“Empresas internacionais precisam controlar operações em dólar, e não serem reféns das oscilações", afirma especialista
Para negócios de tecnologia e serviços, gestão cambial deve integrar receitas, custos, contratos, tributação, compliance e pagamentos internacionais para preservar margens e previsibilidade
Decisões de política monetária, tensões geopolíticas, eleições, indicadores econômicos e mudanças no cenário global continuarão influenciando a cotação do dólar. Para empresas que atuam internacionalmente, porém, o principal desafio não está em tentar reagir a cada oscilação da moeda, mas em estruturar uma operação capaz de conviver com a volatilidade cambial sem comprometer margem, caixa e previsibilidade.
A percepção de que dólar alto beneficia automaticamente empresas exportadoras ainda é comum, mas, na prática, a análise é mais complexa. Especialmente no setor de tecnologia e serviços, poucas companhias recebem em moeda estrangeira, mas muitas possuem despesas dolarizadas com cloud, inteligência artificial (crescendo exponencialmente), cibersegurança, bancos de dados, APIs, ferramentas de desenvolvimento, licenças, softwares corporativos e plataformas globais. A maioria vende apenas em reais no Brasil, mas depende de fornecedores internacionais para sustentar sua operação.
Nesse contexto, o câmbio deixa de ser apenas uma variável financeira e passa a fazer parte da arquitetura da operação internacional. Segundo Lisandro Vieira, Founder & CEO da WTM International, empresa especializada na nacionalização de operações internacionais de tecnologia, empresas com atuação global precisam analisar o dólar de forma estratégica, considerando receitas, custos, contratos, prazos, tributação, documentação e pagamentos internacionais.
“Câmbio não é apenas cotação. É gestão de operação internacional. A empresa precisa entender onde está a receita, onde está a despesa, em qual moeda assume compromissos, em que momento precisa liquidar cada obrigação e qual o melhor corredor de pagamentos. Quando esse fluxo não está desenhado, ela pode ganhar em uma ponta e perder na outra”, afirma Vieira.
Um dos erros mais recorrentes, segundo o especialista, é tratar recebimentos e pagamentos internacionais como decisões pontuais. Empresas que convertem imediatamente toda a receita recebida do exterior para reais podem, posteriormente, precisar recomprar dólares para pagar fornecedores, assinaturas, contratos internacionais ou plataformas essenciais. Se a cotação se mover contra a empresa nesse intervalo, parte relevante da rentabilidade pode desaparecer.
“Não é porque entrou dólar que a empresa deve converter automaticamente, nem porque existe um fornecedor estrangeiro que ela deve comprar somente no dia do vencimento. O ponto é casar fluxos, evitar conversões desnecessárias e definir com antecedência o que será mantido em moeda estrangeira, o que será convertido e o que precisa de proteção cambial”, explica.
Para Lisandro, a gestão cambial moderna precisa ir além da busca pela melhor taxa do dia. Ela deve considerar o desenho completo da operação: moeda de faturamento, moeda de pagamento, periodicidade das faturas, prazos contratuais, natureza da operação, responsabilidade tributária, documentação de suporte, disponibilidade de caixa e liquidez internacional e, principalmente, qual é o país do outro lado, para definir e planejar o custo tributário da operação.
Em empresas de tecnologia, esse cuidado se torna ainda mais relevante porque muitos custos globais são recorrentes e essenciais para o funcionamento do negócio. Plataformas em nuvem, ferramentas de inteligência artificial, soluções de segurança, softwares corporativos e serviços digitais internacionais não são despesas acessórias: em muitos casos, são parte da infraestrutura operacional da empresa.
“A empresa internacional madura não tenta adivinhar o dólar. Ela estrutura sua exposição. Em alguns casos, a melhor decisão será manter recursos na mesma moeda dos pagamentos futuros. Em outros, será antecipar contratos, negociar periodicidade e país de faturamento, usar instrumentos de proteção cambial ou redesenhar a forma de pagamento”, complementa Vieira.
Entre as alternativas para reduzir a exposição estão o mapeamento de receitas e despesas por moeda, a manutenção de recursos na moeda utilizada em pagamentos futuros, a negociação de contratos com regras claras de câmbio, a antecipação de pagamentos anuais, quando houver vantagem econômica, o uso de mecanismos de proteção cambial em operações previsíveis e a construção de políticas internas para definir quando converter, quando manter saldo e quando travar posições.
O executivo também destaca que a simplificação dos meios de pagamento internacionais não elimina a necessidade de controle. Com novas tecnologias, fintechs, contas internacionais e soluções digitais, pagar e receber no exterior se tornou mais simples. Mas isso não significa que as responsabilidades cambiais, fiscais, documentais e contratuais deixaram de existir.
“Quanto mais fácil fica pagar, maior precisa ser a disciplina de controle. A empresa não pode olhar apenas para a conversão do dólar. Ela precisa saber se a operação está corretamente documentada, tributada, contratada e integrada à sua estratégia financeira e contábil”, afirma.
Para Vieira, o tema é especialmente relevante para empresas brasileiras que desejam crescer no mercado global ou que dependem de tecnologia internacional para operar no Brasil. Nesses casos, a volatilidade cambial não deve ser tratada como um evento isolado, mas como uma variável permanente de gestão.
“Empresas que querem crescer internacionalmente precisam tratar o câmbio como parte da estratégia, não como um problema do financeiro no fim do mês. Quem integra tesouraria, contratos, compliance e operação tem mais previsibilidade, protege melhor suas margens e cresce com menos surpresa no mercado global”, conclui.