Presença de máfias europeias no Equador expõe fragilidades do Estado
Especialistas discutem a relação entre o narcotráfico e a vulnerabilidade institucional no país sul-americano.
A presença de organizações criminosas europeias no Equador evidencia que o narcotráfico não é um fenômeno local do país sul-americano, de acordo com especialistas ouvidos pela Sputnik.
A penetração das organizações criminosas europeias em território equatoriano responde a uma estratégia de controle logístico e financeiro, segundo o cientista político Diego Pérez:
"Essas máfias asseguraram rotas de trânsito entre os pontos de entrada até os pontos de saída e, em seguida, no trânsito da droga por mar, principalmente em direção à Europa. Elas administram toda essa cadeia logística. Evidentemente, são organizações que têm financiamentos, poderíamos dizer, ilimitados, e isso lhes permite operar com facilidade", detalha.
Em 23 de julho, foram apreendidos mais de 770 quilos de cocaína pura em um porto da Itália dentro de um contêiner de banana procedente do Equador, um dos exemplos da magnitude do problema.
De acordo com a doutora em estudos políticos e especialista em segurança, Carla Álvarez, redes internacionais estão vinculadas aos Lobos, uma das maiores e perigosas organizações criminosas do Equador, com aproximadamente 10 mil membros dedicados ao narcotráfico, extorsão e sicariato. Ela detalhou uma dessas estruturas europeias na qual seus integrantes vinham ao Equador para negociar carregamentos e garantir os envios.
"No início de 2024, ocorreu uma operação conjunta entre Equador e Espanha. Nela, houve cerca de 31 detenções aproximadamente e também foram congelados bens no valor de 48 milhões de euros [R$230 milhões]. A estrutura transnacional criminosa era liderada por um cidadão albanês que utilizava empresas frutícolas para adquirir cocaína na Colômbia, passar para o Equador e depois transportá-la para a Europa", afirma em conversa com este meio.
No caso da máfia italiana, a especialista ressalta que Giuseppe Palermo, conhecido como Peppe, foi detido em 2025. Segundo as autoridades, ele coordenava compras de cocaína na Colômbia, Peru e Equador, e era responsável por levá-las para a Europa.
Os relatórios oficiais da Polícia Nacional e do Ministério do Interior validam esse diagnóstico, ao confirmar que o crime organizado europeu opera por meio de emissários diretos em território equatoriano.
De acordo com a Direção Antinarcóticos da Polícia Nacional, 68% dos produtos exportados nos portos marítimos do país correm risco de contaminação com drogas.
Fragilidade institucional e esvaziamento estatal
A instalação dessas redes globais não teria sido possível sem as vulnerabilidades estruturais do Estado equatoriano. Segundo Pérez, a isso se soma a localização geográfica e a porosidade das fronteiras.
"O Equador está localizado perto do Peru e da Colômbia, mas também tem uma longa costa marítima, geralmente, do seu ponto de vista, pouco atendida e pouco controlada, com um elevado número de embarcações informais de pesca artesanal, o que permite camuflar ações ilegais", explica.
O governo equatoriano reconheceu, por meio de decretos de segurança, a urgência de implementar sistemas de escâneres obrigatórios nos terminais portuários privados e públicos para fechar essa brecha de controle fiscal e aduaneiro.
A infiltração estatal foi revelada em investigações de grande repercussão. Pérez vincula esse fenômeno à atuação das redes de corrupção.
"Essas organizações aumentaram sua presença, mas essa presença também se estendeu a uma série de operações com atores ligados ao Ministério Público e à Polícia Nacional. Os casos deflagrados pela Procuradoria-Geral do Estado em 2024 refletem isso", explica o especialista, referindo-se às grandes investigações que expõem a corrupção no sistema de justiça, na política e no crime organizado.
O plano nacional de segurança integral e as ações do bloco de segurança respaldam a necessidade de continuar depurando as fileiras das entidades de controle, visando recuperar a confiança dos cidadãos e a soberania territorial.
A corresponsabilidade no problema
O debate sobre a solução para esse fenômeno transnacional esbarra em uma assimetria geopolítica evidente entre os países de trânsito e os mercados de destino.
"Tende-se a sancionar e pressionar os países de trânsito; não necessariamente os países consumidores. O que isso revela é que, obviamente, se exerce mais pressão sobre os pontos mais fracos da cadeia e se reduz a noção de incidência sobre aqueles atores que são mais fortes ou que, presumivelmente, teriam instituições mais complexas", critica Pérez.
O alcance da economia criminosa supera o Produto Interno Bruto (PIB) de várias nações, e os mercados ilegais são potencialmente a quarta maior economia do mundo. Pérez conclui: "Isso não é um problema apenas dos países produtores ou de trânsito. É um problema dos países consumidores."