ECONOMIA

Tarifas dos EUA: especialistas defendem diplomacia em vez de reciprocidade

Após imposição de tarifas, governo brasileiro destaca possibilidade de negociação em vez de retaliação.

Por Sputnik Brasil Publicado em 16/07/2026 às 18:20
Análise de especialistas sobre tarifação dos EUA e estratégia brasileira. © Foto / José Cruz / Agência Brasil

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas avaliam que a diplomacia econômica é uma via mais eficaz para mitigar as novas tarifas dos EUA e apontam que a ação do governo norte-americano também reflete um desconforto com a postura mais assertiva do Brasil junto ao Sul Global.

Poucas horas após o governo dos Estados Unidos confirmarem, ontem (15), a imposição de tarifas de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, o Palácio do Planalto afirmou que acionará a Lei de Reciprocidade.

O anúncio norte-americano veio acompanhado de críticas do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que acusou governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não negociar de boa-fé e colocar o "próprio ego" acima da possibilidade de um acordo.

Em resposta, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações de seu homólogo como "inaceitáveis" e "ofensivas", e destacou que o governo se colocou a disposição para negociar as tarifas, mas que os Estados Unidos queriam impor uma "capitulação" ao Brasil.

"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações."

Ele lembrou também que as investigações da Seção 301 tiveram início após a Casa Branca sofrer uma derrota na Suprema Corte e ver sua aplicação indiscriminada de tarifas ser revogada. No ano passado, Washington impôs tarifa de 50% contra o Brasil "por expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro".

A Secretária de Comunicação Social do Planalto também emitiu uma nota repudiando a ação norte-americana e reforçando o caráter superavitário do comércio bilateral para os Estados Unidos. "O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável."

A nota ainda lamenta a participação da família Bolsonaro na construção desse desfecho. "São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições."

Foi nesta declaração que o governo federal afirmou que acionará a Lei da Reciprocidade, aprovada no ano passado diante das primeiras tarifas impostas pela Casa Branca. À Sputnik Brasil, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), destacou que a decisão sobre sua aplicação, ou recorrer à diplomacia, cabe ao governo.

O melhor caminho, diz é aquele que "assegurará a manutenção da soberania nacional e os interesses das famílias brasileiras".

"O governo brasileiro percorreu todo o caminho necessário para evitar as tarifas unilaterais: disposição absoluta para negociação e diplomacia na defesa dos interesses brasileiros."

Em coletiva de imprensa, o vice-presidente Geraldo Alckmin, afirmou que o governo saberá "no momento adequado" como implementar a lei. Por outro lado, economistas e cientistas políticos consultados pela reportagem apontam que a reciprocidade pode não ser a melhor resposta.

O economista Pedro Faria destaca que "tarifas não são boas para nenhum lado" e nota que sua aplicação deve ser feita em função de uma política industrial. Sem isso, ela gera apenas um aumento de tributação, que desencadeia em um aumento de custos pago por toda cadeia produtiva, incluindo o consumidor final.

Para ele, o Brasil tem espaço para negociar e que uma alternativa mais eficaz que a reciprocidade seria apresentar medidas que punam setores de interesse dos Estados Unidos, como as as empresas de cartão de crédito e as big techs, de forma a mostrar, principalmente para aqueles que patrocinaram as tarifas, "que ações têm consequências".

O economista avalia ainda que o setor privado deve ter, novamente, um papel fundamental na negociação. São os empresários que informam ao governo norte-americano os potenciais danos causados, pela política comercial, aos consumidores estadunidenses.

"Eles expressam sua insatisfação, expressam que isso vai gerar inflação nos setores, nos preços do setor deles. Então o setor privado tem um papel relevante."

Já na visão do advogado e professor de ciência política, Rodolfo Tamanaha, a Lei da Reciprocidade tem como finalidade ser uma bandeira da soberania brasileira para fins domésticos, demonstrando a população que o governo "está respondendo à altura as provocações externas".

Porém, ele afirma que, do ponto de vista da efetividade, o melhor caminho seria a diplomacia econômica.

