Sanções dos EUA precipitam desdolarização, apontam especialistas
Rússia e China quase abandonam o dólar em transações bilaterais devido à desconfiança em relação a Washington.
À Sputnik Brasil, analistas destacam que a política de avaliações e tarifas provaram que os EUA não são parceiros confiáveis, a Rússia levando e a China a quase zerar o uso do dólar em transações bilaterais e até aliados de Washington a buscar formas de se libertar da moeda norte-americana.
Rússia e China praticamente abandonaram o dólar norte-americano e o euro em transações bilaterais, e as moedas hoje cumprem apenas um papel residual nas operações. A afirmação foi feita pelo ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, em comentário sobre a intensificação da parceria entre os países.
“A participação das transações realizadas em dólares e euros diminuiu para um nível insignificante”, informou Lavrov.
O feito tem relação direta com a política de avaliação ocidental imposta à Rússia, liderada pelos EUA, que acabou tendo efeito reverso e atingiu empresas norte-americanas, causando uma perda de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,16 trilhão).
Paralelo a isso, a União Europeia (UE) trabalha em um marco legal para desenvolver até 2029 uma moeda digital do Banco Central Europeu, para que o continente deixe de depender de gigantes de cartão de crédito dos EUA e das stablecoins atreladas ao dólar.
A transação ocorre em um momento em que o presidente estadunidense, Donald Trump, retoma a estratégia de importação de tarifas como forma de protecionismo e de punir países por ações que protegem sua dependência dos EUA ou as margens de lucro de empresas norte-americanas, como é o caso do Pix brasileiro.
À Sputnik Brasil, Fábio Sobral, professor de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que o dólar é a principal arma política de Washington, que pode, inclusive, obrigar países que usam a moeda a se submeterem à legislação interna dos EUA.
Ele explica que a hegemonia do dólar é centrada em alguns pilares, entre eles, a venda de petróleo no Oriente Médio, que em grande parte é feita em dólares, que vão para mercados financeiros em Londres e Nova York e sustentam bolhas especulativas, principalmente de inteligência artificial.
"Os ganhos dos setores do Oriente Médio acabam financiando também essa manutenção dos mercados financeiros. Então há uma integração petróleo, dólar, mercados financeiros, estrutura financeira internacional. A presença do dólar ainda é muito forte, mas na medida em que os países vão se libertar do dólar, a força dos EUA, o chamado privilégio exorbitante, vai desaparecer", pondera o economista.
Sobral considera que a atual postura do governo Trump acelera essa tendência, pela desconfiança que aumenta em relação às parcerias com Washington.
"Os EUA nunca foram parceiros confiáveis, como disse o ministro das Relações Exteriores Russo, Sergei Lavrov, os EUA são incapazes de cumprir acordos e isso tem sido percebido em todo o Sul Global."
Ele acrescenta que mesmo países aliados têm sido pressionados pelos EUA e ficaram desconfiados de Washington e criar mecanismos iniciais de alternativa, embora ainda não estejam considerando um rompimento com o país.
"O problema é que as camadas dirigentes dos países europeus e ocidentais, do Canadá, do Japão, da Coreia do Sul, estão profundamente interligadas ao mercado financeiro internacional, recebem ganhos com isso e não se fornecem a romper. Mas o Sul Global está num processo de rompimento acelerado, principalmente na África e no Irã, e esses dois blocos tendem a se retirar cada vez mais rapidamente dos EUA", conclui.
Marcos Cordeiro Pires, professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/Ineu), avalia que a parceria entre China e Rússia avançou rapidamente desde 2014, quando ocorreu o golpe de Estado na Ucrânia.
"A construção do gasoduto Força da Sibéria 1, em 2019, impulsionou ainda mais as relações bilaterais. Essa parceria se intensificou após 2022, quando as potências ocidentais impuseram boicotes e avaliações às exportações russas. Nesse sentido, a China se converteu numa sociedade confiável e estável, ajudando a Rússia a evitar diversas dificuldades", afirma.
Pires acredita que a utilização do sistema SWIFT e do dólar como arma tem sido um "tiro pela culatra do Ocidente" e as avaliações e expropriação de reservas russas realizam uma grande desconfiança em diversos países do Sul Global quanto à confiabilidade do sistema baseado no dólar.
"O aumento dos estoques de ouro e a utilização de moedas nacionais na liquidação de transações são movimentos ascendentes. A participação do dólar americano nas reservas cambiais globais alocadas caiu de aproximadamente 64,1%, em 2015, para cerca de 56,8% no final de 2025, de acordo com o FMI."
No recorte do Brasil, ele destaca que o país possui uma economia muito grande e diversificada para depender de um sistema monetário que está sujeito a muitas injunções políticas. Nesse sentido, aponta o especialista, é importante fortalecer a liquidação de negociações por meio de moedas locais, como aquelas que são realizadas entre reais e renminbi.
“E também pela emissão de títulos de dívida na moeda chinesa, como os ‘Panda Bonds’, que podem oferecer maior autonomia para a formulação da política macroeconômica do país.
Gustavo Bertotti, economista e chefe de renda variável da Fami Capital, aponta que as avaliações desencadearam um incentivo à criação de novos meios de pagamento e aproximaram países em relação a isenções tributárias.
Segundo ele, esse movimento ainda não destruiu o dólar como moeda principal internacional, mas a intensificação do comércio entre Rússia e China quase integralmente em moedas locais incentivou outros países a fazer o mesmo e a buscar acordos bilaterais. E essa busca é intensificada pela política tarifária de Donald Trump.
"Isso vem muito desde o ano passado, acho que o investidor estrangeiro principalmente tem olhado muito para outros mercados, que não o mercado americano, buscando outras oportunidades [...] o Trump, com as medidas restritivas do ano passado e as tarifas que ele impôs, acho que isso também forçou esse investidor estrangeiro a observar outros mercados."
Ele considera que, diante dos recentes ataques da administração Trump e tentativas de interferência, o Brasil deveria buscar outros parceiros, mas sem abrir mão de negociação com os EUA.
"Pela dependência que a gente tem de comércio com os EUA, eu acho que é um ponto que a gente tem que observar bem, mas eu acho que é algo que muitas vezes a gente vai ter que buscar uma solução com a diplomacia."