Samara Martins propõe reestatização e auditoria da dívida pública
Pré-candidata da Unidade Popular à Presidência defende ruptura com imperialismo econômico.
Única pré-candidata oficializada à presidência do país até o momento, Samara Martins, da Unidade Popular (UP), defendeu à Sputnik Brasil um programa de ruptura com o que chama de "fase imperialista do capitalismo" e prometeu, se eleita, retomar o controle estatal sobre setores estratégicos da economia brasileira.
"Nós enfrentamos o império holandês, nós enfrentamos o império português, e nós enfrentaremos qualquer outro império […]. Nós não seremos mais colônia."
Trabalhadora do Sistema Único de Saúde (SUS) e militante dos movimentos sociais, a pré-candidata assumiu a cabeça de chapa da UP após a candidatura de Léo Péricles em 2022, na qual foi candidata a vice. Neste ano, ela concorre ao lado de Raquel Bricio e afirma que o programa do partido tem como base o entendimento de que "o capital financeiro é que direciona o nosso país, inclusive com interferências estrangeiras".
"É o que a gente fala do imperialismo, querendo transformar o nosso país em colônia."
A candidata citou incêndio recente no sistema ferroviário de São Paulo logo após concessão de linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) à iniciativa privada como evidência de como a privatização é negativa. "Tem que reestatizar a Vale do Rio Doce, garantir que a Petrobras seja 100% estatal, porque aí a gente tem controle. Isso é debater soberania."
"É com petróleo, é com as terras raras, é com saneamento básico, é com tudo, e nós não podemos admitir."
Martins defende auditoria cidadã da dívida pública brasileira e suspensão do pagamento da chamada "dívida viva".
"Nós, da Unidade Popular, mantemos bandeiras que nunca deveriam ser abaixadas por nenhum movimento ou partido de esquerda", afirmou, citando também a reforma agrária como pauta que, segundo ela, "era algo básico, determinante para a soberania de um país" e que teria sido abandonada por outras legendas de esquerda.
Questionada sobre possíveis alianças eleitorais, a candidata entende que não cabe alianças como as que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, por exemplo. "Uma parte desse setor, inclusive do governo Lula, faz um discurso de esquerda, mas uma política de direita", disse.
Trabalho
Sobre a proposta de fim da escala de trabalho 6 por 1, ela critica a inércia do projeto, atualmente no Senado Federal, e defende que avanços reais vieram da mobilização sindical direta. Além disso, disse que é preciso dobrar o valor do salário mínimo. "Parece absurdo, e todo mundo fala: não, não é possível. É extremamente possível", disse, argumentando que "o Brasil, da América Latina e da América do Sul, é o país que tem o menor salário", apesar de figurar entre as dez maiores economias do mundo.
"Economias menores que a nossa têm salários maiores para os seus trabalhadores. Nós somos o povo trabalhador mais explorado", afirmou.
Ela também defendeu criar frentes emergenciais de trabalho geridas diretamente pelo poder público, "sem empreiteiras, sem construtoras, sem empresas que terceirizem o trabalho", e uma proposta que classificou como "a defesa do óbvio", a de obrigar que todos os políticos utilizem exclusivamente o Sistema Único de Saúde (SUS) e a educação pública.
"Eles mesmos consideram que precarizam tanto esses serviços que não querem usar, porque estão em outra classe."
Violência
Samara defendeu a desmilitarização das polícias, descrevendo o modelo atual como "um resquício da ditadura" e da escravidão, e relatou visita ao bairro da Penha, no Rio de Janeiro, após operação policial.
"Fui na Penha conversar com as mães que perderam seus filhos naquele massacre. Elas disseram: o Estado é genocida, porque no nosso país tem pena de morte", afirmou, citando média de 19 mortes diárias em ações policiais, majoritariamente de "jovens, negros, pobres".
Ela também defende a criminalização da misoginia e um enfrentamento mais duro aos feminicídios. "Não dá para a gente fingir que as mulheres não estão morrendo. São quatro mulheres que morrem todos os dias no nosso país", disse, acrescentando que a resposta penal atual "só pune quando chega no feminicídio".
A candidata criticou o Senado por, segundo ela, restringir o acesso ao aborto legal para crianças vítimas de estupro, e também criticou partidos de diferentes espectros por pedirem recentemente que cotas de mulheres e negros deixem de ser contabilizadas nas chapas majoritárias.
"Para nós é um completo absurdo, considerando o apagamento dessas pessoas que são maioria no nosso país", disse, citando que apenas cerca de 5% da Câmara dos Deputados é composta por mulheres.