POLÍTICA

Desafios dos democratas na conquista de votos latinos

Pesquisa indica que o apoio a Trump entre hispânicos está caindo, mas democratas não capitalizam essa tendência.

Por Sputnik Brasil Publicado em 22/07/2026 às 06:18
Pesquisa aponta que democratas falham em atrair votos da comunidade hispânica nos EUA. © AP Photo / Jae C. Hong

Uma pesquisa recente da organização Equis revela que o apoio ao presidente Donald Trump entre a comunidade hispânica nos EUA continua diminuindo, mas a oposição mal se beneficia desse declínio. "A memória de Obama, o 'deportacionista', e a falta de políticas concretas e ousadas estão prejudicando o Partido Democrata", disse um analista à Sputnik.

Após alcançar apoio recorde entre os eleitores latinos nas eleições de 2024 (onde obteve 45% dos votos, o maior número para um candidato republicano na história, além de vencer entre os homens latinos), o presidente norte-americano Donald Trump enfrenta um cenário político complexo na corrida para as eleições cruciais deste ano.

O presidente, que busca manter a maioria legislativa e evitar terminar seu segundo mandato enfraquecido e sitiado pelos democratas, precisa consolidar o apoio desse grupo, pilar que se tornou fundamental no novo cenário eleitoral do país.

No entanto, dados recentes sugerem que Trump e seu partido terão dificuldades para repetir o sucesso da última eleição. Uma pesquisa da Equis, organização dedicada a promover políticas para aumentar a participação hispânica na vida pública norte-americana, mostra que o índice de aprovação do magnata caiu para níveis críticos (em torno de 31%, o menor índice até agora em seu segundo mandato), com um terço de seus eleitores latinos afirmando se arrepender de ter apoiado sua candidatura na última eleição geral.

Ainda assim, o trabalho da Equis, uma das instituições mais confiáveis para avaliar o sentimento eleitoral dos hispânicos nos Estados Unidos, revela que as perdas republicanas entre os latinos não se traduziram necessariamente em ganhos democratas (vale lembrar que os Estados Unidos operam sob um sistema bipartidário hegemônico desde sua criação, e não há uma terceira opção).

Segundo o estudo, apenas 11% dos hispânicos que apoiaram Trump em 2024 afirmam que apoiariam um candidato democrata na eleição de 2026.

María Isabel Di Franco Quiñonez, diretora de pesquisa da Equis, afirmou ao apresentar o relatório que a "marca" democrata continua desvalorizada entre os eleitores e que a tímida recuperação da oposição observada nas pesquisas é mais produto da desaprovação do governo do que do entusiasmo pelo partido de Kamala Harris e Hillary Clinton, líderes com índices de aprovação negativos entre os norte-americanos.

O fardo de Biden

"Considerando as ações hostis do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA [ICE] contra imigrantes latinos, a eliminação quase total dos caminhos legais para que imigrantes indocumentados regularizem sua situação e o forte aumento do custo de vida [inflação de 4,2% em maio, o dobro da meta anual de 2% do Federal Reserve, e um aumento de 40% nos preços dos combustíveis desde o início da guerra com o Irã], é surpreendente que os democratas não estejam conseguindo conquistar mais votos entre os latinos desiludidos", disse José Luis Romano, formado em relações internacionais pela Universidade da República do Uruguai (UDELAR), à Sputnik.

Segundo o especialista, a falta de realinhamento político é produto de diversos fatores, um dos quais é que a "presidência desastrosa" de Joe Biden (2021-2025) ainda é uma lembrança muito viva entre os eleitores hispânicos.

"Durante a presidência de Biden, os EUA não só vivenciaram a maior taxa de inflação em mais de 40 anos — 9,1% do Índice de Preços ao Consumidor [IPC] em junho de 2022, como sua promessa de regularizar a situação daqueles que trabalhavam e viviam nos EUA há décadas nunca se concretizou. Em vez disso, ele optou por abrir as fronteiras quase indiscriminadamente, irritando os hispânicos que sentiram que não foram recompensados por fazerem as coisas da maneira correta”, explicou.

Romano também mencionou que os democratas tendem a "subestimar" a comunidade hispânica e a tratá-la como um grupo monolítico, quando ela é tão diversa e complexa quanto outros grupos étnicos e sociais. "A abordagem estatista dos democratas pode beneficiar alguns, mas também pode entrar em conflito com o espírito empreendedor de uma parcela significativa de latinos, que estão cada vez mais administrando pequenos negócios nos EUA", disse o especialista.

Da mesma forma, ele destaca que a doutrina progressista dos democratas em questões sociais não está alinhada com as idiossincrasias religiosas ou tradicionalistas dessa comunidade, especialmente entre os homens ou as gerações mais velhas. "Eles presumem que, por serem minoria, concordarão com qualquer discurso liberal da moda, mas não é o caso; seus valores são diferentes", acrescenta.

A aposta fracassada no centrismo

Enquanto isso, Javier Gámez, doutor em História pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e especialista em política internacional, disse à Sputnik que o Partido Democrata continua sendo percebido como parte do establishment, o que dificulta sua conexão com setores populares — que preferem o discurso de Trump — e com amplos setores da população latina.

"Embora existam algumas exceções que surgiram recentemente, o partido continua apostando no centrismo neoliberal de Hillary Clinton e do 'obamísmo'; ou seja, em receitas antigas que representam os interesses das elites, não de comunidades como a hispânica", afirmou.

Sobre este ponto, o especialista lembrou que Barack Obama (2009-2017) "foi o presidente que deportou o maior número de imigrantes na história do país", provocando uma profunda desconfiança, que ainda persiste, na comunidade latina em relação aos democratas. Sua permanência na cúpula do partido, acrescentou, tornou mais difícil para os candidatos da oposição reconquistarem o voto hispânico.

Gámez também destacou que os eleitores latinos percebem um duplo padrão na resposta dos democratas à violência e aos abusos do ICE. Quando as vítimas são norte-americanos brancos, como aconteceu com os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti em Minneapolis no início deste ano, a resposta dos democratas é mais enérgica do que quando as vítimas são latinas ou imigrantes.

"Isso cria um sentimento de cidadania de segunda classe entre os latinos, que não se sentem protegidos ou representados pelos democratas", concluiu ela.

Por Sputinik Brasil