CONFLITO

Intensificação da guerra no Iêmen pode afetar a economia global, aponta especialista

Analista alerta que retomada das hostilidades no Oriente Médio amplia crise e prolonga instabilidade regional.

Por Sputnik Brasil Publicado em 22/07/2026 às 13:40
Especialista analisa impactos da intensificação do conflito no Iêmen sobre a economia global. © AP Photo / Osamah Abdulrahman

Em entrevista ao Mundioka, Beatriz Gomes analisa como a retomada do conflito entre o Ansar Allah e a Arábia Saudita pode agravar a instabilidade no Oriente Médio e impactar o comércio internacional e a crise energética, já tensionada pela escalada entre o Irã e os Estados Unidos.

O movimento Ansar Allah, do Iêmen, também conhecido como houthis, e a Arábia Saudita sofreram ataques de troca após quatro anos de trégua. O reinício das hostilidades se deu quando uma delegação iemenita partiu para o funeral do líder supremo iraniano Ali Khamenei, ignorando um bloqueio total imposto por Riad contra o país.

No retorno da delegação, a oposição iemenita, que se encontra na Arábia Saudita, bombardeou o aeroporto de Sanaa, o que impediu o pouso do avião, que teve que desviar para Hodeidah. Em resposta, o Ansar Allah atacou o aeroporto de Abha, no sul da Arábia Saudita. As autoridades sauditas disseram que os mísseis e drones foram interceptados pela defesa aérea.

A renovação das hostilidades aumenta o risco de uma escalada do conflito no Oriente Médio, que já envolve Estados Unidos e Irã. Esta situação ocorre em um momento de alta sensibilidade regional: no início do ano, a Arábia Saudita firmou um acordo de defesa mútua com o Paquistão, uma importante potência militar, o que poderia intensificar as implicações estratégicas de um possível aumento do conflito.

Jogo de alianças no Oriente Médio

Na entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Beatriz Gomes, professora de geopolítica e comentarista da TVT, avaliou que a trégua – alcançada após 11 anos de conflito – já estava comprometida devido aos conflitos em Gaza e recentemente, entre Estados Unidos e Irã.

Nos últimos anos, o Ansar Allah tem atuado de forma mais assertiva como parte do chamado 'Eixo da Resistência', uma coalizão de movimentos, partidos e governos alinhados a Teerã, impondo restrições à navegação de navios com destino e origem israelense no mar Vermelho em resposta ao genocídio na Faixa de Gaza.

Desde 2014, o Ansar Allah controla a capital Sanaa e exerce o governo de fato do Iêmen, enquanto a oposição, ainda reconhecida internacionalmente, atua no exílio na Arábia Saudita.

Para o especialista, o conflito entre Riad e os houthis deve ser compreendido como uma guerra por procuração, na qual os interesses geopolíticos das potências regionais e globais se sobrepõem às disputas internacionais do Iêmen.

"A Arábia Saudita atua como uma extensão da influência dos Estados Unidos na região, enquanto os houthis integram o Eixo da Resistência liderado pelo Irã"

Poder sobre o comércio internacional

Na segunda-feira, o Iêmen anunciou um bloqueio do estreito de Bab el-Mandeb contra o Riad, impedindo o tráfego marítimo da monarquia árabe na região.

Com essa decisão, os petroleiros sauditas destinados aos mercados asiáticos já tiveram que regressar e desviar para o canal de Suez, obrigando as embarcações a contornarem o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, o que resulta num percurso mais longo pelo Mediterrâneo e pela costa oeste africana.

Aliado ao bloqueio total do Estreito de Ormuz, esse desvio oneroso eleva os custos logísticos, aumenta o tempo de transporte e pressiona as cadeias de fornecimento globais. Gomes avalia que com isso, os houthis deixaram de ser apenas um ator local e agora desempenham um papel crucial no equilíbrio de poder no Oriente Médio.

"Eles acabam sendo responsáveis ​​por controlar uma região de suma importância para o mundo, que é o mar Vermelho. [...] É um grupo que tem poder sobre o preço do petróleo e sobre produtos do comércio internacional."

Após o bloqueio, o Ministério das Relações Exteriores saudita declarou que o reino tomará "todas as medidas permitidas" para proteger suas embarcações, em conformidade com o direito internacional e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982.

O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que abordará a situação e lembrou os quase dois meses de conflitos entre os EUA e o Ansar Allah em 2025, quando a Casa Branca tentou restabelecer a liberdade de navegação pelo estreito.

Gomes ressalta que os houthis "são bem armados e têm muito apoio popular" desde que passaram a integrar o Eixo da Resistência, tornando-se um dos principais instrumentos de disputa regional entre Teerã, Riad e Washington.

No entanto, apesar do bloqueio adotado por Iêmen, o especialista não acredita que a Arábia Saudita busque um conflito direto com o Irã, visto que sua principal preocupação é que a "desorganização da região impeça seus ganhos econômicos".

"Eles sabem que, se abrirem uma frente contra o Irã, essa guerra se transformará em algo muito maior."

Para Beatriz Gomes, se a escalada dos conflitos se concretizar, o impacto ultrapassará o Oriente Médio, "agravando uma crise económica mundial. Teremos de enfrentar crises económicas, de combustível e de fertilizantes".

"O que inicialmente parecia uma disputa entre Estados Unidos e Irã acaba se transformando em uma grande guerra regional, com vários focos de enfrentamento."


Por Sputnik Brasil