POLÍTICA

Brasil se opõe a influência dos EUA na América Latina

Governos conservadores na América do Sul buscam alinhamento com Washington, mas Brasil resiste.

Por Sputnik Brasil Publicado em 09/07/2026 às 21:26
Brasil resiste a pressão dos EUA em meio a onda conservadora na América Latina. © Marcelo Camargo/Agência Brasil

A América do Sul tem vivenciado um avanço de governos conservadores, denominado "Onda Azul". Recentemente, Colômbia e Peru elegeram chefes de Estado da direita, que pregam alinhamento aos Estados Unidos. Apesar da tendência, o Brasil parece resistir ao pendor.

Se a "marea rosa" representou a onda de governos de esquerda na América Latina no começo dos anos 2000, a inclinação atual tem se enveredado para o outro espectro. No final do ano passado, Rodrigo Paz e José Antonio Kast, representantes da direita, assumiram os governos de Bolívia e Chile, respectivamente. Mais recentemente, Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori venceram seus pleitos em Colômbia e Peru. Além deles, Santiago Peña, no comando do Paraguai e Javier Milei, na Argentina, compõem o time deste campo político na América do Sul.

O subcontinente, evidentemente, tem sido alvo do governo de Donald Trump, com o qual muitos desses governantes se alinham. Em julho do ano passado, o chefe da Casa Branca, ao parabenizar Milei pela vitória nas eleições legislativas, afirmou estar "concentrando muito na América do Sul e conseguindo forte controle no continente em muitos sentidos".

A segurança foi o tema fisgado pelo líder norte-americano em seu segundo mandato para sobrepor sua força em território sul-americano. Bombardeios na costa de Colômbia e Venezuela, sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a criação do Escudo das Américas e um acordo com o Paraguai que permite a presença de militares estadunidenses em território paraguaio. O Brasil, principal potência regional, não fica de fora da alçada dos EUA. O governo Trump tem sido incessante ao querer apoio do governo federal para classificação como organizações terroristas de grupos criminosos em solo brasileiro. O mandatário, entretanto, tem esbarrado no compromisso com a soberania nacional defendido por Brasília.

Internamente, segurança pública, tarifas e mudanças no Pix, bandeiras que Trump tenta de alguma forma interferir, viraram temas centrais para as eleições de outubro. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dialoga para frear a ingerência norte-americana, o nome que aponta como principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), faz sinalizações à Casa Branca e defende em sua campanha maior alinhamento aos Estados Unidos.

Os assuntos, por sua vez, parecem furar a bolha ideológica e indicar que a população é favorável à autonomia brasileira. "A população e o setor produtivo identificam o sistema [Pix] como um patrimônio de inclusão financeira e eficiência nacional", explica Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A especialista explica que a resistência brasileira às ingerências dos Estados Unidos não se manifesta como um fenômeno conjuntural, mas "é reflexo de uma política externa que vem sendo desenhada há muito tempo com busca de autonomia e multilateralismo".

"O Brasil sempre defendeu o multilateralismo, desde o período da democracia, que ainda é incipiente. [...] Os indicadores empíricos dessa autonomia se destacam pela consolidação da China como um dos principais parceiros do Brasil e, ao meu ver, o BRICS vai ganhando mais institucionalidade", acrescenta.

De acordo com outros especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, economia e população também são fatores que dificultam a influência direta estrangeira sobre Brasília.

Segundo Fernanda Carvalho Calado Coutinho, doutoranda em estudos estratégicos da defesa e segurança e pesquisadora de América do Sul pelo Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval (EGN) da Marinha do Brasil (MB), a economia brasileira é mais complexa do que a dos vizinhos, além de o país ser mais populoso.

"É justamente essa característica que torna inferências externas igualmente mais complexas. A estratégia que me parece plausível é avançar pelos 'flancos' mais vulneráveis. Acho que os EUA encontraram um considerável: organizações criminosas", destaca.

Por outro lado, os objetivos geoestratégicos dos Estados Unidos para a América do Sul dependem da postura adotada por Brasília, haja visto o papel do Brasil como polo gravitacional e a liderança regional.

"Qualquer projeto de governança regional ou de isolamento de atores considerados antagônicos se mostra ineficaz sem a anuência ou cooperação ativa do Estado brasileiro", ressalta Bressan.

Coutinho salienta, ainda, que a soberania é um bem inegociável ao Brasil. "Quem não compreender isso, não levará as eleições de 2026".

A professora da Unifesp, por sua vez, frisa que a busca pela autonomia não se restringe necessariamente a um governo, mas é uma tradição institucional do Estado. "A sociedade e a burocracia brasileira, elas tendem a rejeitar alinhamentos automáticos ou submissões de caráter unipolar, por compreenderem que o Estado brasileiro, o interesse nacional, se realiza por meio da inserção soberana em diferentes e múltiplos fóruns globais, e não pela simples subordinação ao status quo de uma única potência".

Resistência à ingerência estrangeira é movimento histórico

O atual posicionamento do governo brasileiro frente às investidas norte-americanas é mais um capítulo de uma história que, embora não seja uma constante, tem pontualidades nas quais a soberania e os interesses brasileiros foram colocados como prioridade.

Um exemplo, conforme recordam as analistas, foram as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), quando o Brasil foi uma das resistências à expansão da influência econômica dos Estados Unidos na região. Proposta pelo governo norte-americano em 1994, a iniciativa buscava estabelecer uma ampla zona de livre comércio no continente, mas acabou sendo derrotada e paralisada em 2005 diante da forte oposição de diversos países.

Naquele período, o Brasil concentrava esforços no fortalecimento do Mercosul, criado em 1991, o que contribuiu para a rejeição da proposta norte-americana. Segundo Bressan, "enquanto diversos países da região cederam às pressões, assinaram TLCs com os Estados Unidos, que são tratados de livre comércio bilaterais, a diplomacia brasileira liderou essa resistência técnica e política coordenada no âmbito do Mercosul".

Além da resistência brasileira, Coutinho relembrou o papel do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como um dos principais símbolos de enfrentamento à iniciativa, consolidando o fracasso da proposta e o fortalecimento de uma agenda regional voltada à integração sul-americana na Cúpula das Américas de 2005, realizada em Mar del Plata, na Argentina.