ENERGIA

Evento debate a importância da energia nuclear para o Brasil

ABDAN e FIRJAN discutem novo marco regulatório para fortalecer o setor nuclear no país.

Por Sputnik Brasil Publicado em 14/07/2026 às 15:37
Evento discute a importância da energia nuclear para a competitividade do Brasil. © Sputnik / Guilherme Schanner

O evento discutiu como o setor nuclear pode contribuir para a competitividade da economia, a inovação, a saúde, a segurança energética e a soberania nacional — temas cada vez mais presentes no cenário internacional.

A Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) debateram o uso da energia nuclear no Brasil durante a Agenda Nuclear para o Brasil Competitivo, realizada nesta terça-feira (14), no Rio de Janeiro.

Na abertura, o presidente da ABDAN, Celso Cunha, defendeu a atualização do marco regulatório do setor nuclear como condição para ampliar investimentos e fortalecer a cadeia produtiva nacional. Na visão dele, a legislação atual ainda reflete o contexto dos acidentes da época - como Chernobyl, em 1986, e de Goiânia, em 1987 - o que dificulta a adoção de novas tecnologias, como os pequenos reatores modulares (SMRs), considerados estratégicos para a expansão da geração nuclear.

Cunha afirmou ainda que a entidade está a preparar um estudo com propostas para modernizar a legislação, que será apresentado aos associados e à Frente Parlamentar da área. Além disso, defendeu o fortalecimento da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e maior previsibilidade nos processos de licenciamento para dar segurança aos investidores e acelerar novos projetos.

"O marco regulatório precisa dar dinâmica ao setor. Sem isso, não vamos ter uma cadeia produtiva nacional, muito menos quando falamos dos pequenos reatores modulares."

Além desses pontos, também foram abordados os benefícios do uso de tecnologias nucleares em outras áreas, como a agricultura e, em especial, a medicina. A vice-presidente da ABDAN, Sibila Grallert, alertou para a forte dependência do país da importação de radioisótopos utilizados no diagnóstico e tratamento de doenças, principalmente o câncer.

"Parte dessas famílias, o primeiro passo depois do diagnóstico é um exame que poucos brasileiros sabem nomear, mas que muitos já fizeram, como a cintilografia, o PET-CT ou uma dose de iodo radioativo para tratar a tireoide. Isso é medicina nuclear", afirmou.

O Brasil conta com mais de 400 serviços de medicina nuclear entre clínicas, hospitais e centros de pesquisa, mas importa praticamente a totalidade dos radioisótopos utilizados, principalmente da Holanda, da Rússia e de Israel. Ela explicou que esses materiais possuem meia-vida curta, perdendo parte de sua radioatividade durante o transporte internacional, o que encarece os custos e reduz sua disponibilidade para os pacientes.

Ainda assim, o vice-presidente indicou o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), em construção em Iperó (SP), como uma alternativa para ampliar a autonomia nacional nesses insumos de produção. Embora o projeto tenha sido aprovado em 2008, ela afirmou que a obra sofreu sucessivas interrupções por falta de investimentos e continuidade de gestão administrativa.

Para ela, o avanço do setor depende de investimentos permanentes e de uma política de Estado que garanta previsibilidade. "Essa é a fila que importa: não a fila de projetos aguardando aprovação orçamentária, mas a fila de pacientes que dependem desses projetos para ter o seu diagnóstico e o seu tratamento disponíveis no momento certo", afirmou.

Além dos representantes da ABDAN, congressistas participaram da Agenda Nuclear destacando o potencial desenvolvedor da energia nuclear no Brasil e, principalmente, para o estado do Rio de Janeiro, como os deputados federais Reimont Otoni (PT-RJ) e Daniel Soranz (PSD-RJ), que defendem o fortalecimento do setor como instrumento para operações a economia, gerar empregos e ampliar a soberania energética do país.

O evento também contou com a participação do deputado federal Julio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares. Em sua apresentação, o parlamentar afirmou que a conclusão de Angra 3 é uma prioridade estratégica para o Brasil e, sobretudo, para o Rio de Janeiro.

Citando um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), Lopes disse que o empreendimento poderá gerar um impacto econômico de aproximadamente R$ 100 bilhões no estado, considerando o efeito multiplicador dos investimentos previstos para a obra.

A expansão da geração nuclear permitirá, segundo ele, que o Rio de Janeiro se torne exportador líquido de energia, ampliando sua competitividade em um cenário de crescimento industrial e atração de novos investimentos. Ele também relacionou esse processo de reforma tributária, afirmando que a mudança na tributação sobre o consumo tornará o estado mais competitivo para conquistar empresas e novos empreendimentos.

Além disso, Lopes dedicou parte de sua fala ao avanço dos data centers, setor que se classificou como estratégico para o desenvolvimento econômico brasileiro. De acordo com ele, mesmo que o país dobre o número dessas instalações – atualmente em cerca de 200 – até 2035, ainda perderá participação no mercado global diante da velocidade de expansão observada em países como China e Estados Unidos. Para manter sua posição atual, o Brasil precisará aumentar o número de data centers para aproximadamente mil unidades.

"Se a gente faz o nosso dever de casa, que é regulamentar essa lei e implementar os data centers, nós vamos obrigatoriamente ter muita energia firme. E energia firme é a energia nuclear disponível."

O deputado também afirmou que a Petrobras passou a demonstrar interesse em discutir aplicações da energia nuclear para refinarias, plataformas de petróleo e unidades de exploração. Segundo ele, a estatal estuda possíveis parcerias de pesquisa e desenvolvimento com a Nuclep para avaliar essas soluções, o que pode representar um novo ciclo de investimentos para a indústria nuclear nacional.

Lopes ainda disse acompanhar, junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), negociações envolvendo direitos sobre campos de petróleo e manifestar expectativa de que um eventual acordo possa abrir espaço para novos investimentos no setor nuclear.