ECONOMIA

Aumento das taxas de juros reflete tensões no Oriente Médio

Mercado reage a escaladas entre EUA e Irã e à pressão no setor de petróleo.

Por Estadao Conteudo Publicado em 08/07/2026 às 18:10
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A volta ao radar da pressão do petróleo sobre a inflação após nova escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã ditou a alta dos juros futuros no pregão desta quarta-feira, 8. O avanço perdeu um pouco de fôlego na segunda etapa dos negócios, mas se manteve firme após os EUA ameaçarem realizar novos ataques contra Teerã, ao mesmo tempo em que o país persa alertou que irá redobrar as ofensivas caso seja atacado.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 14,04% no ajuste de terça a 14,055%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,38%, vindo de 14,285% no ajuste de terça. O DI para janeiro de 2031 avançou de 14,385% no ajuste a 14,485%.

Com o risco de que os preços de energia ganhem impulso adicional, uma vez que o fluxo no Estreito de Ormuz segue comprometido, a percepção é que o desafio para os bancos centrais aumentou.

No curto prazo, as apostas para a trajetória da Selic pouco se alteraram diante do retorno da guerra ao 'price action', com 71% de probabilidade de corte de 0,25 ponto porcentual na taxa na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom), pelo mercado de opções digitais. Mesmo assim, agentes avaliam que uma nova disparada do petróleo pode ameaçar o ciclo de baixa dos juros no Brasil.

As taxas futuras iniciaram o pregão já pressionadas pelo ambiente externo, após o Departamento do Tesouro dos EUA ter revogado, na terça, uma licença que permitia a venda de óleo com origem no Irã. As forças militares americanas voltaram a atacar o país, em retaliação a ofensivas de Teerã a embarcações comerciais em Ormuz.

Para piorar, nesta manhã, Trump apontou, à margem da cúpula da Otan realizada em Ancara, na Turquia, que, para ele, o acordo temporário de cessar-fogo com o Irã "acabou". "É simplesmente uma perda de tempo lidar com eles", disse. Ainda pela manhã, o republicano declarou que uma eventual operação militar americana na noite desta quarta-feira poderá ser "um dos grandes" ataques contra o território iraniano.

Rumo à etapa final da sessão, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, alertou que, se o Irã atirar contra navios, "vamos acabar com eles", e que o país pode sofrer forte consequência se seguir atacando embarcações. Já Trump, ao comentar a possibilidade de retomada de ofensivas dos EUA, ameaçou que as novas lideranças iranianas poderiam "desaparecer".

"Trump conseguiu reverter um cartão vermelho pela primeira vez na história de uma Copa do Mundo, mas não consegue reabrir o estreito de Ormuz meses depois de seu fechamento, sem chegar numa solução", afirmou o estrategista Gustavo Cruz. Em sua visão, os EUA seguem de "mãos atadas", uma vez que, se os ataques mais intensos contra o Irã forem realizados, outros países do Oriente Médio poderiam ser atacados por Teerã. "E isso abalaria ainda mais a economia global", avaliou.

No mercado de opções digitais de Copom, a ampla maioria (71%) segue apostando em redução de 25 pontos-base da Selic no encontro do próximo mês do colegiado, com 28% de chance de manutenção nos atuais 14,25%. Cruz, porém, diz que tanto o próximo ajuste para baixo quanto a continuidade da calibração da Selic estariam sob risco caso o barril de petróleo se consolide em patamares mais próximos a US$ 80. Existe a chance de que as cotações se aproximem novamente dos US$ 100, observou.

Ainda no plano internacional, o Comitê de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês), divulgou na tarde desta quarta a ata de sua última reunião, que não surtiu efeito sobre a curva de Treasuries, tampouco sobre a local. Para Thomas Ryan, economista para América do Norte da Capital Economics, o documento confirmou uma guinada do comitê para uma postura mais conservadora, o que sustenta a visão da consultoria de que o Fed elevará os juros três vezes, em trimestres consecutivos, ao longo dos próximos três trimestres.