ESPORTE

Copa de 2026: Influência política e o legado do torneio

Especialistas apontam que a Copa do Mundo está marcada por interferências políticas e desgaste da FIFA.

Por Sputnik Brasil Publicado em 16/07/2026 às 14:34
Interferências políticas marcam a Copa do Mundo de 2026, segundo especialistas. © AP Photo / Chris Carlson

Às vésperas da final da Copa do Mundo de 2026, o mundo esportivo fala daquilo que a organização não teve mais como esconder: o uso político do esporte pelas elites ocidentais.

Suspeitas de interferência política e institucional no futebol, como a reversão de um cartão vermelho da seleção dos Estados Unidos; críticas ao tratamento dado a delegações do Sul Global; denúncias de racismo; e questionamentos sobre a proximidade entre a Federação Internacional de Futebol (FIFA, na sigla em francês) e o governo americano marcaram a competição.

Com o torneio chegando ao fim — com Espanha e Argentina na final em Nova York —, há dúvidas sobre isso afetar futuras edições, masculinas e femininas; e, sobretudo, sobre o futebol se tornar mais uma ferramenta geopolítica. Com o interesse dos EUA em sediar novamente o Mundial de 2038, qual será o legado desta Copa para a entidade e para o esporte?

FIFA: imagem completamente desgastada

Em primeiro lugar, a edição da Copa do Mundo de 2026 chama atenção pelo tamanho: 48 equipes e três sedes — Canadá, EUA e México —, formato inédito na história das Copas. Além disso, está sendo marcada como a última de grandes astros do esporte, como o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo.

Por outro lado, a presença do governo estadunidense, pairando sobre a competição, pode ter o mesmo impacto na memória que os detalhes esportivos. Segundo Adriano de Freixo, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), a edição de 2026 consolidou a percepção de uma FIFA subordinada aos interesses do governo Trump, ao contrário do comportamento adotado pela entidade em Mundiais anteriores, quando impôs exigências rigorosas aos países-sede.

De acordo com o especialista, autor do livro "O outro lado do jogo: futebol, poder e relações internacionais", episódios como o impedimento da atuação do árbitro somali Omar Artan, as revistas direcionadas a determinadas delegações e as dificuldades de circulação enfrentadas principalmente por equipes de países islâmicos, como Irã e Iraque, devem permanecer marcados na história do torneio.

"Ela também vai ser lembrada como a Copa do Trump, a Copa em que o Trump fez o que quis e a FIFA se curvou aos interesses dos Estados Unidos", afirma, ressaltando ainda que megaeventos esportivos funcionam como instrumentos de projeção internacional dos países anfitriões.

No entanto, no caso desta Copa, o objetivo inicial de apresentar uma imagem de integração entre Estados Unidos, Canadá e México acabou sendo frustrado pelas transformações políticas ocorridas nos três países desde a escolha da sede, conta Freixo.

"A ideia de realizar esse evento na América do Norte tinha esse objetivo" de unidade, pensando também nas celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, mas ele "não foi alcançado". Hoje o que se vê é justamente o contrário: "Está se passando uma imagem muito negativa dos Estados Unidos por conta dessa interferência do governo Trump, […] como também uma imagem muito negativa da FIFA."

"Hoje […] essa imagem está completamente desgastada."

O pesquisador ainda diz que a percepção da entidade esportiva "submetida aos caprichos do presidente dos Estados Unidos" aprofunda o desgaste institucional acumulado nos últimos anos. Em meados de 2015, a FIFA foi abalada pelo escândalo conhecido como Fifagate, investigação conduzida pela Justiça dos Estados Unidos que levou à prisão de diversos dirigentes sob acusações de corrupção.

A crise culminou na renúncia do então presidente, Joseph Blatter, e abriu caminho para a eleição de Gianni Infantino, em 2016. Segundo Freixo, embora a FIFA já enfrentasse questionamentos sobre corrupção, transparência e governança, preservava a imagem "de uma entidade todo-poderosa, que conseguia fazer valer a sua vontade diante dos países-sede".

Mas hoje "ela tem um duplo desgaste: o dos sucessivos escândalos de corrupção que a envolveram nos últimos anos; e, agora, o da ideia de uma entidade fraca, que se curva aos interesses do presidente da maior potência do mundo".

Memória do esporte pode ser apagada por decisões políticas?

O desempenho de certas seleções também foi destaque na competição: houve tanto surpresas boas, como a campanha de Cabo Verde em sua primeira Copa; quanto decepções, como a eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final. No entanto, retoma Freixo, esse legado esportivo da Copa corre o risco de ser eclipsado pelos episódios políticos — e não seria a primeira vez na história.

Como exemplo, cita a Copa de 1978, na Argentina, realizada durante a ditadura militar. "Até hoje aquele título é ofuscado pelo fato […] de o regime ter usado aquele evento para se promover; e pelo fato de o jogo contra o Peru, vencido por 6 a 0, continuar sendo um dos mais suspeitos da história das Copas."

Como conta, a memória desse torneio acabou sendo marcada muito mais pelas suspeitas de interferência política do que pela conquista esportiva argentina. Para ele, ambientes como esse e o atual favorecem o surgimento de suspeitas sobre a competição.

"Quando você tem um conjunto de situações bastante irregulares, abre-se espaço para todo tipo de teoria e de conspiracionismo. Isso acontece porque o que está ocorrendo de fato gera margem para esse tipo de dúvida."