O combate às zoonoses em Fortaleza começa no cuidado com os animais
Julho Dourado reforça a conscientização sobre a importância da prevenção, da guarda responsável e da saúde animal como aliadas no combate às zoonoses
Existe uma pergunta que merece ser feita a cada tutor: que cidade queremos construir quando falamos em saúde dos animais? Durante muito tempo, cuidar dos pets foi visto apenas como um gesto de afeto. Mas esse cuidado vai muito além do bem-estar dos cães e gatos. Em Fortaleza, essa relação é cada vez mais evidente. Dados do Sistema de Monitoramento Diário de Agravos mostram que, somente em 2026, o município registrou 19 casos de leptospirose, 13 casos de leishmaniose e 10 casos de esporotricose em humanos, reforçando a importância da promoção da saúde animal como estratégia para proteger toda a população.
Foi para ampliar a conscientização da população sobre esses cuidados que a Lei Federal nº 15.322, de 6 de janeiro de 2026, instituiu oficialmente o Julho Dourado, campanha nacional dedicada à promoção da saúde dos animais domésticos e em situação de abandono e à prevenção das zoonoses. A iniciativa busca incentivar ações educativas, estimular a guarda responsável, promover o acesso aos serviços veterinários e conscientizar a sociedade sobre a relação entre a saúde animal, a saúde humana e o meio ambiente.
As zoonoses são doenças transmitidas entre animais e seres humanos por diferentes formas, como o contato direto com animais infectados, vetores e ambientes contaminados. Atualmente, mais de 200 zoonoses são conhecidas no mundo, muitas delas preveníveis com informação, vacinação, acompanhamento veterinário e guarda responsável.
“Se um animal adoece ou se o ambiente não é cuidado, isso pode trazer consequências para toda a população. Tudo está conectado. Por isso, a prevenção precisa envolver todos", afirma a médica veterinária Mara Pinto, gestora de saúde da Secretaria Municipal da Proteção Animal (SMPA).
Entre as zoonoses de maior relevância para Fortaleza estão a leishmaniose, a esporotricose e a leptospirose. “Embora possuam formas distintas de transmissão, todas têm um ponto em comum: a prevenção é a ferramenta mais eficaz para reduzir casos e proteger vidas”, complementa.
Os sinais silenciosos da leishmaniose
Resgatada das ruas durante a pandemia de Covid-19, em 2020, a cadela Meg passou a receber acompanhamento veterinário, vacinação e exames periódicos. Ainda assim, entre o fim de 2022 e o início de 2023, surgiram sinais que chamaram a atenção da família: feridas nos cotovelos que não cicatrizavam e o crescimento anormal de uma das unhas.
A suspeita era de leishmaniose, mas o primeiro exame deu negativo. Mesmo assim, a fonoaudióloga e tutora da cadela, Adriana Ítala Arruda, decidiu continuar investigando. "Os primeiros exames deram negativos, mas os sintomas continuavam. Insistimos na investigação e foi somente na terceira repetição do exame, em 2024, que veio a confirmação."
Com o diagnóstico confirmado, Meg iniciou o tratamento com acompanhamento veterinário. A rotina da família passou a incluir a administração diária dos medicamentos e consultas periódicas para acompanhar a evolução da doença. "Hoje ela está muito bem. Recuperou a qualidade de vida, ganhou peso e leva uma vida normal. Receber o diagnóstico trouxe preocupação, mas também um alívio por finalmente entendermos o que ela tinha e podermos iniciar o tratamento correto."
Segundo a Médica Veterinária, tão importante quanto o atendimento veterinário é a participação ativa dos tutores na prevenção. "Na verdade, o animal não é o culpado. O tutor tem um papel essencial na prevenção. Quando ele cuida da vacinação, leva o animal para consultas, mantém a higiene do ambiente, recolhe as fezes e evita o abandono, ele está protegendo não só o pet, mas também a própria família e toda a comunidade. A prevenção começa com a responsabilidade de cada tutor", ressalta Mara.
A especialista destaca que a guarda responsável é uma das principais ferramentas para reduzir o risco das zoonoses. Acompanhamento veterinário periódico, vacinação, controle de parasitas, diagnóstico precoce e tratamento adequado contribuem para a saúde coletiva.
Vigilância permanente
A história da Meg representa uma realidade acompanhada de perto pelos serviços de vigilância em saúde de Fortaleza. Dados do Sistema de Monitoramento Diário de Agravos (SIMDA) mostram que, entre janeiro e junho de 2026, o município registrou 95 notificações de leishmaniose humana, com 10 casos confirmados, uma redução em relação ao mesmo período de 2025, quando foram confirmados 21 casos. Outro dado positivo é que, até o momento, não houve registro de óbitos pela doença em 2026.
As zoonoses podem ser transmitidas entre animais e seres humanos por diferentes formas, como contato com animais infectados, picadas de vetores, alimentos ou ambientes contaminados. "Algumas doenças podem comprometer seriamente a saúde das pessoas, principalmente crianças, idosos, gestantes e indivíduos com a imunidade mais baixa. Por isso, a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais para interromper a cadeia de transmissão", explica o médico veterinário, Jefferson Vieira.
Segundo o especialista, manter os animais saudáveis é uma das formas mais eficazes de proteger toda a família. "Quando o tutor mantém a vacinação em dia, procura atendimento veterinário diante dos primeiros sintomas e segue corretamente o tratamento indicado, ele está cuidando da saúde do animal e contribuindo para a prevenção das zoonoses na comunidade."
Serviços que reforçam a prevenção
Em Fortaleza, a prevenção das zoonoses também passa pelo acesso gratuito aos serviços veterinários oferecidos pela Secretaria Municipal da Proteção Animal. Por meio dos VetMóveis, a população conta com consultas veterinárias, vacinação antirrábica, exames mediante avaliação profissional e castrações previamente agendadas, ampliando o acesso à saúde animal em diferentes bairros da cidade.
A rede de atendimento é reforçada pela Clínica Veterinária Jacó, referência no atendimento de cães e gatos em Fortaleza. Entre janeiro de 2025 e maio de 2026, o equipamento realizou mais de 220 mil procedimentos, beneficiando cerca de 33 mil animais, consolidando-se como um importante aliado na promoção da saúde animal e na prevenção das zoonoses no município.
A vacinação, o acompanhamento veterinário, a guarda responsável e o diagnóstico precoce são atitudes simples que ajudam a prevenir zoonoses, promovem qualidade de vida para as famílias e contribuem para uma Fortaleza cada vez mais saudável.