SAÚDE

Agitação, desatenção e dificuldade de concentração nem sempre indicam TDAH: ronco e apneia podem estar por trás dos sinais

Especialista explica por que a investigação precoce é essencial para evitar prejuízos ao desenvolvimento, à aprendizagem, à formação orofacial e à postura infantil

Por Gabriel Santos da Silva Publicado em 08/07/2026 às 09:26
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Você já conheceu ou convive com alguém diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)? Desatenção, hiperatividade, impulsividade, dificuldade de concentração e baixo rendimento escolar estão entre os principais sinais da condição. Celebrado em 13 de julho, o Dia Mundial de Conscientização do TDAH reforça a importância do diagnóstico correto e do tratamento adequado. No entanto, durante essa investigação, também é fundamental avaliar outras condições que podem provocar manifestações semelhantes, como os distúrbios respiratórios do sono. Um dos principais sinais de alerta é o ronco frequente, que nunca deve ser considerado normal na infância e pode estar associado à apneia do sono, comprometendo a qualidade do descanso e refletindo diretamente no comportamento e no aprendizado da criança.

Segundo a Dra. Raquel Rodrigues, otorrinolaringologista do HOPE, um dos principais erros é acreditar que o ronco infantil faz parte da rotina. "A única situação em que a criança pode apresentar a condição é durante um quadro gripal, quando o nariz está entupido. Fora isso, nunca é normal e precisa ser investigado. Muitas famílias dizem que a criança ronca igual ao pai ou ao avô, mas isso não deve ser considerado esperado em nenhuma idade."

A principal causa do problema é o aumento da adenoide e das amígdalas, que reduz a passagem do ar pelas vias respiratórias. Rinite alérgica sem controle, rinossinusite crônica e obesidade infantil também favorecem o aparecimento do quadro. "Sempre que existe uma obstrução na passagem do ar, acontece a vibração dos tecidos e surge o ronco", explica.

Dormir mal interfere diretamente no desenvolvimento infantil. Enquanto os adultos costumam sentir sonolência após uma noite mal dormida, as crianças frequentemente apresentam o efeito contrário. "Elas ficam mais agitadas, impacientes e desatentas. Durante o sono, o cérebro consolida a memória e regula emoções importantes para o aprendizado. Quando esse descanso não acontece de forma adequada, esses processos ficam comprometidos e os reflexos aparecem principalmente na escola", comenta.

De acordo com a especialista, essa semelhança entre os sintomas exige atenção. "Os distúrbios do sono podem provocar manifestações muito parecidas com as do TDAH, como hiperatividade, dificuldade de concentração e desatenção. Ao mesmo tempo, quando a criança já possui o transtorno, uma noite mal dormida pode intensificar essas características. Por isso, toda investigação deve incluir uma avaliação da qualidade do sono”, orienta.

Outro sinal importante é a respiração pela boca. Segundo a Dra. Raquel Rodrigues, quando a criança deixa de respirar adequadamente pelo nariz durante o crescimento, podem surgir alterações no desenvolvimento da face, da arcada dentária e até da postura corporal. "A respiração bucal interfere na expansão dos ossos da face, favorece alterações na mordida, faz com que a criança mantenha os lábios entreabertos, mastigue menos e, em alguns casos, provoque mudanças na coluna cervical e na postura”, discorre a médica.

O diagnóstico é realizado pelo otorrinolaringologista e pode incluir exames como a polissonografia, que avalia a qualidade do sono, além da investigação de doenças associadas, como rinite e rinossinusite. O tratamento varia conforme a causa e pode ser clínico ou cirúrgico, de acordo com a necessidade de cada paciente. "Nem toda criança que ronca precisará operar. Muitas melhoram apenas com o tratamento da rinite. O mais importante é descobrir a origem do problema para indicar a melhor conduta", ressalta.

A médica orienta que pais, professores e cuidadores também observem outros sinais, como olheiras frequentes, bruxismo, sono muito agitado, respiração constante pela boca e episódios persistentes de enurese noturna, quando a criança volta a urinar durante o sono após a idade esperada para esse controle. "Quanto mais cedo essas alterações forem identificadas, maiores são as chances de evitar prejuízos no crescimento, na aprendizagem e na qualidade de vida. Antes de atribuir determinados comportamentos exclusivamente ao TDAH, é importante investigar como essa criança está dormindo”, finaliza a Dra. Raquel Rodrigues.