Brasil avança em voo hipersônico com projeto 14-X
Força Aérea Brasileira busca integrar o país ao seleto grupo de nações com capacidades de voo hipersônico.
Poucos países dominam tecnologias de voo hipersônico, capazes de ultrapassar cinco vezes a velocidade do som. O Brasil quer entrar nesse seleto grupo por meio do projeto 14-X, desenvolvido pela Força Aérea Brasileira (FAB), que ganhou prioridade estratégica no programa Nova Indústria Brasil.
Era o centenário do primeiro voo oficialmente reconhecido na história mundial — em 1906, o brasileiro Santos Dumont fez o icônico 14-bis decolar, voar e pousar em Paris sem o auxílio de catapultas — quando, em comemoração à data, a FAB batizava um projeto que prometia colocar o Brasil mais uma vez na história, com o 14-X. A proposta era iniciar os estudos para que o país desenvolvesse as tecnologias necessárias para dominar o voo hipersônico, atualmente restrito a um grupo seleto de países, como Rússia, China e Estados Unidos.
O projeto Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper) é desenvolvido pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv), vinculados à FAB. O primeiro voo-teste foi realizado em dezembro de 2021, no Centro de Lançamento de Alcântara, ocasião em que alcançou mais de 30 quilômetros de altitude e velocidades próximas a Mach 6 (cerca de 7.350 km/h). Para garantir a continuidade do projeto, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluiu, no ano passado, a meta de concluir a plataforma nacional para voos hipersônicos até 2033, por meio do programa Nova Indústria Brasil (NIB).
Atualmente, o projeto 14-X concentra esforços no desenvolvimento do motor scramjet (Supersonic Combustion Ramjet, em inglês), que permite alcançar velocidades de até dez vezes a do som ao utilizar o ar da própria atmosfera para a combustão do hidrogênio. Além disso, a FAB inaugurou no último mês o Túnel Hipersônico T5, localizado na sede do IEAv, em São José dos Campos (SP). Com 50 metros de comprimento e considerado um dos mais avançados do hemisfério Sul, o equipamento permitirá a realização de pesquisas de ponta na engenharia aeroespacial.
Brasil ainda engatinha rumo à tecnologia hipersônica?
Apesar dos avanços recentes, especialistas afirmam que o Brasil ainda está nos estágios iniciais do domínio dessa tecnologia. À Sputnik Brasil, o professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC) Annibal Hetem Junior compara esse processo a uma caminhada de 100 passos e avalia que o país está atualmente por volta do quinto.
"É muito no começo, mas não é zero. Havia um túnel de vento hipersônico antes, que também ficava em São José dos Campos, mas ele tinha restrições. Conseguia trabalhar com modelos e peças pequenas por um intervalo de tempo extremamente curto, coisa de milissegundos. Esse novo túnel permite aumentarmos a escala dos experimentos", afirma. Segundo ele, o equipamento também permitirá validar teorias já desenvolvidas, mas que ainda precisavam ser testadas.
Conforme o especialista, o voo hipersônico representa um regime distinto da engenharia aeroespacial. Isso porque, à medida que uma aeronave aumenta sua velocidade, as características físicas do escoamento do ar e as forças que atuam sobre o veículo mudam significativamente, exigindo novas soluções de engenharia. Enquanto o regime supersônico compreende velocidades acima da velocidade do som até cerca de Mach 5, o hipersônico abrange velocidades superiores, que atualmente podem ultrapassar Mach 14 (cerca de 17 mil km/h).
"O voo hipersônico é importante para o Brasil por representar um avanço científico, tecnológico e de engenharia. Neste momento, acredito que seu principal papel não seja o uso maciço como sistema de defesa, mas o desenvolvimento de tecnologias, a formação de profissionais e o fortalecimento da indústria aeroespacial para atender às demandas desse tipo de projeto", afirma.
