ARMAS

Medidas de Trump podem beneficiar facções criminosas no Brasil

Estudos indicam que flexibilização nas regras de armas nos EUA facilitará o acesso ao armamento no Brasil.

Por Agência Brasil Publicado em 17/07/2026 às 08:32
Pacote de medidas do governo Trump pode aumentar o acesso a armamentos por facções criminosas no Brasil.

O pacote com 34 medidas para a flexibilização das regras de venda de armas do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos (EUA), deve facilitar o acesso a armamentos pesados por facções criminosas no Brasil. A avaliação é de especialistas em segurança pública consultados pela Agência Brasil.

Entre as medidas propostas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla em inglês) dos EUA, estão a permissão para compra de armas pelos correios; redução do tempo que os vendedores devem manter os registros das vendas; e uma consulta mais frouxa sobre antecedentes dos compradores.

A flexibilização de Trump preocupa especialistas no Brasil porque os EUA figuram como um dos principais fornecedores de armas para diversas partes do mundo.

No México, 80% das armas apreendidas com cartéis de drogas vêm do vizinho do Norte. No Haiti, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a maior parte das armas das gangues que controlam cerca de 80% de Porto Príncipe, a capital, também provêm dos EUA.

Das armas de fogo apreendidas em países do Caribe, entre 2018 e 2022, 73% tinham origem nos EUA, segundo dados do ATF reunidos em pesquisa da Universidade de Harvard.

Medidas de Trump preocupam Brasil

No Brasil, um estudo publicado no Journal of Illicit Economies and Development, do Reino Unido, revela que, entre as apreensões de 1,7 mil fuzis ilegais no Sudeste entre 2019 e 2023, 54% tinham origem nos Estados Unidos.

“Isso coloca os EUA na primeira posição como país de origem de fuzis ilegais, um recurso decisivo para sustentar e expandir o crime organizado”, informam os pesquisadores brasileiros Bruno Langeani e Natalia Pllachi.

A Agência Brasil conversou com Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz. Ele aponta que as medidas de Trump “são bastante preocupantes” por “certamente facilitarem o acesso das facções brasileiras a essas armas”.

“Os EUA têm um problema nessa regulamentação, que já acontecia, que é o comércio de peças semiprontas sem um controle efetivo. Essas peças são um problema sério para o Brasil”, avaliou.

Segundo Langeani, armas desmontadas são mais fáceis de enviar para o exterior, pois passam despercebidas pelas alfândegas.

“É comum que essas peças sejam enviadas pelos correios. Se você passar pelo raio-x e não tiver alguém treinado para identificar as partes, fica mais difícil de detectar e combater”, completou.

Considerando todas as armas de fogo de estilo militar apreendidas na Região Sudeste, e não apenas os fuzis, os principais países de origem dessas armas são o Brasil, seguido pelos EUA, Alemanha e Bélgica.

A publicação assinada por Bruno Langeani destaca que “fragilidades na produção de dados” sobre armas ilegais apreendidas limitam a análise do cenário do tráfico no Brasil, uma vez que grande parte do armamento não tem a origem identificada.

Lobby pró-armas

O cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LAV/Uerj), ressalta que o lobby de armas é forte nos EUA e atua para reduzir a fiscalização da venda dos armamentos.

“Essas agendas de países estrangeiros que querem ampliar seus mercados encontram no Brasil um público interessante. Claro que, ao ampliar a oferta e a facilidade de aquisição nos EUA, evidentemente, as armas vão chegar aqui com mais força”, comentou.

Em setembro de 2025, o governo Trump revogou restrições à exportação de armas de fogo para 36 países, incluindo alguns com histórico de desvio de armas para o crime, como Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru – vizinhos do Brasil.

Ao anunciar a medida, o Departamento de Comércio dos EUA justificou que a revogação das restrições “permitirá que os fabricantes de armas de fogo dos EUA concorram em mercados estrangeiros, criando centenas de milhões de dólares por ano em oportunidades de exportação”.

“Podemos afirmar que os EUA estão exportando com menos avaliações de risco, o que aumenta as chances de essa arma ser traficada”, acrescentou Langeani, do Instituto Sou da Paz.

Contradição

O cientista da Uerj Robson Rodrigues destacou a “contradição” das políticas de Trump, que, de um lado, busca combater os cartéis na América Latina, enquanto liberaliza o acesso a armas nos EUA.

“Eles classificam os cartéis como organizações terroristas, mas não fazem o mínimo esforço conjunto para diminuir o acesso das armas dessas organizações. E não é só a questão das armas, mas também em relação à lavagem de dinheiro”, disse.

Robson Rodrigues afirmou que é necessário combater tanto o lado da oferta de drogas, concentrada na América Latina, quanto o lado da demanda, que permanece nos EUA.

“As organizações criminosas internas, nos EUA e na Europa, lucram mais que os cartéis no México ou no Brasil, pois lucram no varejo, aumentando a margem de lucro. Você precisa combater todos os lados e não apenas um deles”, ponderou.

Para o especialista, essa aparente contradição pode ser explicada por “interesses econômicos [da indústria de armas dos EUA] que estão acima de qualquer preocupação humanitária ou social”.

O diretor do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, considera que a política interna dos EUA está indo na contramão do discurso de combate às drogas de Trump na América Latina.

“Se, de fato, o governo americano tiver um genuíno interesse em enfraquecer a criminalidade organizada, deveria estar tomando uma direção contrária para reduzir e dificultar o acesso das organizações criminosas a armas que saem dos EUA”, concluiu.

Entre 2008 e 2024, a indústria de armas de fogo e munições nos EUA cresceu em 379%, aumentou o número de empregos em 130%, atingindo, respectivamente, US$ 91,7 bilhões e 382 mil postos de trabalho. Os dados são da Associação Comercial da Indústria de Armas de Fogo (NSSF, na sigla em inglês).