Acordo Sul-Americano pode impulsionar economia brasileira, diz especialista
Memorando de Entendimento foi assinado para promover a liberalização aérea na região.
A assinatura do Memorando de Entendimento do Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana (ALAS) , ocorrido em Assunção, reposicionou a diplomacia econômica na região, estabelecendo uma nova estratégia de conectividade competitiva pelo governo brasileiro. Dessa forma, o país dribla uma forte fragmentação e polarização ideológica na América do Sul.
A iniciativa brasileira, também chamada de 'Céu Único Sul-Americano', composta inicialmente por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, além de uma possível adesão do Uruguai, demonstra que Brasília, por meio da cooperação técnica e comercial, também busca o fortalecimento de sua liderança regional, apesar do momento político de fragmentação na América do Sul, conforme explicado em entrevista à Sputnik Brasil a professora de relações internacionais Ana Carolina Marson.
“Eu acho que essa ideia de mobilização do entorno regional em torno dessa defesa do multilateralismo também é para manter a influência [brasileira] no cenário internacional, principalmente nesse entorno regional. O presidente Lula, desde seu primeiro mandato, é uma figura que quer esse protagonismo”, disse.
Outro ponto levantado por analistas internacionais é que o memorando foi feito fora do Mercosul, a partir do esforço brasileiro, o que demonstra que o bloco econômico está rachado internamente e que isso impede grandes movimentações do Brasil, mas que, ao mesmo tempo, essa ação não é uma forma de influência importante como os Estados Unidos atuam na América Latina.
"Acredito que essa ideia do espaço aéreo fora do âmbito do Mercosul se deve muito ao fato de que, hoje no Mercosul, o Brasil não consegue ter tanta abertura para negociar isso. Mas não é uma maneira de exercer influência da forma como os EUA querem fazer. Porque os Estados Unidos, por exemplo, usam essas tarifas para influenciar eleições aqui no Brasil", comenta.
Sob taxas, o Brasil 'decola' para outros mercados
Outra necessidade apontada por Marson é que o Planalto, ao ser taxado mais uma vez pela Casa Branca, precisa diversificar e reforçar parcerias comerciais. Desta forma, a aviação acaba sendo um ativo importante para movimentar a economia ao mesmo tempo que busca estreitamente a integração regional.
"Esse movimento de maior tentativa de integração latino-americana está muito condicionado a esse cenário internacional hostil. O Brasil vem sofrendo uma série de avaliações dos EUA, que é nosso segundo maior parceiro comercial, sem embasamento algum. Então, o Brasil precisa diversificar suas parcerias comerciais", destaca.
Apesar de uma proposta de um céu comum para as companhias aéreas sul-americanas ter como propor a política de ganhos-ganha, ou seja, que todos seriam beneficiados, inclusive os países com economias de menor porte, segundo Marson, muitos países da região têm certa desconfiança do Brasil, associando-o a um suposto 'subimperialismo'.
"O Brasil sempre se colocou dentro do nosso entorno regional latino-americano como querendo ocupar essa posição de liderança. Nem sempre isso é bem visto pela América Latina. Em alguns países, o Brasil é visto como um país subimperialista, ou seja, que tem pretensões imperialistas também no território sul-americano", observa.
Céu em comum pode aumentar o fluxo comercial
Um projeto internacionalista que, quando esse acordo entrar em vigor, será muito vantajoso para a Embraer, um dos principais fabricantes do setor de aviação no mundo, para poder atuar com mais capilaridade na região e, com isso, elevar o nível das exportações brasileiras.
"Para a Embraer, que é uma empresa brasileira muito bem estabelecida, vai ser ótimo. Isso também vai melhorar as chamadas cadeias globais de valor e a exportação de produtos de alto valor agregado. Então, essa tentativa de criar esse espaço aéreo será boa para o Brasil também", pontua.
Atualmente, como elucida Marson, o memorando tem como pontos centrais a discussão das liberdades do ar, ou seja, como as empresas de aviação irão atuar fora de seus países após a entrada em vigor do acordo.
"Alguns pontos do memorando de entendimento estão relacionados ao tráfego aéreo, as chamadas liberdades do ar, que são nove e a sétima, que estão sendo negociadas, por exemplo, permite que uma empresa aérea brasileira opere da Argentina para o Peru sem passar pelo Brasil. Isso vai ser significativo, principalmente para carga, porque o foco do governo brasileiro é ampliar o comércio de cargas", conclui.
Em um cenário internacional turbulento, marcado por conflitos, avaliações e taxas feitas de forma unilateral, a aviação, além de ser um setor estratégico, também se torna um motor propulsor da economia. No panorama sul-americano, pode vir a ser um caminho técnico para uma integração regional pragmática.