Brasil avança em programa de internet por cabos fluviais
Cerca de 5,8 mil quilômetros de cabos já foram instalados nos rios amazônicos.
Apesar dos atrasos causados pelo clima, o Brasil terminou quase metade do planejado no seu programa de conexão à internet por meio de redes fluviais de fibra ótica, o maior do mundo nesta categoria.
O Programa Norte Conectado consiste na instalação de 13,2 mil quilômetros de cabos nos leitos dos rios amazônicos para conectar 70 localidades que sofrem apagão de internet. O investimento total será de R$ 1,5 bilhão.
O dinheiro foi pago pelas operadoras na forma de contrapartida pelas licenças de 5G obtidas no leilão de 2021 realizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Nesta gestão, recebeu o selo do "Novo PAC".
A rede vai cobrir os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, onde a floresta e as distâncias inviabilizam a colocação de postes ou dutos para passagem da fibra em grande parte do território.
Ao todo, serão nove infovias. A promessa inicial do governo era entregar tudo até 2025. Até aqui, porém, cinco ficaram prontas: as infovias 00, 01, 02, 03 e 04. Juntas, correspondem a 5,8 mil quilômetros, ou 45% do total planejado.
As demais, 05, 06, 07 e 08, estão em fase de planejamento e implantação, com entrega estendida para até 2028. O orçamento segue o mesmo, sem aditivos.
"Nós tivemos o problema das secas sucessivas na Amazônia nos últimos anos. Foi um período difícil e que levou a essa postergação", diz a engenheira Gina Marques, presidente da Entidade Administradora da Faixa (EAF), instituição que responde à Anatel. Ela é a responsável pela execução do Norte Conectado.
A colocação dos cabos é comum nos oceanos, conectando os continentes. Já nos rios, poucos países fazem, e limitados a trechos curtos. "Não há nenhum caso que se compare ao Brasil", relata a presidente da EAF.
O trabalho requer balsa e mergulhadores. A dificuldade se deve ao fato de que os rios têm correnteza, pedras e bancos de areia que mudam constantemente de lugar. A profundidade pode variar até 18 metros entre a cheia e a seca, deixando cabos expostos ao calor extremo. Sem contar os riscos de rompimento da rede pela passagem de barcos e âncoras, exigindo monitoramento constante.
"As condições climáticas são fundamentais para conseguirmos realizar o trabalho", explica Gina. Até por isso, há preocupação com os riscos que o "Super El Niño" previsto para este ano pode trazer, diz. "Se houver uma mudança de temperatura, seca e outras condições, aí realmente vamos ter que repensar o projeto como um todo, mas estamos preparados."
O projeto envolve ainda 46 mini data centers colocados dentro de contêineres e espalhados em pontos próximos dos rios. Deste total, 23 já estão ativos (ao custo de R$ 2 milhões cada). As unidade têm captação de energia solar, refrigeração, sistema anti-incêndio, alarmes e câmera de monitoramento - feitos para resistir a todo tipo de intempérie.
Setor privado e economia local
Uma vez que a rede é instalada, a operação e a manutenção são feitas por um consórcio de provedores locais. Parte da capacidade da fibra ótica é reservada para internet de órgãos públicos (escolas, hospitais, prefeituras etc.). A outra parte é liberada para que os provedores comercializem planos de internet para pessoas e empresas.
A infovia 04 - entre Manaus e Boa Vista - foi entregue oficialmente nesta quinta-feira, 2. O projeto executado pela EAF custou R$ 115 milhões e agora será repassado ao consórcio composto pelas provedoras Ozônio Telecom, Aquamar e Instituto Evereste.
"Cada um tem que fazer a sua conta, porque o custo mensal não é barato. Esse é o grande desafio", diz o presidente da Ozônio, Adriano Vieira. Ele conta que a manutenção requer mão de obra especializada, além da necessidade de cumprir prazos para consertos na rede submersa. Sua empresa tem sede em Manaus e fibra ótica em 40 cidades, o que gera sinergias com o programa estatal. "A gente tem uma infraestrutura muito grande na Região Norte. O programa vem complementar isso", conta Vieira, que atende governos, empresas e provedores locais.
Para a economia, a chegada da infovia gera uma transformação enorme, aponta Carolina Lima, diretora comercial da WebFiber, de Boa Vista, e conselheira da Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abrint). "Em Roraima só chegava um cabo de fibra ótica, antigo, via aérea instalado em poste. Quando esse cabo rompe, ou quando tem queimada, a gente fica sem conexão ou com uma baixa capacidade", diz, relatando transtornos para o dia a dia. "Agora a internet vai ficar estável, porque terá uma segunda via."
Nos últimos anos, a carência de internet foi suprida pela internet satelital da Starlink. A empresa de Elon Musk passou de um milhão de clientes no País, a maioria deles na Região Norte. Mas os provedores regionais ainda veem muito espaço para crescer com a fibra ótica, que tem velocidade maior e preço menor. "Essas soluções de satélites têm limitação", diz Vieira, da Ozônio. Em sua visão, a Starlink deverá continuar atendendo as áreas mais remotas, onde a rede terrestre não conseguir alcançar. Nas cidades, a banda larga por fibra vai prevalecer, estima.
Rota para o Pacífico
O governo brasileiro está trabalhando ainda para expandir a rede para os países vizinhos da região, inclusive criando uma nova rota de tráfego de dados através do Oceano Pacífico. Isso porque a cidade de Fortaleza concentra quase todos os cabos submarinos que chegam ao Brasil vindos dos outros continentes, o que cria riscos de interrupção no serviço no caso de algum incidente por ali.
As conversas para expansão do Norte Conectado envolvem Colômbia e Peru, conta o Ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho. "O objetivo com essa saída de fibra para o Pacífico é conseguir ter rotas alternativas para blindar cada vez mais nossa internet e garantir segurança e estabilidade para os serviços digitais aqui na região da Amazônia."