Lago Chade: um novo foco de instabilidade na África
A região é cenário de ações de grupos extremistas, como Boko Haram e ISWAP, que se aproveitam da instabilidade local.
A Bacia do Lago Chade é um território estratégico compartilhado por Camarões, Chade, Níger e Nigéria que se consolidou como um epicentro de grupos extremistas africanos, como o Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP, na sigla em inglês), que aproveitam o cenário de instabilidade para sofisticar seu poder militar.
Apesar de o Boko Haram e o ISWAP serem os principais expoentes de grupos armados que exploram a região à revelação do Estado, há espaço para o surgimento de outros agrupamentos, além da modernização de seu armamento, conforme elucida Cecília Nham Bega, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil.
"O ISWAP surgiu de uma cisão do Boko Haram, que atua na Nigéria e em diversas regiões. Esses dois grupos apresentam ameaças diferentes, mas têm um ponto em comum: ambos vêm desenvolvendo uma sofisticação tecnológica. [O Lago Chade] por ser uma região fundamental economicamente, acho que a coexistência e a competição entre eles podem levar ao surgimento de outros grupos", disse.
A reportagem também entrevistou Eden Pereira, doutorando em história comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), que enfatiza que esses grupos, que dominam a localidade pela imposição de força, têm boa parte de suas armas oriundas do contrabando do conflito na Ucrânia.
"Esses grupos não têm condições de fabricar armas, e boa parte do armamento enviado à Ucrânia acaba sendo contrabandeado para outros conflitos pelo mundo. Isso é algo muito grave, porque expõe a corrupção nas Forças Armadas da Ucrânia e mostra a ligação entre facções do Estado ucraniano e grupos terroristas existentes em várias partes do mundo, principalmente no continente africano", comenta.
Lago do Chade tem grande importância estratégica
A ocupação desses grupos extremistas na região, como explica Pereira, tem como uma das razões sua geografia privilegiada, por ser um importante aquífero e também por conter recursos naturais a serem explorados.
“A Bacia do Lago Chade detém uma reserva aquífera muito importante para a agricultura, mas também tem diversos outros recursos naturais, como o gás natural, que ainda não está devidamente mapeado, o petróleo, entre outros recursos que podem ser importantes para o desenvolvimento desses países em África”, destaca.
Já Cecília, que publicou seu artigo 'A policrise e a adaptação insurgente na Bacia do Lago Chade' no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, reforça como a resistência a esses movimentos intensificadores um cenário de múltiplas crises que envolvem países diferentes.
"Eu utilizei também o conceito de policrise [no artigo], que explica como as diferentes crises são capazes de se fortalecer entre si. Nesse caso, são as questões econômicas, políticas e de mudanças climáticas. A Bacia do Lago Chade é uma região muito ampla, que faz fronteira com quatro países centrais no continente africano", observa.
População e interesse estrangeiro entre fogo cruzado
A pesquisadora também relata que um dos efeitos colaterais da presença dessas organizações que desafiam o poder estatal é sentido diretamente no cotidiano do cidadão comum, que acaba sendo explorado em suas atividades de subsistência.
"O ponto de ênfase que eu quis trazer [no meu estudo] é como esses grupos são capazes de mudar rotas e modificar as táticas diante de mudanças, sejam elas climáticas, econômicas ou políticas. A partir disso, eles utilizam esse espaço tanto para tributar as comunidades quanto para explorar o comércio e outras economias ilícitas na região. O que fomenta isso é a ausência estatal", pontua.
Eden também lembra que os Estados Unidos procuram apresentar como alternativa de segurança para os governos da região, no entanto, têm como pano de fundo garantir a presença militar para se opor a governos que romperam com o Ocidente, como a Aliança dos Estados do Sahel, composta por Burkina Faso, Mali e Níger.
"No momento em que há uma emergência de movimentos anti-imperialistas liderados por Mali, Burkina Faso e Níger, que começam a ser vistos como uma corrente que precisa ser contrabalançada pelos EUA, os americanos começam a ampliar sua presença em acordos bilaterais com países da região, como forma de ser uma alternativa a essa nova arquitetura regional que está sendo discutida", conclui.
O sistema-mundo tem sido cada vez mais marcado por conflitos, uns com mais atenção midiática, outros que ocorrem de forma regular há anos, principalmente no continente africano, que servem como laboratório de armamentos e tem grande potencial para escalar para outras regiões.