"A diplomacia econômica é muito mais importante, mais pragmática, tem efeitos mais concretos. Por exemplo, a CNI organizando reuniões bilaterais entre empresários americanos e empresários brasileiros para demonstrar os prejuízos que o tarifaço traria, e a justificativa para ter setores econômicos que ficariam na lista de exceções."

Por sua vez, a professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper Juliana Inhasz, aponta a necessidade de cautela na utilização da reciprocidade por aumentar custos também para o lado brasileiro, que depende muito de produtos importados dos Estados Unidos, em especial, os de alto valor agregado.

Em sua avaliação, o caminho mais indicado é o da diplomacia e a Lei da Reciprocidade deve ser acionada como última via, como forma de mostrar que o país também é capaz de impor custos. Ela destaca ainda o papel do setor privado, em que cada empresa norte-americana tem interesse em estar presente nas listas de isenções.

"É mais um elemento que mostra que o setor privado pode ser uma peça importante, sim, tanto negociando ou influenciando melhor exceções, tentando fazer negociações mais técnicas dentro desse contexto e, claro, tentando reduzir os custos econômicos."

Por fim, Diego Pautasso, doutor em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e cocriador do projeto Fios de China, afirma que a assimetria na correlação de forças é o principal problema para o acionamento da reciprocidade e que o Brasil deveria combinar instrumentos diplomáticos e econômicos variados, além de diversificar ainda mais seus mercados.

"E do ponto de vista interno, criar vazão para os produtos, para os setores econômicos e indústrias que foram mais impactadas pelo tarifaço americano, criando políticas de crédito e estimular o mercado interno para que absorva esses produtos que perderam acesso ao mercado americano."

Por que tarifar o Brasil?

Entrevistados pela Sputnik Brasil, os especialistas formaram um consenso também em afirmar que a medida imposta por Washington não tem racionalidade econômica, mas sim política.

"É simplesmente uma medida de punição econômica de um país por não fazer as vontades do governo dos EUA", diz Pedro Faria.

Ele vê Marco Rubio como o principal articulador do projeto. Descendentes de imigrantes cubanos que deixaram a ilha durante o governo de Fulgêncio Batista, ou seja, antes da Revolução Cubana, o político republicano sempre defendeu uma atuação firme e intervencionista da Casa Branca em relação à América Latina.

Ele recorda também que, no âmbito eleitoral brasileiro, é justamente essa subserviência que é prometida aos EUA pelo presidenciável Flávio Bolsonaro, que recentemente causou polêmica ao afirmar que, se eleito, colocaria sua equipe de transição de governo à disposição dos EUA.

"É parte de um projeto de colocar a América Latina como um quintal dos EUA, e eles falam isso abertamente. Obviamente, todos que resistem, que prezam pela sua autonomia e soberania, pelo direito de pertencer a grupos de interesse econômico compartilhados, como é o caso do BRICS, têm visto reações por parte dos EUA."

Já o advogado Rodolfo Tamanaha, lembra que o presidente norte-americano, Donald Trump, já demonstro desconforto em relação ao BRICS e as discussões do grupo em se afastar do dólar para transações entre seus integrantes.

Em 2024, Trump afirmou à imprensa que iria taxar em 100% os países do BRICS se eles continuassem discussões em criar uma moeda própria para rivalizar com o dólar.

A economista Juliana Inhasz, diz que é preciso tomar um pouco de cuidado ao avaliar as tarifas apenas como recurso político, já que o documento do Escritório do Representante do Comércio dos EUA não cita em nenhum momento termos como BRICS, China ou Sul Global.

Para ela, o tarifaço nasce de uma questão comercial e regulatória, mas a partir disso passa a ser utilizado como um instrumento de pressão geopolítica.

Na mesma via, Diego Pautasso afirma que a imposição de tarifas é usada como uma arma por Trump desde seu primeiro mandato (2017-2021), mas se tornou mais prevalente em seu segundo, sendo usada sem obedecer uma lógica comercial.

No caso brasileiro, o especialista aponta que o país não apenas é um dos membros fundadores do BRICS como é a economia mais importante e âncora da América do Sul.

"É o país estruturante do desenvolvimento regional, o próprio Henry Kissinger havia dito que o Brasil acaba influenciando o destino de todos os demais da região. Os EUA sabem disso."