TRAGÉDIA EM VINHEDO

Cenipa conclui que avião da Voepass não deveria ter decolado por falha no sistema de degelo; piloto era alagoano

Relatório final aponta que aeronave partiu com equipamento inoperante sob previsão de gelo severo; falhas da tripulação e problemas na cultura de segurança da empresa também foram identificados

Por Redação Publicado em 24/07/2026 às 08:42
Voo era comandado pelo piloto alagoano, Danilo Santos Romano, de 35 anos, e a tragédia deixou 62 mortos Divulgação

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, não deveria ter sido autorizado a decolar nas condições em que operava. O voo era comandado pelo piloto alagoano, Danilo Santos Romano, de 35 anos, e a tragédia deixou 62 mortos — 58 passageiros e quatro tripulantes.

Segundo os investigadores, a aeronave ATR-72 (matrícula PS-VPB) decolou com o sistema Airframe De-Icing — responsável por evitar o acúmulo de gelo nas superfícies do avião — inoperante. Como havia previsão de formação de gelo ao longo da rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), a operação descumpriu os requisitos regulamentares de segurança e não deveria ter sido despachada.

Durante a fase de cruzeiro, a aeronave enfrentou condições severas de congelamento. O acúmulo de gelo comprometeu drasticamente o desempenho do avião, resultando em perda de velocidade, estol aerodinâmico, perda de controle e a subsequente queda sobre uma área residencial.

Falhas de tripulação e cultura operacional

Além do erro no despacho do voo, o Cenipa identificou falhas no gerenciamento da situação por parte dos pilotos. O documento aponta que a tripulação demorou a reconhecer a degradação do desempenho da aeronave e não executou a tempo os procedimentos recomendados pelo fabricante para sair da área de gelo severo e manter a velocidade mínima de segurança. O órgão ressaltou, contudo, que ambos eram habilitados e treinados para o tipo de operação.

A investigação revelou ainda fragilidades na cultura de segurança operacional da Voepass. O levantamento de mais de 1.200 voos da mesma aeronave expôs histórico de degradação de desempenho, falhas recorrentes no sistema de degelo, reinicializações sucessivas do equipamento e alertas que nem sempre recebiam a devida atenção das tripulações.

Posicionamento das autoridades e da companhia

Em nota oficial, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) declarou que fará uma análise técnica das conclusões e recomendações do Cenipa. A agência reforçou que as investigações de acidentes têm caráter estritamente preventivo e buscam aprimorar a segurança da aviação civil, sem a finalidade de atribuir culpa ou responsabilização criminal.

A Voepass também se manifestou por meio de nota, afirmando ter colaborado de forma transparente com as investigações e reiterando solidariedade aos familiares das vítimas. A companhia destacou que, em mais de 30 anos de atuação no mercado brasileiro, nunca havia registrado um acidente dessa magnitude, reforçando que sempre manteve procedimentos voltados à segurança e à capacitação de seus profissionais.