisaram um tratado de segurança afirmando que quem deveria cuidar da segurança das Ilhas Cook era especificamente a Nova Zelândia", destaca.

Além disso, o analista interpreta a expansão militar da Austrália e da Nova Zelândia, bem como a ampliação de suas influências sobre as nações menos controladas da Oceania, como uma estratégia para conter a projeção da China localmente. O gigante asiático, paradoxalmente, já consolidou sua posição como o principal parceiro econômico da região, inclusive de Camberra e Wellington.

"Essas ilhas, vulneráveis ​​política e economicamente, tendem a ir para o lado da China ou da Austrália, Nova Zelândia e EUA. Em junho, a Austrália e Vanuatu discutiram um acordo que infringiu a soberania de Vanuatu, pois impede que Vanuatu seja utilizado para a criação de infraestrutura crítica e militar de território estrangeiro, já que a China tentou construir um porto em Vanuatu e isso foi visto como ameaça por potências da região", observa.

Grupos paramilitares no foco de tensão geopolítica

A dinâmica dessas organizações criminosas, que utilizam tecnologias de ponta como os submarinos no ambiente insular da Oceania, torna-se cada vez mais difícil para um governo enfrentar essas ameaças de forma isolada. Diante disso, Gagliano aponta que a formação de alianças regionais deve se consolidar como uma tendência global, estendendo-se inclusive para a resolução de questões de segurança interna.

“Os conflitos que existiam anteriormente eram mais entre Estados, e neste momento, com a complexificação do sistema internacional, vão surgir novos atores, como grupos paramilitares. No caso da Oceania, temos até o uso de submarinos para transporte de drogas.

Em um mundo globalizado e cada vez mais interconectado, em que a tecnologia transforma os setores bélico e financeiro, à medida que ações de grupos de violência ganham projeção transnacional. Consequentemente, esse cenário serve como política justificativa para que os Estados mais desenvolvidos exerçam influência e projetem poder sobre regiões estratégicas.