POLÍTICA

Tebet destaca impacto da diversificação comercial no Brasil

Em entrevista, a pré-candidata ao Senado analisa as tarifas americanas e seu efeito na economia brasileira.

Por Sputnik Brasil Publicado em 23/07/2026 às 20:06
Simone Tebet, em pré-campanha ao Senado, fala sobre economia e diversificação comercial do Brasil. © Douglas Cavalcante | @unasheliopolis / Flickr Simone Tebet

Em pré-campanha ao Senado por São Paulo ao lado da ex-ministra Marina Silva (Rede), Simone Tebet (PSB) afirmou, em entrevista à Sputnik Brasil, que a diversificação das relações comerciais permitiu ao Brasil resistir ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Depois de pouco mais de três anos à frente do Ministério do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet deixou a pasta no fim de março para cumprir o prazo de desincompatibilização eleitoral. Desde então, Tebet tem se dedicado à pré-campanha ao Senado pelo maior colégio eleitoral do Brasil, o estado de São Paulo, e também um dos mais desafiadores. Em entrevista à Sputnik Brasil, a ex-ministra falou sobre diversos temas, incluindo as críticas por ser chamada de "forasteira" ao escolher disputar uma vaga por São Paulo, e não por Mato Grosso do Sul, região que representou no Senado entre 2015 e 2022, além do legado de sua gestão no ministério.

Sobre um dos temas que mais têm dominado o debate público, inclusive eleitoral, Tebet vê uma resiliência brasileira frente às novas tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros — nesta quinta-feira (23), Washington chegou a anunciar um adicional de 12,5%. O motivo, para a ex-senadora, é justamente a diversificação comercial sustentada pelas relações do país em grupos como o Mercosul, o BRICS e outros países do Sul Global.

"Nós mesmos temos as Rotas de Integração Sul-Americana, que são um projeto de infraestrutura inaugurado justamente para fortalecer a relação comercial com todos os países vizinhos. Se não fossem as tratativas do Mercosul com o mercado comum europeu, se não tivéssemos, especialmente no agronegócio e na agroindústria, como nossos maiores parceiros comerciais, não só a China, mas a Ásia, o que seria do Brasil? O que seria dos mais pobres? O que seria dos empregos? O que seria da economia brasileira, atingindo todos os setores, com esse tarifaço do presidente Trump? O Brasil quebraria", disse.

Para Tebet, caso o Brasil ainda mantivesse a forte dependência do passado em relação aos Estados Unidos, país que por décadas se manteve, de longe, como o principal parceiro comercial brasileiro, o atual tarifaço poderia provocar uma recessão "talvez nunca antes vista" desde a redemocratização.

"É graças a esse pluralismo de parceiros comerciais, sem discriminação, sejam latino-americanos, como os do Mercosul, sejam europeus, sejam asiáticos, inclusive com Cingapura e Japão, e ao fato de estarmos estreitando as relações com a Índia, que o Brasil não quebrou. Só não quebra porque o nosso comércio com os Estados Unidos hoje corresponde a mais ou menos 10%", acrescentou.

Minerais raros são 'dádiva' do Brasil

Com a segunda maior reserva de metais raros do mundo, atrás apenas da China, o Brasil também tem atraído cada vez mais o interesse de países interessados em explorar esses minerais, a exemplo dos próprios Estados Unidos. Para a pré-candidata, é crucial que o país saiba aproveitar "essa dádiva" para o desenvolvimento, sempre com sustentabilidade. Para isso, Tebet defende um marco regulatório que garanta investimentos estrangeiros que agreguem valor à cadeia produtiva brasileira, especialmente nos setores industrial e tecnológico. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), texto que está em análise no Senado.

"A legislação precisa, sem discriminação da origem do dinheiro, aceitar investimentos estrangeiros vindos de onde quer que sejam, dentro de um processo, obviamente, de disputa licitatória, porque não há recursos suficientes no Brasil. Portanto, estou falando de uma parceria entre investimento público e investimento privado, nacional e estrangeiro. As nossas empresas e os nossos empresários vão precisar de parcerias com investidores estrangeiros e, com isso, explorar os minerais com responsabilidade. Mas faço uma ressalva: nós não podemos fazer com os minerais críticos o mesmo que fizemos com as nossas [demais] commodities", afirma.

Tebet ressaltou que a defesa da agregação de valor aos minerais críticos parte de alguém ligado ao agronegócio, setor que, segundo ela, é fundamental para a balança comercial brasileira, mas que historicamente exportou commodities com baixo grau de processamento. Para a pré-candidata, o Brasil precisa exigir que parte da produção seja beneficiada no país, fortalecendo a indústria e contribuindo para gerar empregos com maior remuneração.

"Senão, nós vamos ficar eternamente como o Brasil do futuro e vamos perder, quem sabe, uma das últimas oportunidades de transformar o Brasil, que hoje é um país de classe média, em um país verdadeiramente rico", afirmou.

Equilíbrio fiscal e planejamento de longo prazo como legado

Ao fazer um balanço de sua passagem pelo Ministério do Planejamento e Orçamento, Tebet afirmou que deixa como principal legado a combinação entre responsabilidade fiscal e planejamento de longo prazo. Segundo a pré-candidata, a pasta buscou aumentar a eficiência dos gastos públicos para garantir recursos às políticas essenciais, ao mesmo tempo em que retomou a cultura do planejamento estratégico no governo federal.

Tebet lembrou que o Ministério do Planejamento foi recriado e incorporado à pasta do Orçamento no atual governo e destacou a elaboração do Plano Plurianual (PPA) Participativo, construído a partir de consultas em todos os estados brasileiros e com representantes de diferentes setores da sociedade. Segundo ela, o objetivo foi fazer com que investimentos, obras e políticas públicas dos quatro anos de governo refletissem as prioridades apontadas pela população.

Tebet também ressaltou a elaboração de um plano inédito para orientar o desenvolvimento do país pelos próximos 25 anos. O documento reúne metas e indicadores para áreas como ciência, tecnologia, inovação, geração de empregos, segurança pública, agronegócio, agricultura familiar e sustentabilidade. A proposta foi concluída e entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas deverá ser encaminhada ao Congresso Nacional apenas após as eleições, para buscar maior consenso político.

"Então, eu digo que o legado que nós deixamos para o Brasil é um legado com foco no presente, lembrando que não é possível projetar apenas o Brasil do futuro, pensar nas crianças que ainda não nasceram e nos idosos que ainda seremos sem focar também o trabalho no presente", afirmou.

Segundo Tebet, um dos maiores desafios encontrados na gestão foi recompor o orçamento federal após a pandemia. A ex-ministra afirmou que diversas políticas públicas, incluindo programas sociais, ações voltadas às mudanças climáticas e o Minha Casa, Minha Vida, não contavam com recursos suficientes quando a atual administração assumiu o governo.

Tebet afirma que o Brasil ainda carece de uma cultura de planejamento de longo prazo, problema que, segundo ela, ultrapassa governos e atinge também a sociedade, a classe política e a própria administração pública.

"Por isso, esse tema não aparece nas páginas dos jornais, não é divulgado pela imprensa e não é cobrado pelos diferentes setores da sociedade. Diferentemente do setor privado, que planeja antes de investir, isso não faz parte da cultura da máquina pública, desde uma Câmara de Vereadores até o Congresso Nacional, de uma prefeitura até a Presidência da República. Esse é o grande mal do Brasil. É por isso que a gente patina, patina, patina e não consegue avançar no desenvolvimento social e econômico", conclui.