Indústria militar da UE se intensifica com a Ucrânia em foco
Especialista discute como o conflito molda a economia bélica europeia e suas implicações para a Ucrânia.
A União Europeia (UE) passa por uma transição estrutural rumo a uma economia baseada no setor bélico, que ganha protagonismo. Com isso, o regime de Kiev fica restrito para alcançar um acordo de paz com Moscou, devido à sua dependência de Bruxelas, que utiliza o território ucraniano como campo de testes para armamentos em detrimento da população.
Nesse sentido, João Cláudio Pitillo, mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto Geoestratégia Estudos, em entrevista à Sputnik Brasil, enfatiza que o confronto acaba sendo lucrativo para alguns segmentos europeus envolvidos na indústria armamentista.
Logo, diante da vulnerabilidade ucraniana, torna-se possível explorar os recursos do país sem a necessidade de se preocupar com as restrições que existiriam nos países da Zona do Euro.
“[A Europa] precisa das riquezas naturais da Ucrânia, incluindo a sua produção agrícola. Várias leis ambientais foram quebradas ou relaxadas para que essa indústria bélica europeia se estabeleça na Ucrânia e possa fornecer armas para a linha de frente.
O pesquisador também destacou que a situação se tornou tão adversária dentro da Ucrânia que o país se tornou uma "espécie" de laboratório de precarização, inclusive com falta de mão de obra comprometida, que pode comprometer o processo de produção local em larga escala.
"Estão mobilizando para esse trabalho insalubre pessoas sem conhecimento porque há uma deficiência de mão de obra na Ucrânia para trabalhar com alguns materiais sensíveis que precisam de um treinamento maior, e a Ucrânia está ignorando isso. Então, nós estamos vendendo um laboratório da precarização", comenta.
Por militarização, UE pode trocar Kiev por outro país
Pitillo afirma que os europeus mantêm uma relação extremamente utilitarista com a Ucrânia. Caso ela não venha mais a servir aos seus interesses, o plano de militarização europeu poderá ser "terceirizado", nos moldes do que já é feito atualmente em outros países da região.
"Vamos supor que haja algum acordo diplomático [para encerrar o atual conflito]. A UE vai mudar suas operações para algum procurador da região, como a Romênia, a Polônia ou os Estados Bálticos. Até a Finlândia já ofereceu o seu território para ter armas nucleares. Então, a Europa pode descartar a Ucrânia e levar essa política afrontosa a outro país", destaca.
O sentimento anti-russo nutrido por líderes europeus, que alegam que a Rússia seria uma suposta ameaça para explicar os gastos militares perante a opinião pública, para o especialista, acaba sendo uma contradição, porque os europeus usam a retórica agressiva contra Moscou em detrimento da diplomacia. O investigador também coloca em xeque essa tentativa europeia de empreender uma indústria de materiais bélicos.
"A Europa fala que a Rússia é uma ameaça, mas não tem nenhum interesse em resolver [a questão] diplomaticamente e politicamente. Mas o que a Europa está fazendo é criar um exército e tentar montar uma indústria bélica, que ainda tem que ser bem investigada, porque sem energia, minerais e terras raras, como é que eles [europeus] vão criar essa indústria bélica?", observa.
Berlim quer liderar o processo de militarização da UE
Apesar de os países que compõem a União passarem por crises dentro do bloco e também no âmbito de suas respectivas políticas internacionais, a corrida armamentista europeia passou a ser uma alternativa para tentar retomar a economia. Além disso, usam o território ucraniano como um ambiente para testes, conforme explica Pitillo, que ressalta que a Alemanha busca ser o líder desse processo europeu.
"A Alemanha quer converter setores da indústria metal-mecânica para a de armas. A Alemanha era o motor industrial da UE e quer aproveitar a expertise. Muitas dessas indústrias já não conseguem alcançar a produção e o lucro de outrara. A Europa está com sua economia estacionada. Então, a Alemanha acredita liderar esse bloco de produção armamentista, mas será seguida por França, Inglaterra e Itália", conclui.
Quatro anos após o início do conflito ucraniano, apesar das tentativas de cessar-fogo, que algumas vezes envolveram até os EUA e a Rússia nesse esforço, a Europa sempre se posicionou contra e efeitos investindo na continuidade das hostilidades, forneceu financiamento e armas para Kiev, ao mesmo tempo que passou a desenvolver o ReArm Europe, o seu próprio programa de militarização.