ECONOMIA

Prazo para decisão sobre tarifas dos EUA ao Brasil chega ao fim sem acordo

Estados Unidos devem decidir sobre aplicação de tarifa de 25% às importações brasileiras nesta quarta-feira.

Por Sputnik Brasil Publicado em 15/07/2026 às 01:32
Prazo para decisão sobre tarifas dos EUA ao Brasil finaliza sem acordo entre as partes. © Foto / José Cruz / Agência Brasil

Sem expectativa de um acordo de última hora entre Brasília e Washington, chega ao fim nesta quarta-feira (15) o prazo estabelecido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para decidir se aplicará uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras.

O último encontro entre as autoridades dos dois países ocorreu nesta terça (14). Conforme o governo federal, equipes dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços tiveram uma reunião de alto nível com o representante do comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

"Na reunião de hoje, foi reiterado o caráter injusto da aplicação das recomendações já divulgadas, seja a resultante da Seção 301 específica para o Brasil, de sobretaxas de 25%, seja a de 12,5% (Seção 301 – trabalho forçado) aplicável a outras 59 economias", informou em nota.

Ainda conforme o Executivo federal, não há razões que justifiquem a aplicação da taxa. "Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", concluiu.

Já o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, declarou que a resposta do Brasil para as eventuais tarifas norte-americanas só vai ocorrer após a oficialização da medida. Até lá, segundo o chanceler, o diálogo seguirá.

"Deve ser anunciado em algum momento, brevemente. Vamos examinar a base das tarifas e reagir. Não deixamos de negociar e de conversar até o último momento", declarou durante agenda bilateral com a homóloga do Canadá, Anita Anand. Além disso, Vieira lembrou que o país conta com mecanismos para lidar com uma eventual nova política tarifária.

Durigan prevê estudo sobre reciprocidade

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que caso a tarifa seja implementada pela Casa Branca, o governo poderá recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada no ano passado quando os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50%. À época, com o recuo de Washington, o governo não chegou a aplicar a lei, sancionada em abril de 2025.

"Com isso, agora, acho que é provável que a gente, uma vez consultado com o presidente Lula, que a gente retome o processo de reciprocidade."

Exigências ligadas ao Pix e etanol brasileiro

A proposta de taxação ao Brasil é resultado da investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. As negociações foram conduzidas nas últimas semanas por um grupo de trabalho técnico e não avançaram nos principais pontos de divergência, como as exigências norte-americanas relacionadas ao Pix e ao etanol.

O governo brasileiro recusou negociar mudanças no sistema de pagamentos instantâneos e manteve a posição de deixar o etanol fora das tratativas. Em contrapartida, defendeu que Washington reduza as tarifas impostas ao açúcar brasileiro, proposta rejeitada pelos Estados Unidos.

As discussões também passaram por audiências públicas promovidas pelo USTR em Washington. Durante os sete painéis técnicos da última semana, representantes de empresas e associações brasileiras e norte-americanas defenderam a retirada total ou parcial das tarifas e contestaram as críticas dos EUA ao Pix.

Em entrevista anterior à Sputnik Brasil, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Gustavo Pessoa, que participou das audiências, avaliou que os argumentos técnicos apresentados pelos Estados Unidos perderam força ao longo dos debates. Apesar disso, Pessoa afirmou que a decisão final tende a ser política, e não técnica.

Na última segunda (13), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não acredita na adoção da sobretaxa pelos Estados Unidos. "Não vai ter tarifaço", disse o presidente após participar do lançamento de uma turbina movida a etanol, em São José dos Campos (SP).

A orientação do governo, no entanto, permanece a de manter o diálogo sem abrir mão de temas considerados estratégicos para o Brasil.

Flávio Bolsonaro atribui impasse ao governo Lula

Já o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmou que a tarifa de 25% deverá ser aplicada e responsabilizou o governo Lula pelo impasse nas negociações. O anúncio sobre a possibilidade da taxa ser aplicada foi anunciado pelo governo do presidente Donald Trump um dia após a visita do senador à Casa Branca, o que gerou críticas.

"A tarifa vai chegar para o Brasil. Não é nenhuma informação privilegiada. O Lula não manda ninguém para negociar", declarou o parlamentar durante uma transmissão nas redes sociais também na última segunda.

Segundo Flávio, o governo brasileiro colocou "a ideologia acima" dos interesses econômicos do país e adotou uma postura de confronto com Washington. O senador também criticou o discurso do Planalto sobre soberania nacional e afirmou que o próprio governo estaria provocando a adoção das tarifas.

A declaração ainda ocorreu uma semana após a participação de Flávio Bolsonaro em audiência promovida pelo USTR, em Washington. Segundo relatos de empresários e analistas presentes, a intervenção do senador frustrou a expectativa do setor privado por uma defesa técnica contra a sobretaxa.

De acordo com avaliações feitas após a audiência, empresários esperavam que o parlamentar apresentasse dados sobre os impactos econômicos das tarifas para empresas e consumidores dos dois países. Em vez disso, Flávio concentrou sua fala em temas políticos, como corrupção, Pix e o calendário eleitoral brasileiro, argumentando que este seria "o pior momento possível" para a adoção das tarifas por causa das eleições de outubro.