Desafios da Política Externa de Trump com o Irã antes das Eleições
Análise aponta que a administração Trump busca vitória política em meio ao conflito com o Irã.
O fracasso das diversas tentativas de cessar-fogo no conflito entre Estados Unidos e Irã fez com que a crise no Oriente Médio escalasse novamente. Com a aproximação das eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, aumenta ainda mais a pressão sobre a atual administração da Casa Branca para conquistar uma vitória política significativa.
Nesse panorama, Rafael Firme, mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), aponta, em entrevista à Sputnik Brasil, que o governo de Donald Trump precisa de uma vitória significativa como projeto político doméstico.
“[Trump] precisa de uma vitória tanto que houve apenas um memorando de entendimento, que é um compromisso para se chegar a um acordo. É por isso que o presidente Trump precisa entender que perdeu a guerra e lidar com o Irã do jeito que está, porque ele precisa que os preços dos combustíveis se normalizem.
Enquanto o Departamento de Estado dos EUA, chefiado por Marco Rubio, formula políticas que intensificam o tensionamento internacional, como ocorreu no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e no confronto com o Irã, essas ações podem ter impactos políticos severos caso a atual gestão sofra uma derrota e não consiga compor maioria parlamentar no Congresso nas eleições de meio de mandato, como explica o analista.
"No âmbito doméstico, o presidente Trump tem problemas. Sempre menciono o ponto do preço dos combustíveis, que é muito alto. Isso pode gerar inflação, e o americano é atento a essas coisas. Outro ponto são as eleições e se ele vai ter maioria na Câmara e no Senado, e isso está ameaçado, o que pode levar ao impedimento do presidente Trump. Então, ele precisa fazer algum gesto que consolide um consenso de união nacional", comenta.
Demanda local contraste com a atual política externa
O especialista também ressalta que os impactos ocorridos na longa frente de batalha na região do Estreito de Ormuz, além de afetarem a economia global com o bloqueio do fluxo comercial, afetam diretamente o cotidiano do cidadão comum dos Estados Unidos.
"O americano comum não está nem aí para o Irã, é verdade. Mas o preço da carne, da gasolina e do custo de vida, além da inflação subindo nos EUA por causa da guerra no Irã, aí sim, isso tem impacto. Porque essa conta vai estourar para quem está em casa e vai responder em uma eleição logo ali na frente", destaca.
Para Firme, outro efeito colateral desse tipo de incursão truculenta exercida pelos Estados Unidos é que ela acaba expondo até os mesmos aliados próximos, como os países da Europa, que, embora geograficamente distantes, acabam sendo afetados politicamente.
"Se o impacto nos EUA é grande, no Japão será devastador e na Coreia do Sul é para destruir sua economia. O impacto do petróleo nas alturas e de não conseguir exportar gás do Catar, porque a saída para a Europa, quando rompeu com a Rússia, foi essa, para depois comprar gás caro dos EUA. Como [Henry] Kissinger disse: ser inimigo dos EUA custa caro, mas ser amigo custa mais caro ainda", observa.
EUA erraram ao desconsiderar a história milenar iraniana
Outro ponto levantado pela Firme é que, ao considerar o Irã a partir de 1979, ano da Revolução Islâmica, os "falcões" de Washington acabam não levando em conta a resiliência de seu povo quando confrontado com uma potência estrangeira, e essa é uma das razões que, segundo seu ponto de vista, podem levar a uma nova derrota dos EUA diante do Irã.
"O Irã já venceu uma guerra. Pode-se ficar mais 20 anos de guerra, mas [os EUA] vão invadir um país com 90 milhões de habitantes, que tem uma história e uma cultura únicas e singulares? Eles veem o Irã de 1979 para cá, e isso é um erro crasso: pensar o Irã a partir da República Islâmica. Então, penso que os EUA têm que sair dessa confusão quanto antes, porque vão perder de novo", conclui.
O prolongamento do conflito entre Estados Unidos e Irã prejudica a imagem internacional da Casa Branca e impacta diretamente o cotidiano dos cidadãos americanos. Assim, a atual administração enfrentou simultaneamente duas frentes críticas: o front militar no Oriente Médio e as pressões da população, tendo em vista o calendário eleitoral doméstico.