Impactos da poluição no rio Tietê vão além da contaminação
Estudos apontam a presença de substâncias e a degradação ambiental ao longo do rio em São Paulo.
O rio Tietê nasce limpo em Salesópolis (SP), na Serra do Mar, num ponto tão próximo da vertente litorânea que, segundo o biólogo e ativista César Pegoraro, da Fundação SOS Mata Atlântica, bastariam poucos metros de distância para que a água escoasse para o litoral sul paulista em vez do interior.
Mesmo ali, na nascente, pesquisas já identificam contaminação: "A gente fez uma viagem da nascente até a foz estudando tudo isso: fármacos, drogas, carbono, nitrogênio, microplástico na nascente", afirma Pegoraro.
Segundo ele, um pesquisador que integrou a expedição, com histórico de trabalho no Porto de Santos, já havia registrado índices altos de cocaína na água em estudos anteriores na região.
Um levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, citado por Loan Ramos Barbosa, técnico em restauração florestal da entidade, em Lins (SP), identificou resíduos de remédios, hormônios e drogas ilícitas — incluindo cocaína — na água do Tietê.
De acordo com Pegoraro, três em cada quatro pontos monitorados na bacia estão hoje classificados como "regulares", ou seja, a um passo de piorar. Ele também associa parte dos impactos das enchentes provocadas pela degradação do rio à desigualdade social, afirmando que os bairros mais pobres da cidade são os mais atingidos.
A engenheira ambiental e pesquisadora Gabrielle Segatti Soares Almeida, em São Paulo, descreve o contraste entre a nascente preservada e o rio na cidade: ao acompanhar o curso da água desde a origem até a metrópole, viu o Tietê "totalmente poluído, contaminado com resíduos sólidos, contaminado com esgoto".
Para ela, é "um absurdo que uma cidade como São Paulo, uma das cidades mais ricas do mundo, tenha um rio com característica de esgoto bruto".
Pegoraro atribui parte da poluição a uma lógica de acúmulo: um único ponto de vazamento de esgoto, mesmo pequeno, é capaz de comprometer um trecho inteiro do rio. "Um pontinho de esgoto de nada causa todo esse prejuízo", diz, ao relatar que a organização já mapeou e denunciou vazamentos ao poder público, sem retorno efetivo.
Segundo ele, a responsabilidade se divide entre a concessionária de saneamento e o poder público concedente, que deveria fiscalizar o contrato de concessão. "Quem fiscaliza o poder público concedente?"
Ele também descreve trechos em que a infraestrutura de saneamento existe apenas no papel, como tampas de rede de esgoto instaladas na rua, mas sem a ligação correta das casas com direito à coleta, o que mantém o despejo direto de esgoto residencial no rio mesmo onde a rede formalmente existe.
Um exemplo citado por Pegoraro mostra que a recuperação é possível: uma nascente na região do Butantã, cuja área havia sido loteada e ficado fechada por muito tempo, foi desapropriada após mapeamento da organização, dando origem a um parque público.
O trecho chegou a ficar praticamente limpo por anos a partir dos anos 2000, mas oscilou entre 2016 e 2017, quando chuvas fortes causaram extravasamento de uma tubulação de esgoto dentro do canal fechado que atravessa a região. No início deste ano, a organização conseguiu articular uma nova limpeza do canal, revertendo parcialmente o quadro.
Mudanças climáticas
A decomposição de matéria orgânica no rio libera metano, segundo Pegoraro, o mesmo gás emitido na fermentação intestinal do gado, apontado por ele como "o gás mais impactante para as mudanças climáticas hoje em dia".
Ele descreve ainda a ocupação desordenada da várzea por grandes obras de infraestrutura, como na zona Oeste de São Paulo, onde um mesmo corredor abriga simultaneamente um duto da Transpetro e linhas de transmissão de energia da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), ligando São Caetano do Sul a Barueri. "É um negócio gigante", afirma, "e é super difícil, porque tem muito pouco cuidado, cada um se apropria daqui como quer".
A relação da cidade com o rio, segundo Pegoraro, é também uma relação de apagamento.
"Toda a sociedade humana se desenvolveu à margem de um rio, num lugar onde houvesse primeiramente a disposição de água. Porque, sem água, a humanidade não monta suas aldeias."
Para ele, a canalização de trechos do Tietê e de afluentes na capital equivale a um apagamento simbólico desses cursos d'água, cobertos por avenidas e esquecidos pela população.
Cidades fantasmas
Segatti Almeida reforça que, quando se pensa em contato com a natureza, os moradores da cidade associam a ideia a viagens para o litoral ou para o interior, não aos rios que atravessam a própria metrópole.
A professora e ambientalista Elisete Peixoto de Lima, em Lins, afirma que cidades que vivem às margens do Tietê e investiram no turismo e na pesca perdem população na baixa temporada por causa da poluição do rio.
Segundo ela, alguns desses municípios chegam a triplicar de habitantes na alta temporada — de 15 mil para 45 mil pessoas, em alguns casos — e depois se esvaziam: "Muitas dessas cidades estão se transformando literalmente em cidades fantasmas".
Pegoraro recomenda ampliar o olhar sobre a bacia para o Baixo Tietê, onde, segundo ele, moradores acompanham o rio com uma perspectiva de longo alcance.
"Eles conseguem perceber o que está acontecendo com o rio mil quilômetros acima deles, porque tudo que ocorre aqui se reflete lá."
Ele cita o trabalho de monitoramento e mobilização feito por parceiros na região — incluindo o próprio Loan Ramos Barbosa — como evidência de que a recuperação da bacia depende de articulação entre pontos distantes do rio, e não apenas de ações isoladas na capital.