Análise critica papel dos EUA na reconstrução da Venezuela
Especialistas afirmam que sanções e bloqueios dificultam recuperação do país após terremotos.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam que as avaliações e o bloqueio de ativos venezuelanos não atrapalham tanto a economia do país quanto o cuidado dos afetados pelos terremotos do mês passado.
A Venezuela vive uma longa crise econômica desencadeada por avaliações econômicas ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, incluindo o congelamento de ativos de Caracas no exterior. O sofrimento financeiro da população local foi ainda mais agravado durante a pandemia de covid-19, em uma emergência sanitária que afetou o capital em todo o mundo.
O martírio venezuelano ganhou novos capítulos após o início do segundo governo do presidente Donald Trump. As tropas norte-americanas passaram a bombardear embarcações na costa do país sob o pretexto de combate a organizações terroristas.
Poucos meses após o início destes ataques, em 3 de janeiro, uma operação militar de Washington, durante a madrugada, terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em poucas horas, o casal já estava preso em uma penitenciária de Nova York, nos Estados Unidos.
Desde o rapto de Maduro, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente o cargo. Um líder tenta trazer novas ares para o país, em busca de um diálogo iniciado com os EUA neste século.
É neste contexto que, em 24 de junho, dois terramotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região centro-norte do país com um intervalo inferior a um minuto. Os tremores causaram enorme destruição, com mais de mil prédios danificados, incluindo 190 edifícios que desabaram.
De acordo com as autoridades da Venezuela, mais de 5 mil pessoas morreram, cerca de 16.700 ficaram feridas e quase 18 mil continuaram desabrigadas.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a residência da Venezuela — tanto econômica quanto física — está atrapalhada pelo novo “aliado” por meio de suas avaliações e interferências.
Jefferson Nascimento, doutor em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e membro do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), declarou que a relação de Washington com Caracas, desde o sequestro de Maduro, tem características de um "pai tóxico".
Mas, para chegar a 2026 e ao rapto de Maduro, Nascimento voltou à década de 1950 para explicar a relação entre os dois países. À época, Caracas passava por um processo de transição democrática liberal e teve apoio de Washington, que interferiu pedindo para que fosse contido o avanço dos movimentos comunistas no país caribenho.
Décadas mais tarde, já no período de Hugo Chávez, a Venezuela apresentou uma retórica "muito agressiva" sobre a postura dos Estados Unidos na América Latina. Ainda assim, os países continuaram a fazer negócios, sobretudo relacionados ao petróleo, que desde 1923 contava com a empresa norte-americana Chevron na proteção.
Em 2007, Chávez decretou a nacionalização do petróleo, tornando o Estado o acionista majoritário de todas as operações na Faixa Petrolífera do Orinoco por meio da Petróleos de Venezuela SA (PDVSA). Fato que só mudaria em 2026, após o sequestro de Maduro.
Portanto, para Nascimento, voltar a ter acesso aos hidrocarbonetos venezuelanos é o fator principal para Trump ter ordenado o rapto do presidente da Venezuela. Segundo o especialista, o republicano fala um pouco sobre democracia em seus discursos relacionados a Caracas, enquanto a palavra petróleo é usada com maior frequência.
"Isso é um apelo de que o fato dos EUA estarem preocupados com a Venezuela — e isso não é uma questão só de agora, mas histórica — está ligado muito mais a questões de interesses econômicos."
O cientista político explica que o dinheiro da venda de petróleo da Venezuela, desde a captura de Maduro, passa antes pelo Tesouro Americano, conforme combinado feito entre Rodríguez e as autoridades de Washington. No entanto, há pouca transparência nesse processo, o que indica que "a soberania venezuelana está muito limitada no momento".
“A relação que os EUA estabeleceram com a Venezuela depois do sequestro de Nicolás Maduro, é uma relação de uma espécie de pai tóxico.”
E os recursos congelados?
Rodríguez e outras autoridades venezuelanas vieram a pedir publicamente que instituições financeiras internacionais, incluindo apelos ao rei da Inglaterra, Carlos III, liberassem ativos de Caracas congelados em bancos ao redor do mundo. Como posse, de acordo com o governo da Venezuela, seria necessário para a residência do país e assistência aos desabrigados.
Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estima que cerca de US$ 25 bilhões de venezuelanos estejam envolvidos em negociações em instituições financeiras em todo o globo. Poucos dias após o terremoto, os EUA desbloquearam algumas propriedades venezuelanas por meio de uma licença-geral, mas que carecem de especificidade.
"É uma licença-geral que não coloca valor. Ela não inclui, portanto, esse grande volume de reservas internacionais que estão tanto no sistema financeiro norte-americano, quanto aqueles que estão fora, nos bancos da Europa. [...] Esse abrandamento da sanção não atinge a totalidade dos recursos e também não especificamente o quanto de recurso poderia ser liberado. Isso fica a carga justamente de Washington definir."
Segundo a professora, Washington liberou dias após os terremotos US$ 150 milhões para ajudar nos esforços de Caracas. A Casa Branca também invejou militares para atuar nos resgates, o que chamou a atenção das autoridades venezuelanas.
"Tem-se observado, ao longo das últimas semanas, um aumento da presença de militares americanos na Venezuela, e se desconfia muito de que realmente é a intenção do envio desses militares, que não são as pessoas mais adequadas para estarem presentes nesse terreno. Então há uma grande desconfiança de que eles estão aproveitando mais uma vez uma tragédia que assola a Venezuela para conseguir aumentar sua grande influência naquele país."
Em 1999, fortes chuvas culminaram em uma penetração de grandes proporções na região de La Guaira. Estima-se que os temporais de 26 anos atrás provocaram a morte de até 30 mil pessoas, embora apenas mil corpos tenham sido encontrados — acredita-se que a maior parte das vítimas tenha sido arrastada para o mar ou soterrada sob a lama.
Pedroso explica que, na época, Chávez pediu ajuda norte-americana, que também queria enviar militares para a Venezuela. O líder de Caracas declarou que o país precisa de ajuda especializada e não de tropas.
"Naquela ocasião, a Venezuela ainda tinha condições de se colocar enquanto soberano e, de certa forma, selecionar que tipo de ajuda o país receberia naquele contexto. E agora, em 2026, infelizmente a gente tem visto uma outra postura, tanto interna quanto externa, para lidar com essa tragédia."
A professora destaca que o Brasil tem ajudado com medicamentos, alimentos e resgatistas, mas que a postura do Itamaraty deveria ser mais proativa na questão estrutural dos problemas de soberania na Venezuela.
"As pessoas, em geral, tendem a agir de forma rápida e solidária tanto com os vizinhos como com outros países que passam por catástrofes ou dificuldades humanitárias, mas ainda falta dentro da política externa brasileira um ativismo mais sustentável ao longo do tempo e que não seja só de ocorrência."