EUA atacam porto iraniano e comprometem estratégia contra a China
Ofensiva dos Estados Unidos impacta o Chabahar, importante para a Índia na região
Um porto iraniano apoiado pela Índia e visto como contrapeso à influência chinesa, tornou-se vítima da ofensiva dos EUA contra o Irã, criando um "gol contra" geopolítico que enfraquece uma das poucas alternativas à expansão de Pequim no Oriente Médio, segundo a mídia asiática.
O porto iraniano de Chabahar, apoiado pela Índia e tradicionalmente visto como um contrapeso à influência chinesa no golfo de Omã, tornou-se vítima colateral da guerra dos Estados Unidos contra o Irã.
De acordo com o South China Morning Post, a ofensiva de Washington, antes calibrada para conter a ascensão estratégica de Pequim, agora enfraquece um dos raros projetos concebidos para limitar a presença chinesa no Oriente Médio.
Durante anos, Chabahar foi peça central da estratégia indiana para acessar o Afeganistão e a Ásia Central sem depender do Paquistão, além de funcionar como resposta ao porto paquistanês de Gwadar, operado pela China e considerado um potencial ponto de apoio logístico e de inteligência para a Marinha chinesa.
Segundo a apuração, reconhecendo esse valor, sucessivas administrações norte-americanas concederam isenções discretas de sanções para manter o porto iraniano operacional.
A mudança veio com o governo de Donald Trump, que adotou postura mais conciliatória em relação à China e demonstrou menor empeho no agrupamento estratégico formado por Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália (Quad), chegando a cancelar uma cúpula ao recusar viagem à Índia. Paralelamente, sua campanha de "pressão máxima" contra o Irã reduziu o espaço para exceções estratégicas, deixando Chabahar exposto a novas sanções e ataques militares que paralisaram operações indianas e danificaram infraestrutura crítica.
Analistas descreveram o resultado à mídia asiática como um "gol contra" geopolítico, uma vez que, ao fragilizar Chabahar, Washington compromete um dos poucos instrumentos capazes de limitar a expansão chinesa na região.
O mesmo padrão se repete no Corredor Econômico Índia–Oriente Médio–Europa, elogiado por Trump como uma rota histórica, mas que avança lentamente em meio a conflitos apoiados ou iniciados pelos EUA.
Para especialistas como Ken Moriyasu, do Hudson Institute, a competição entre grandes potências está migrando do Indo-Pacífico para o interior da Eurásia, onde a China constrói redes continentais de transporte e energia que evitam gargalos marítimos. A Índia, isolada pelo Himalaia, dependeria de Chabahar para se conectar a essas rotas — e países como o Japão também viam no porto uma alternativa não chinesa para alcançar a Ásia Central.
Com o conflito no Irã, porém, formuladores de políticas na Ásia Central já buscam caminhos alternativos, inclinando-se para rotas via Afeganistão e Paquistão ou para o próprio Corredor China-Paquistão. Moriyasu alertou à apuração que ataques norte-americanos e sanções contra o Irã podem destruir um dos poucos projetos capazes de integrar a Índia ao continente eurasiático, fortalecendo a posição continental de Pequim.
A publicação observa ainda que Washington parece disposto a manter sua campanha contra Teerã mesmo à custa de projetos alinhados a objetivos estratégicos mais amplos.
A ironia, dizem os especialistas consultados, é que, enquanto os EUA pedem maior protagonismo indiano no oceano Índico, intensificam operações na região, como a apreensão de carga militar perto do Sri Lanka e o afundamento de uma fragata iraniana.
Para observadores como Neil Quilliam, do Chatham House, o episódio evidencia que parceiros próximos nem sempre compartilham prioridades ou cronogramas estratégicos. Embora a vulnerabilidade de Chabahar possa gerar ganhos marginais para Pequim, não altera fundamentalmente o equilíbrio regional.