POLÍTICA

Novo tarifaço dos EUA gera reações entre pré-candidatos e governo brasileiro

Medida afeta setores estratégicos e provoca críticas à postura da administração Lula e à família Bolsonaro.

Por Sputnik Brasil Publicado em 16/07/2026 às 16:09
Reações ao tarifaço dos EUA dividem opiniões entre pré-candidatos e governo brasileiro. © AP Photo / Mark Schiefelbein

Figuras dentro da política e da economia brasileiras divergem quanto à atuação do Brasil nas negociações do tarifaço, e quanto às atitudes da família Bolsonaro em Washington.

Após o anúncio de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, na quarta-feira (15), pré-candidatos à Presidência da República, e autoridades políticas e industriais reagiram à medida e à condução da crise pelo governo brasileiro.

As críticas variaram entre criticar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou colocar a culpa nas duas figuras.

Pré-candidatos à Presidência

O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) alertou sobre os impactos das tarifas na indústria, no agronegócio e nos serviços digitais. Em suas redes sociais, ele culpou a polarização na política brasileira e disse que a sobretaxa pode provocar fechamento de empresas, aumento do desemprego e endividamento de produtores.

"O que está em jogo […] é que setores inteiros podem quebrar. Não é conversa fiada. É a conta mesmo que não fecha, com 25% a mais de tarifa, que pode chegar a 37,5% somada a outras sobretaxas em análise. Indústria, agro e serviços digitais brasileiros perdem competitividade da noite para o dia. Fábrica fechada é gente na rua. Produtor endividado é cidade inteira sufocada."

Caiado também responsabilizou tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro — a quem se referiu como "o outro candidato" — pela escalada da crise.

"O mais triste é que Lula não tem capacidade para dialogar e o outro candidato está preocupado com a eleição, não com o Brasil. A polarização está saindo muito cara para as famílias e para o país", prosseguiu.

Em nota à imprensa, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) condenou o tarifaço, classificando-o de medida protecionista que prejudica os interesses brasileiros e desrespeita a relação entre os países. "Vejo com preocupação os efeitos sobre a indústria brasileira, que perde competitividade no mercado americano, um dos mais importantes para os produtores nacionais."

Apesar de rechaçar a decisão de Washington, Zema também responsabilizou o governo Lula pela condução das negociações: "O governo brasileiro errou […], criando atritos desnecessários e adotando um discurso eleitoreiro. Se tivesse agido de maneira técnica e responsável, poderia ter evitado uma retaliação, que, de qualquer forma, não se justifica".

Já Renan Santos (Missão) criticou tanto o governo Lula quanto a família Bolsonaro, afirmando que ambos colocaram interesses eleitorais acima dos interesses nacionais. Em vídeo divulgado junto a nota, afirmou que o governo desperdiçou a oportunidade de utilizar as reservas brasileiras de terras raras como instrumento de negociação com os Estados Unidos.

"No fundo, ele quer que o Brasil seja taxado para posar de quem enfrenta os americanos e tentar recuperar popularidade", declarou, também acusando a família Bolsonaro de adotar uma postura de submissão ao presidente norte-americano, Donald Trump.

"Do outro lado, nós temos o Flávio Bolsonaro e a família Bolsonaro como um todo, que são uns puxa-sacos do Donald Trump. O Flávio foi aos Estados Unidos dizendo que o Trump gostava desse tipo de gesto. Eu vi o resultado desse aceno: o Trump transformou essa palhaçada em tarifa."

Como alternativa, Renan defendeu uma negociação direta com Washington, baseada em interesses econômicos e geopolíticos, com destaque para o potencial dos minerais: "Vou negociar seriamente com os Estados Unidos, colocar a questão das terras raras na mesa e buscar acordos vantajosos para o Brasil".

Política

No Congresso Nacional, Paulo Pimenta (PT-RS), líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, ressaltou que os esforços de Flávio e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro foram os responsáveis pela taxação. Em nota à imprensa, Pimenta avaliou o tarifaço como um "ataque à soberania nacional" e comentou que a crise comercial serve para tirar o foco das investigações do Banco Master e das ligações da família Bolsonaro com o empresário Daniel Vorcaro.

"Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro se aliaram aos Estados Unidos com dois objetivos muito claros: prejudicar o Brasil e tentar colocar o nosso país de joelhos diante dos interesses americanos", resumiu. "Querem interferir na nossa soberania, questionando políticas nacionais, atacando o Pix, pressionando sobre temas como etanol, transição energética e até sobre as relações comerciais que o Brasil mantém com outros países."

"Há um esforço evidente para mudar a pauta. As denúncias envolvendo Daniel Vorcaro, as revelações sobre o esquema conhecido como 'BolsoMaster', as ligações políticas e financeiras e os conflitos internos na direita estão desgastando" a pré-candidatura de Flávio.

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), pontuou que "nós não estamos em conflito com os Estados Unidos. É o governo do Trump que tem problema conosco". Ele avaliou que as tarifas representam uma "agressão completamente fortuita e gratuita" e afetam principalmente a economia paulista, estado que mais exporta para o país norte-americano.

Durante visita a cidades no interior de São Paulo, Haddad mencionou a alta desaprovação do republicano no próprio país e falou que a decisão não se justifica comercialmente, já que os Estados Unidos mantêm superávit na balança comercial há 15 anos.

"O Brasil precisa estar unido para dar uma resposta a essa agressão."

Também pelas redes sociais, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou a responsabilidade do governo Lula pela medida. "Lula tenta transformar as tarifas impostas pelos Estados Unidos em uma arma eleitoral, mas a estratégia não deu certo."

A posição foi a mesma do líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), que divulgou uma nota dizendo que o governo Lula "colhe o que plantou". "Enquanto transformava a política externa em instrumento de militância ideológica, ignorava as negociações com os Estados Unidos. O resultado veio em forma de tarifas", escreveu. Marinho, que também coordena a campanha de Flávio Bolsonaro, terminou com apoio ao senador.

Indústria

Em nota, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) manifestou repúdio ao novo tarifaço, reforçando que a decisão compromete a indústria brasileira e a soberania energética do país.

"A medida […] fere acordos comerciais, desestabiliza cadeias produtivas e ameaça milhares de empregos, especialmente na indústria e no setor de energia", afirmou a coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira.

“Apoiamos postura firme do governo brasileiro, e a reafirmação da soberania de cada país. A defesa da indústria nacional, dos empregos de qualidade, da agregação de valor às riquezas produzidas no país e da diversificação das relações comerciais deve orientar a resposta brasileira a medidas dessa natureza."

Paulo Skaf, presidente da Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), manteve um tom crítico ao governo brasileiro, afirmando que "picuinhas políticas" atrapalharam as negociações entre Brasília e Washington e que o Brasil deveria ter se esforçado para manter uma boa relação com os EUA e o governo Trump.

“Ao invés de nós termos um bom relacionamento com os Estados Unidos, buscando oportunidades para gerarmos mais empregos e desenvolvermos as empresas brasileiras, a gente faz questão de ficar com picuinhas políticas que atrapalham as relações comerciais”, disse o empresário.

“Acho que precisamos acertar é o tom político para que haja boa vontade entre as partes para chegarmos a um bom termo, seja nessa negociação ou outras futuras. O que vamos buscar, enquanto Fiesp, é a diplomacia empresarial, ou seja, empresas brasileiras e americanas que dependem uma da outra, caminhos para soluções".