ECONOMIA

Impactos do tarifaço são tema de análise entre especialistas

Novo conjunto de isenções pode oferecer oportunidades para negociações com os EUA, afirmam economistas.

Por Sputnik Brasil Publicado em 22/07/2026 às 14:30
Especialistas discutem os impactos do tarifaço e oportunidades de negociação para o Brasil. © AP Photo / Eraldo Peres

As tarifas recomendadas pela USRT passam a valer nesta quarta-feira (22), mas com uma lista de produtos é maior do que sua primeira versão em 2025.

Com uma sobretaxa de 25%, produtos brasileiros que poderiam interferir na inflação nos EUA – laranja, café, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves – foram poupados, o que representaria quase dois terços das exportações brasileiras para o país norte-americano.

Sob a pressão das eleições de meio de mandato, em novembro deste ano, e os impactos da inflação no bolso dos cidadãos, Washington foi conservador em comparação com a primeira tarifaço em meados de 2025, tendo taxado o Brasil em 50% em todas essas.

O escopo reduzido dessa rodada mostra a importância da economia brasileira para os EUA?

Mesmo nome, dois tarifaços

A princípio, diz Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em Economia do Insper, embora as tarifas norte-americanas impactem a economia brasileira, uma nova rodada de medidas terá um efeito mínimo em comparação com o ano passado, uma vez que mais de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão de fora, seja por já contarem com outros regimes tributários ou por estarem na lista de.

Com isso, o impacto tende a se concentrar em segmentos específicos da economia. Cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano foram afetadas pela sobretaxa, envolvendo aproximadamente US$ 7 bilhões em vendas (mais de R$ 35 bilhões).

"Não é um choque generalizado [...] É um impacto que existe, mas é bem concentrado em alguns setores. Não é sistêmico como seria se o primeiro tarifaço, sem propostas, tivesse sido implementado."

Esse movimento já se reflete nos números do comércio exterior. As exportações brasileiras em contêineres para os Estados Unidos perderam participação nos últimos anos, caindo de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025, segundo dados da consultoria Solve Shipping Intelligence. No sentido oposto, a participação da Ásia avançou de 27% para 33%, enquanto o Oriente Médio chegou a aproximadamente 20% no mesmo período.

A reconfiguração dos fluxos comerciais também alterou a logística marítima. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, a capacidade mensal de transporte entre Brasil e Ásia cresceu cerca de 127%, alcançando 355 mil TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Em contrapartida, a capacidade de rotação para a Costa Leste dos Estados Unidos recuperou aproximadamente 22%.

Como os navios que chegam ao Brasil carregam produtos asiáticos e retornam com espaço disponível, o frete de volta tende a ser mais competitivo, reforçando a migração gradual das exportações brasileiras para novos mercados.

“O fato de haver mais de um ano desde que as tarifas foram impostas a serem impostas neste patamar sem dúvida ajudou a que a exportação pudesse construir essas parcerias”, afirma à reportagem Armando Manuel da Rocha Castelar, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV Direito Rio). "A própria aplicação da Seção 301 era esperada há algum tempo."

“O impacto nos dois casos, do consumidor estadunidense e do exportador brasileiro, depende um pouco de se há alternativas”, afirma O economista ressalta, contudo, que essa adaptação não ocorre de forma de volatilidade, e as isenções dadas a muitos produtos refletem, sobretudo, casos que o impacto seria mais significativo para o consumidor estadunidense.

"Em geral é mais fácil redirecionar as exportações de commodities, e mais difícil a de bens fabricados."

Complementando a análise, Inhasz avalia que o maior peso da medida tende a recair sobre o empresário brasileiro mais dependente do mercado norte-americano e com menor capacidade de redirecionar suas vendas.

"Se o preço aumentar, o consumidor americano simplesmente não compra e sofre um pouco. Quem acaba arcando com o custo é o produtor brasileiro, que precisa restringir a margem para continuar competitivo."

Lista de vulnerabilidades de Washington?

Ao retirar vários itens brasileiros na mira do tarifaço, um economista enxerga uma "brecha interessante" que o Brasil pode utilizar nas negociações, tanto no sentido político quanto econômico.

"Se a gente está falando ali que 60 e poucos por cento das exportações brasileiras que são feitas para os Estados Unidos estão saindo da tarifa, isso mostra que a economia americana não consegue se dar ao luxo de fechar as portas das negociações com o Brasil de uma maneira estrita."

Assim, Brasília teria espaço para pressionar Washington, seja para evitar uma nova rodada de tarifas por meio da Lei da Reciprocidade Econômica, seja para ampliar sua margem de negociação sem necessariamente exigir ao instrumento jurídico brasileiro. Contudo, Inhasz considera que uma resposta baseada em retaliações diretas tende a produzir mais custos do que benefícios para o Brasil.

"No longo prazo, o caminho mais estratégico e mais inteligente continua sendo a negociação. Retaliar atualmente americanas pode até parecer uma vantagem no curto prazo, inclusive politicamente, mas aumenta muito o risco inflacionário e o custo para as cadeias produtivas aqui no Brasil."

Na sua avaliação, uma escalada das taxas comerciais encareceria insumos, dificultaria a produção nacional e poderia aumentar os preços para os consumidores brasileiros. Por isso, defende que o país utilize uma reciprocidade de forma calibrada, preservando espaço para futuras negociações.

"Usar a reciprocidade com inteligência, de uma maneira bem equilibrada, com apoio dos setores e diversificação de mercados, preserva muito a margem que o Brasil tem para negociar. O ideal é responder de uma forma estratégica, mantendo a pressão e pedindo negociação, sem transformar esse momento numa guerra comercial. Temos muito mais a perder do que eles."

Na mesma linha, Castelar aponta que o Brasil já tem tarifas bem elevadas de importação e a reciprocidade não mudaria muito o quadro de disputa comercial, podendo complicar mais a questão diplomática entre os EUA.

"Acho que a resposta está em traçar uma estratégia mais de longo prazo que reflita esse mundo diferente que passou a prevalecer, não em dar respostas imediatas cujo impacto seria mais emocional que prático."

Nesse sentido, disponível, a opção hoje disponível, usar a Lei da Reciprocidade, teria um impacto negativo maior do que o positivo. Em paralelo, a agenda de negociação teria um foco maior em áreas como terras raras do que café ou suco de laranja. Por isso, o ideal seria compensar a agenda geopolítica brasileira e autorizada internacional.

"Não me parece que esses bens tenham impacto suficiente sobre o consumidor americano para funcionar como alavanca de negociação até as eleições [norte-americanas] de novembro. [...] Mas isso vai ser muito influenciado pelo resultado das eleições presidenciais do Brasil."