Com a IA nas tarefas básicas, empresas passam a exigir mais raciocínio dos jovens
Pesquisa da Ford e do Datafolha mostra que 98% das médias e grandes empresas consultadas têm dificuldade para contratar profissionais de tecnologia
Organizar planilhas, reunir informações, preparar apresentações e produzir a primeira versão de um relatório já foram tarefas comuns de quem começava a carreira. Com a inteligência artificial, parte desse trabalho pode ser realizada em poucos minutos. A mudança não elimina a importância dos jovens nas empresas, mas altera o que se espera deles desde o primeiro emprego.
Se antes o profissional iniciante era avaliado principalmente pela capacidade de executar atividades básicas, agora precisa também analisar o material produzido pela tecnologia, identificar inconsistências e decidir o que pode ou não ser aproveitado. Saber usar uma ferramenta deixou de ser suficiente. É necessário compreender o problema e avaliar a qualidade da resposta.
Esse novo patamar de exigência encontra um mercado com dificuldades para localizar pessoas preparadas. Pesquisa realizada pela Ford em parceria com o Datafolha, divulgada em abril, revelou que 98% das médias e grandes empresas consultadas enfrentam obstáculos para contratar profissionais de tecnologia. O levantamento ouviu 250 líderes de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação de diferentes setores e regiões do país.
A falta de conhecimento técnico foi apontada por 72% dos entrevistados, enquanto 54% citaram a ausência de experiência. Especialistas em inteligência artificial, mencionados por 35%, e engenheiros de software, por 31%, lideram a lista das posições mais difíceis de preencher. Segurança da informação, com 30%, e inteligência artificial e machine learning, com 29%, aparecem entre os conhecimentos mais escassos.
O problema, no entanto, não se limita à formação técnica. Segundo o estudo, 37% das organizações rejeitam com frequência candidatos tecnicamente aptos por falta de competências comportamentais. Pensamento crítico e capacidade de resolver problemas estão entre as habilidades mais difíceis de encontrar, citados por 33% das companhias.
Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada em competências tecnológicas, os números revelam uma distância entre a formação dos jovens e o trabalho que começa a ganhar espaço nas empresas.
“As empresas não procuram apenas quem sabe cumprir uma tarefa. Elas precisam de pessoas capazes de entender o contexto, interpretar um resultado gerado pela inteligência artificial e perceber quando aquela resposta deve ser questionada. Esse preparo ainda recebe pouco espaço na educação tradicional”, afirma.
Na avaliação de Giroto, o contato com lógica, dados e pensamento computacional precisa ocorrer antes da entrada no mercado. O objetivo não é transformar todos os estudantes em programadores, mas desenvolver uma compreensão mais ampla sobre o funcionamento da tecnologia e seus limites.
“O primeiro emprego sempre funcionou como uma etapa de aprendizado. A diferença é que muitas das tarefas usadas para formar esse profissional agora podem ser executadas pela inteligência artificial. O jovem precisa chegar mais preparado para observar, interpretar e tomar decisões. A tecnologia não substitui o raciocínio. Ela aumenta a necessidade de saber pensar”, conclui.