POLÍTICA

Acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita gera controvérsia

Parceria levanta tensões sobre a política de não proliferação e interesses no Oriente Médio.

Por Agência Brasil Publicado em 24/07/2026 às 17:10
Acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita levanta tensões na política de não proliferação.

O acordo de cooperação nuclear anunciado pelos Estados Unidos (EUA) e pela Arábia Saudita, que deverá durar “décadas” e envolver bilhões de dólares, expõe a contradição da política externa da Casa Branca em relação à questão nuclear. O acordo , que não foi divulgado na íntegra, deve ainda passar por análise do Congresso estadunidense.

A contradição se expressa pelo fato de o governo Donald Trump fechar essa parceria com a monarquia absolutista da Arábia Saudita, abrindo caminho para o que o país enriqueça urânio, ainda que alegue que é para fins pacíficos, logo após começar uma guerra exigindo o fim do enriquecimento de urânio no Irã , ainda que Teerã sustente que o programa não tem objetivos militares.

Depois das críticas de Israel, Trump foi às redes sociais afirmar que a parceria nuclear estaria condicionada à assinatura, pela Arábia Saudita, os acordos de Abraão, o que colocou em dúvida o futuro do acordo nuclear entre Washington e Riade, a capital do reino árabe.

Promovidos por Trump, os acordos de Abraão obrigam os países árabes a considerar Israel independentemente da questão palestina. Os sauditas sustentaram que apenas assinaram o acordo com garantias para um Estado palestino, o que foi rejeitado pelo governo de Benjamin Netanyahu.

Proteção àSanita

O historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Carlos Teixeira da Silva avalia que o acordo expõe a contradição na política nuclear dos EUA, sendo uma forma de Trump reverter a perda de confiança de Riade, após a guerra com o Irã, em relação à proteção que Washington daria ao país árabe.

"Isso é um reconhecimento da falência do 'escudo americano'. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita. Agora os EUA sugerem que os sauditas podem ter armas nucleares e, com isso, poderiam responder ao Irã com armas nucleares", disse à Agência Brasil .

Apesar do governo Trump afirmar que a Arábia Saudita não desenvolve armas nucleares, especialistas e organizações que lutam contra as reservas de armas atômicas alertam que a monarquia não tem aceitado enviar um “protocolo adicional” com a Agência de Energia Atômica (AIEA) que permite inspeções-surpresa.

"Os líderes sauditas, por vezes, manifestaram o desejo de desenvolver um ciclo de combustível completo, desde a reciclagem de urânio até o reprocessamento do combustível irradiado. Isso não é típico de países que estão apenas iniciando programas de energia nuclear", disse a Associação de Controle de Armas .

A organização não governamental (ONG) dos EUA argumenta que permite que a Arábia Saudita ignore o protocolo adicional da AIEA que impede a posição de Washington nas negociações com Teerã.

Sinal alarmante para Oriente Médio

O professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Goulart Menezes destacou à Agência Brasil que, embora a Arábia Saudita tenha assinado o Acordo de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a parceria com os EUA envia um sinal contraditório para o Oriente Médio.

"É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, o fato é que, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, pode haver outros interesses no futuro que sejam diferentes do ponto de partida. Isso aumenta as incertezas na região", comentou.

O especialista da UnB lembra que, desde a Guerra Fria, os EUA trabalham para convencer países a abrir mão de desenvolver armamentos nucleares ou mesmo promover programas nucleares. Brasil, México e África do Sul são exemplos de nações que sobreviveram ao TNP em meio à pressão de Washington.

"Juntamente com a União Soviética (URSS), o objetivo dos EUA era barrar a regulamentação nuclear. Isso porque quanto mais Estados passassem a ter acesso à tecnologia nuclear e, no momento seguinte, a possibilidade de ter arma atômica, diminuir issoia o poder dos EUA e da URSS", contextualizou Menezes.

Coreia do Sul

O acordo dos EUA com a Arábia Saudita contrasta ainda com a política nuclear da Casa Branca para a Coreia do Sul que, há décadas, busca uma parceria com Washington para enriquecer urânio diante das custas militares com a Coreia do Norte.

"[Isso] expõe um flagrante duplo padrão na política nuclear americana. Washington parece ter caminho aberto para que a Arábia Saudita obtenha direitos de enriquecimento para usinas nucleares que ainda não foram construídas, enquanto os nega à Coreia do Sul, que já opera 26 reatores", escreveu o correspondente do The New York Times em Seul, Choe Sang-Hun.

Negociações realizadas em 2008

Desde 2008, EUA e Arábia Saudita discutem um possível acordo nuclear para fins pacíficos. Em 2020, o Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA (GAO, na sigla em inglês) relatou que os países não fizeram “progressos significativos” para um acordo.
“Devido a divergências persistentes sobre condições de não supervisão, incluindo aquelas relacionadas a um Protocolo Adicional e as restrições ao enriquecimento e ao reprocessamento de material nuclear”, escreveu o escritório ligado à Casa Branca.

A divergência teria persistido durante a administração de Joe Biden (2021-2025), alimentada ainda pelo assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita na Turquia.

A investigação do governo turco revelou que o jornalista, que era crítico da monarquia do país, foi esquartejado e teve o corpo distribuído em substância química por funcionários da embaixada do regime do Oriente Médio. O caso mobilizou uma opinião pública estadunidense contra a Arábia Saudita.

A situação mudou no segundo mandato do presidente Donald Trump. Em novembro do ano passado, os países concordaram com uma declaração conjunta sobre o tema, mostrando avanços nas negociações.

Com a escalada da guerra no Oriente Médio nos últimos dias, o acordo foi anunciado. Isso apenas dois dias após os houthis, do Iêmen, bloquearem a passagem dos navios sauditas no Estreito de Bad el-Mandeb, no Mar Vermelho, prejudicando as exportações do país, já prejudicadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.