Analistas apontam que suspensão de sanções é crucial para o Irã
Especialistas discutem as consequências da redução das sanções na economia iraniana e as relações com aliados.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destrincham a relação de Teerã com Estados árabes e aliados, além do futuro da guerra e do próprio país.
Os Estados Unidos, ao lado de Israel, têm realizado ataques desde fevereiro ao território do Irã. Como resposta, Teerã tem bombardeado bases norte-americanas na região do golfo Pérsico e, principalmente, controlado o que entra e o que sai pelo estreito de Ormuz.
Em junho, os governos do Irã e dos Estados Unidos assinaram um memorando de entendimento que, dentre os termos, estabelecia um plano de US$ 300 bilhões (R$ 1,52 bilhão) para a reconstrução do território iraniano, proveniente de fontes privadas e de parceiros regionais de Washington.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas declararam que o mais importante para Teerã, hoje, é a suspensão das sanções impostas por países e entidades ocidentais.
Gabriel Mathias Soares, doutor em história social, mestre em estudos árabes pela Universidade de São Paulo (USP) e global fellow na Universidade Habib, em Karachi, no Paquistão, explica que é muito difícil por parte do Irã ter qualquer garantia de que esse valor será enviado aos cofres de Teerã.
Para o especialista, a cessação total das hostilidades é necessária para que qualquer acordo seja colocado em prática, em especial, uma reestruturação econômica da relação entre Ocidente e Irã.
"[Os US$ 300 bilhões] certamente seriam importantes e benéficos, mas o tamanho do Irã, da sua economia, do seu potencial… Na realidade, qualquer tipo de remoção das sanções ou vista grossa para violações dessas sanções vai ser até mais benéfico, até mais importante nesse sentido do que um fundo para reconstruir [o país]."
Soares explica que aliados do Irã, como China, Rússia, e até mesmo a Turquia, poderiam ganhar com uma economia iraniana mais englobada ao restante do mercado.
"Sem a remoção das sanções, que são duríssimas, é difícil para esses países realizarem um negócio sem que haja retribuição ou até serem afetados pelas tarifas que os Estados Unidos impõem ao Irã."
Nessa negociação, Soares enxerga o estreito de Ormuz como o principal ativo de Teerã, uma condição geográfica favorável inerente às discussões nas mesas de negociação.
"Acho que a grande força do Irã é o fato de que ele tem sempre ali, à sua disposição, a realidade geográfica do estreito de Ormuz como uma grande carta que ele pode, mesmo com as perdas que ele tem nos ataques, ter à disposição."
Outro fator que pode favorecer o lado iraniano é a queda da hegemonia do dólar na economia mundial. No entanto, para Soares, essa redução do poder de Washington perante o globo é uma das razões pelas quais a Casa Branca tem agido com tanta agressividade, seja militar ou tarifária.
Ali Ramos, analista de geopolítica, cientista político e idealizador do canal Vento Leste, acredita que os valores estabelecidos no memorando de entendimento para a reconstrução iraniana tinham como objetivo favorecer empreiteiras norte-americanas, assim como aconteceu no processo de reconstrução do Iraque.
"Os Estados Unidos da América nunca respeitaram um acordo na vida. Nada me fez crer, nesse momento histórico, que seria diferente. E estamos aí novamente, analisando mais uma vez a guerra."
Especificamente sobre a Turquia, Ramos não vê como um dos interesses de Ancara a reestruturação total do Irã, tampouco a sua queda definitiva.
"Existe um Curdistão no Iraque e na Síria, e a questão curda é mais estrategicamente frágil vista pelos turcos hoje. Se o Irã cair, com certeza vai se estabelecer um Curdistão autônomo, pelo menos ali no norte do Irã, nas regiões curdas, e isso vai causar um problema no médio e longo prazo para a Turquia."
Para Ramos, a movimentação dos negociadores de Washington para o fim das hostilidades no Oriente Médio só serviu para que as tropas estadunidenses se rearmassem e tomassem fôlego para continuar as hostilidades. Na visão do especialista, muitos analistas resumem essa guerra a um "computador que faz tudo", mas derrotar um inimigo exige um esforço muito maior.
"Trump não teria peito para enviar 1 milhão de soldados para o Irã e guerrear, porque o número de baixas seria alto demais e provavelmente faria o governo dele cair, tendo em mente que essa é a guerra mais impopular da história dos Estados Unidos. […] Tem questões que não têm resolução militar, não adianta tentar resolver por essa via. Só que, claro, Trump não tem margem de manobra nenhuma porque ele obedece a tudo o que Israel manda."
Por Sputinik Brasil