Sobre a meta estabelecida pelo governo brasileiro, Hetem acredita que há condições de cumprir o cronograma, desde que o orçamento seja contínuo e sem cortes, incluindo os insumos e equipamentos necessários para a realização das pesquisas. "Se tudo isso se mantiver, acredito que esse prazo é razoável. Por outro lado, sabemos da história de outros projetos brasileiros em que os prazos vão sendo adiados em função de problemas como a indisponibilidade orçamentária."
Já o doutor em ciências militares e pesquisador do Grupo de Pesquisa Geopolítica, Economia de Defesa e Desenvolvimento (GEDD) Erick Andrade compara o desafio de desenvolver essa tecnologia a acender uma fogueira na base de um furacão.
"O mais difícil é o desenvolvimento do próprio motor scramjet, que, diferentemente dos convencionais, usa o ar da atmosfera em altíssimas velocidades para a combustão. Não há compressores: o ar é comprimido por sua própria velocidade de entrada na câmara de combustão, em velocidades supersônicas, o que resulta em gases de altíssima pressão e velocidade", enfatiza.
Em relação ao aporte de R$ 93 milhões concedido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) ao 14-X, Andrade afirma que o recurso deu uma sobrevida ao projeto, mas considera essencial a destinação de novos investimentos para garantir a continuidade dos estudos.
"Não creio que o Brasil esteja tão atrasado assim nessa corrida tecnológica, já que pouquíssimos países possuem de fato mísseis hipersônicos ativos e testados. Contudo, temos que ficar atentos: o avanço tecnológico ocorre hoje em um piscar de olhos e, sem planejamento e investimento robusto nessas tecnologias disruptivas, ficaremos mais uma vez para trás", alerta.
Voos hipersônicos no setor de defesa
Dos mísseis aos veículos planadores hipersônicos, que combinam velocidades extremas com elevada capacidade de manobra, essa tecnologia é relativamente recente no setor militar, com a Rússia operando o primeiro equipamento em 2018. Além de permitir ataques rápidos, ela também pode ser empregada em sistemas de defesa antimísseis, permitindo a interceptação de ameaças. Segundo o professor da UFABC, o Brasil é o único país da América do Sul que desenvolve pesquisas na área.
"Na lista [de países que possuem ao menos protótipos voando], temos Estados Unidos, China, Rússia, Índia, França, Japão e Austrália. Este último, inclusivo, é um caso interessante, porque iniciou os estudos praticamente na mesma época que o Brasil, mas conseguiu avançar rapidamente", compara.
Questionado sobre o motivo de o país ter ficado para trás em relação ao caso australiano, Annibal Hetem Junior aponta justamente a capacidade de financiamento, sobretudo em tecnologias sensíveis ligadas ao setor de defesa. Como exemplo, o professor lembra que o Brasil possui excelência em diversas áreas de inovação, como o sistema bancário e o agronegócio, no qual domina técnicas de melhoramento genético e culturas especiais, sendo considerado referência mundial.
"Claro que isso está diretamente ligado ao nível de financiamento. Ciência custa dinheiro, não tem outro jeito. Quando se investe mais em determinadas áreas do que em outras, isso reflete o interesse estratégico do país. Não significa que as demais parem de avançar, mas elas evoluem em um ritmo mais lento."
Brasil e a reação das potências
Na avaliação do especialista, o avanço brasileiro no desenvolvimento de tecnologias hipersônicas também pode despertar a atenção de outras potências, já que a competição internacional é cada vez mais pautada pelo domínio tecnológico. Segundo ele, é natural que países que já dominam esse tipo de capacidade acompanhem com cautela a entrada de novos atores nesse segmento.
Apesar disso, ele ressalta que a tecnologia hipersônica não deve ser encarada apenas sob a ótica militar. Para o pesquisador, caso o Brasil alcance um elevado nível de desenvolvimento e produção, poderá transformar esse conhecimento em um ativo estratégico também sob a perspectiva econômica.
"Se a gente chegar à excelência de fabricação, poderá, no futuro, negociar e vender essa tecnologia para parceiros com os quais temos afinidade. Não devemos enxergar a tecnologia hipersônica apenas como um instrumento de defesa ou bélico, mas também como um produto que pode ser comercializado", finaliza.