Gabriela I. Gaia estreia curta-metragem Revelação no Festival de Gramado
Coprodução Brasil-França pré-licenciada pela France TV, Revelação acompanha o primeiro dia de trabalho de uma pessoa não-binária numa empresa de chás de revelação de gênero
São Paulo, 22 de julho de 2026 – A cineasta Gabriela I. Gaia estreará o curta-metragem Revelação no 54º Festival de Cinema de Gramado, com exibição marcada para 20 de agosto. No mesmo mês, o filme também será exibido no 37º Festival Internacional de Curtas de São Paulo Kinoforum. Com 17 minutos de duração, a comédia, em formato de falso documentário, acompanha o primeiro dia de trabalho de Cris (Lorre Motta), uma pessoa não-binária, numa empresa de chá de revelação de gênero no subúrbio carioca. À frente do negócio está Adriana (Stella Rabello), que aposta em políticas de diversidade como estratégia de marketing.
Produzido pela fomofilmes, pela Por Extenso Produções e pela Alabama Films, Revelação é uma coprodução Brasil-França pré-licenciada pela France TV. O filme foi realizado com o apoio do Ministério da Cultura, da RioFilme, da Secretaria Municipal de Cultura e da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, além da SPCine e da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, as últimas duas por meio da Lei Paulo Gustavo.
O filme, que marca a estreia solo de Gaia na direção, é o terceiro do que ela chama de “trilogia do encontro”, iniciada com Afeto (2019), codirigido por Tainá Medina, e seguida por Escasso (2022), realizado junto com Clara Anastácia e vencedor do prêmio de melhor filme no Festival do Rio, no Festival de Brasília e no IndieLisboa e menção honrosa no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand. “Nos três filmes, parto de encruzilhadas e das provocações criativas dos colaboradores de cada projeto para investigar questões ligadas a gênero, identidade, território e pertencimentos fronteiriços. Tenho interesse em observar como esses temas atravessam o chamado realismo capitalista, a ideia de que o capitalismo se tornou a única realidade possível”, diz Gaia.
Revelação surgiu a partir de conversas entre Gaia e Lorre Motta, protagonista e um dos roteiristas da obra. Ator transmasculino, Lorre frequentemente era escalado para personagens marcados pelo drama. “Como se o riso não pudesse ser político nem mobilizar transformações sociais”, diz Gaia.
A partir de discussões sobre performatividade de gênero, representatividade e o poder das grandes corporações tecnológicas, nasceu neles o desejo de construir juntos uma comédia que dialogasse com essas questões. "A febre do chá de revelação, esse ritual contemporâneo aparentemente inofensivo e ligado à economia da atenção, diz muito sobre as disputas que atravessam a família brasileira. Ao mesmo tempo em que celebra a chegada de uma vida, também reforça padrões heterocisgêneros que excluem pessoas dissidentes e colocam uma enorme pressão sobre alguém que ainda nem nasceu. Quisemos olhar para esse universo a partir do humor", conta Gaia.
Escrito por Gaia, Lorre Motta e Maíra Athayde, Revelação aposta numa linguagem inspirada pelas comédias de TV dos anos 2000. "Como uma pessoa nascida e criada na zona norte do Rio, quero fazer filmes que se comuniquem com um público que não necessariamente vai a festivais e que cresceu vendo TV aberta. Foi fazendo Escasso que me encantei pelo humor. Mas que tipo de humor queremos fazer hoje? Como fazer uma comédia que não fuja das tensões de gênero e raça presentes nas nossas famílias? Quis investigar isso sem deixar de dialogar com códigos conhecidos pelo grande público. Talvez por isso, vejo Revelação como uma comédia decolonial", diz a diretora.
A produção reuniu uma equipe formada majoritariamente por pessoas do subúrbio, racializadas e LGBTQIAPN+. Gravado no Méier, bairro da zona norte do Rio de Janeiro onde a cineasta passou boa parte da infância, o curta nasceu de um processo coletivo que influenciou o roteiro, o elenco e a equipe. "Construir um espaço de trabalho seguro era minha prioridade. A maioria das pessoas envolvidas no filme compartilhava experiências parecidas com as da história. O que estava sendo dito em cena era absurdo, mas éramos nós que estávamos rindo e ridicularizando, de forma crítica, esse absurdo. Isso fez toda a diferença", conta ela.
Enquanto inicia a circulação de Revelação, Gaia também trabalha nos próximos projetos. Atualmente, finaliza a montagem de Miradas Que Ya No Se Encuentran, curta-metragem produzido pela Dlktsn Filmes em associação com a fomofilmes e com o apoio da SPCine por meio da Lei Paulo Gustavo. O filme acompanha duas irmãs gêmeas brasileiras, filhas de pais bolivianos, que decidem pegar uma carona para ver o mar no dia em que completam 18 anos.
Escrito em 2019, Miradas nasceu do interesse da diretora pelos debates sobre identidade nacional e pela construção da subjetividade dos jovens brasileiros que nasceram e cresceram entre diferentes referências identitárias, culturais e geográficas. O projeto inaugura uma nova fase no trabalho de Gaia, que ela chama de “utopias marítimas”. “A pesquisa reúne ficções especulativas sobre migração, identidade e futuros possíveis nas periferias do sul global. A Bolívia é um país que perdeu o acesso ao mar e essa ausência me interessa como ponto de partida para pensar deslocamento e pertencimento. No filme, o mar aparece tanto como a possibilidade de um destino concreto quanto como um horizonte político e simbólico”, conta Gaia.
Além do curta, Gaia está desenvolvendo um longa-metragem derivado de Miradas. No fim de agosto, a cineasta participa do Bolivia Lab com o projeto, atualmente desenvolvido no Núcleo de Desenvolvimento Corais, da Heco Produções, via Ancine.
Paralelamente aos projetos autorais, Gaia também atua no desenvolvimento de séries para a TV e o streaming. Em 2025, estreou no streaming, na HBO Max, como roteirista e chefe de sala de Nua na Rede: A Verdade sobre Rose Leonel. Também desenvolveu séries documentais para a Globoplay e a HBO Max em parceria com a Dlktsn Filmes.
Nascida no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, em 1995, Gabriela I. Gaia investiga perspectivas decoloniais e tensões entre corpo, território e deslocamento na construção de identidades fronteiriças. “Me afirmar como uma cineasta do subúrbio, vinda de uma periferia central numa cidade cheia de contradições, como é o Rio de Janeiro, é muito importante para mim, porque não existe cinema sem território, sem raiz. E, mesmo que os meus filmes falem sobre deslocamento, sobre buscar um lugar para si no mundo, são as raízes fincadas nas experiências de onde eu vim que dão forma a essas histórias. Por muito tempo, achei que não tinha memória, não tinha história. Hoje entendo que o meu cinema é um gesto na busca por reconstruir essa colcha de retalhos e apagamentos, cerzida e nem sempre bela, que é a experiência de ter nascido neste país”, afirma Gaia.
Baseada entre Rio de Janeiro e São Paulo há sete anos, Gaia teve obras exibidas no MoMA, no Festival Internacional de Cinema de Roterdã e no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand. Codirigiu os curtas Afeto e Escasso e foi indicada ao 51º Emmy pela série infantil Quintal TV (Dlktsn Filmes).