BRICS expande suas atuações para além da economia com projetos inovadores
Iniciativas em saúde, educação e tecnologia destacam a evolução do grupo em áreas multidisciplinares.
Durante anos, o BRICS foi associado exclusivamente à defesa de uma ordem econômica internacional mais equilibrada e multipolar. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), os debates sobre o uso de moedas locais no comércio internacional e as propostas de reforma das instituições financeiras globais ajudaram a consolidar essa imagem.
O grupo tem demonstrado, no entanto, que as suas ambições vão muito além da agenda económica. Ao longo dos anos, os países-membros e parceiros construíram uma ampla rede de cooperação em áreas como ciência, inovação, saúde, educação, indústria, agricultura e tecnologia, com projetos específicos ao desenvolvimento conjunto e ao intercâmbio de conhecimento.
Esse movimento continua em expansão: um dos exemplos mais recentes é a Seleção Pública BRICS (Cooperação Multilateral em Inovação), lançada pelo governo brasileiro neste mês. O edital prevê investimentos entre R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões para empresas brasileiras que desenvolvem projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em parceria com instituições de outros países do BRICS.
A iniciativa acompanha a estratégia de ampliação da cooperação e também está alinhada às prioridades da presidência rotativa da Índia em 2026. A Nova Deli colocou ciência, tecnologia, inovação, transformação digital e o fortalecimento das cadeias produtivas entre os principais eixos da próxima cúpula de líderes, prevista para setembro.
A escolha ainda reflete uma tendência observada desde a primeira década de existência do grupo, que, além de coordenar posições sobre economia e governança global, passou a criar mecanismos capazes de gerar resultados concretos para seus membros em diferentes setores. Diante disso, conheça outras cinco iniciativas que mostram como o BRICS vem se consolidando como uma plataforma de cooperação multidisciplinar do Sul Global:
Constelação de satélites que fortalece a cooperação espacial
A cooperação espacial é uma das iniciativas tecnológicas mais avançadas do BRICS. Criada oficialmente em 2021, a Constelação Virtual de Satélites de Sensoriamento Remoto integra satélites de observação da Terra já explorados pelos países-membros, permitindo o compartilhamento de imagens e dados sem a necessidade de lançar novos equipamentos ao espaço.
O Brasil participa do projeto por meio da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), utilizando principalmente dados da série CBERS, desenvolvida em parceria com a China. A iniciativa amplia a capacidade de monitoramento ambiental, agrícola, recursos hídricos, expansão urbana e resposta a desastres naturais, além de ações de fortalecimento de fiscalização na Amazônia.
Durante a presidência brasileira, os países defenderam a ampliação da constelação para os novos membros e discutiram novos projetos, como um Conselho Espacial do BRICS, além de iniciativas voltadas ao monitoramento das mudanças climáticas, observação oceânica e detritos espaciais.
Da pandemia à medicina nuclear: o BRICS amplia a cooperação em saúde
A pandemia de COVID-19 acelerou uma cooperação que já vem sendo construída entre os países do BRICS. O principal resultado foi a criação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Vacinas do grupo, que funciona como uma rede de instituições nacionais dedicada ao desenvolvimento de imunizantes, compartilhamento de conhecimento científico e fortalecimento da capacidade de resposta a futuras emergências sanitárias.
Além das vacinas, o grupo passou a cooperar em áreas como radiofármacos, medicina nuclear, biossimilares, medicina personalizada, terapias celulares, bioimpressão e combate à resistência antimicrobiana. O objetivo é reduzir a dependência tecnológica do Norte Global e fortalecer a soberania sanitária por meio da produção conjunta de conhecimento e tecnologias.
O Brasil participa da iniciativa por meio de instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan, que integram as redes de cooperação científica e de desenvolvimento de novos produtos para a área da saúde.
Rede que conecta instituições de ensino do BRICS
Criada em 2015, a BRICS Network University não é uma universidade tradicional, mas uma rede formada por instituições de ensino superior dos países-membros. O objetivo é promover pesquisas conjuntas, intercâmbio de estudantes e professores e formação de recursos humanos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do grupo.
A iniciativa reúne diversas universidades e vem sendo ampliada para incorporar os novos integrantes do BRICS. Só do Brasil, 20 instituições participantes da rede, desenvolvem projetos em temas como energia, ciência da computação, mudanças climáticas, recursos hídricos, economia, agricultura sustentável e saúde pública.
Com mais de dez anos, a iniciativa é cada vez mais um dos principais instrumentos de integração acadêmica do bloco, aproximando pesquisadores e formando profissionais voltados aos desafios comuns enfrentados pelos países do Sul Global.
Inteligência artificial, robótica e transformação digital
A Parceria BRICS para a Nova Revolução Industrial (PartNIR) concentra a cooperação em tecnologias ligadas à chamada Indústria 4.0. Criada para orientar governos, universidades e empresas, a iniciativa incentiva projetos em inteligência artificial, fabricação avançada, Internet das coisas, robótica e digitalização da produção industrial.
Nos últimos anos, a parceria ampliou seu escopo para incluir bioindústria, biomanufatura, transformação digital de pequenas e médias empresas e desenvolvimento de ecossistemas nacionais de inteligência artificial. A intenção é fortalecer cadeias produtivas entre os países do bloco e reduzir a dependência de tecnologias desenvolvidas por economias avançadas.
Durante a presidência brasileira, o tema ganhou ainda mais espaço e passou a integrar a estratégia de cooperação em inovação defendida pelo grupo para os próximos anos.
Jovens pesquisadores no centro da cooperação
Além de investir em infraestrutura e grandes projetos tecnológicos, o BRICS também busca formar novas redes de pesquisadores. O Fórum de Jovens Cientistas reúne anualmente jovens cientistas dos países-membros e parceiros para apresentar pesquisas, desenvolver projetos conjuntos e ampliar a cooperação acadêmica em temas estratégicos.
Os encontros abordam áreas como energia, agricultura e tecnologias emergentes, além de promover concursos científicos, intercâmbios e iniciativas inovadoras ao empreendedorismo tecnológico.
A iniciativa complementa ainda outros mecanismos de cooperação em ciência e inovação e reforça uma estratégia cada vez mais presente no BRICS: investir não apenas em projetos tecnológicos, mas também na formação das pessoas que irão desenvolver-las nas próximas décadas.