POLÍTICA

México alerta sobre possível violação de soberania por parte do FBI

Governo mexicano exige explicações após relatos de envolvimento do FBI na prisão de Ismael Zambada.

Por Sputnik Brasil Publicado em 08/07/2026 às 02:20
Governo mexicano analisa possível violação de soberania por parte do FBI na prisão de Zambada. © AP Photo / Jenny Kane

O governo mexicano afirmou que, caso se confirmem os relatos — indicando que o Federal Bureau of Investigation (FBI) dos EUA esteve envolvido na prisão e transferência do narcotraficante Ismael "Mayo" Zambada —, tal ação constituiria uma afronta à soberania.

Segundo a secretária de Segurança e Proteção Cidadã do México, Rosa Icela Rodríguez, o incidente representaria "uma violação da Carta das Nações Unidas, da Carta da Organização dos Estados Americanos, da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos e da Lei de Segurança Nacional".

Em entrevista coletiva, a secretária recordou que, após a transferência de "El Mayo" para os Estados Unidos em julho de 2024, o México solicitou explicações aos EUA por meio da embaixada americana na capital. No entanto, o então embaixador, Ken Salazar, negou o envolvimento do FBI na operação.

Dois anos após a prisão do chefe do narcotráfico mexicano — atualmente detido nos EUA —, a questão voltou à tona após uma reportagem do veículo de mídia Pie de Nota. A matéria revela que o avião de pequeno porte usado para transportar o traficante faz agora parte de uma exposição de aeronaves militares, onde o FBI o apresenta como parte de uma operação da agência.

"Os relatos são contraditórios, alguém mentiu", declarou a autoridade.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, concordou, apontando diretamente para o ex-embaixador Salazar e questionando:

"Quem está mentindo? Quem mentiu? O embaixador Ken Salazar mentiu? Por que isso é relevante? Primeiro: o fato de ter mentido enquanto exercia o cargo de embaixador. Segundo: se uma agência dos EUA participou desta operação, isso constituiria uma violação de tratados internacionais e da Constituição dos Estados Unidos Mexicanos."

Próximos passos

Se, por meio de investigações sérias, o México confirmasse que os Estados Unidos violaram a soberania do país latino-americano ao fazer com que o FBI capturasse o cofundador do Cartel de Sinaloa em solo mexicano, o governo de Sheinbaum teria de adotar medidas rigorosas em resposta, afirmou o analista de segurança Alberto Guerrero Baena em entrevista à Sputnik.

"Dadas as posições adotadas pelo governo mexicano e tomando como ponto de partida o incidente recente com o Equador, seria necessária uma ruptura das relações diplomáticas. Acredito que esse seria o próximo passo lógico — um passo alinhado aos padrões que o governo mexicano tem defendido."

No entanto, o especialista acrescentou que é improvável que o México siga esse caminho, visto que os EUA são seu principal parceiro comercial e as duas nações compartilham um acordo de livre-comércio em vigor, o T-MEC.

"Se houver uma violação de soberania, seria necessária uma constatação jurídica formal. Nesse caso, as medidas seriam exigir a retirada das credenciais do embaixador dos EUA, fechar a embaixada e romper os laços diplomáticos. Isso certamente não acontecerá, mas a situação deixará claro se este governo está adotando dois pesos e duas medidas."

Politicamente desejável?

O analista de segurança e especialista David Saucedo compartilha essa visão. Ele observou que o governo mexicano — pelo menos em sua retórica — tem dado ênfase especial à defesa da soberania, uma postura que se mostrou politicamente vantajosa para a presidente.

"O próprio governo mexicano tem enfatizado fortemente a defesa da soberania — especificamente o conceito defendido pela esquerda mexicana. [...] Para a presidente, essa estratégia tem sido vista positivamente nas pesquisas, embora eu não acredite que eles possam fazer algo para impedir a realização desse tipo de operação."

No entanto, Saucedo ressaltou que o México dispõe de meios para retaliar os Estados Unidos caso uma violação de soberania seja comprovada — como recusar-se a atuar como "terceiro país seguro" ou retirar os 10 mil soldados da Guarda Nacional que Washington exigiu para proteger sua fronteira.

Mas fazer isso, alertou ele, "desencadearia a fúria de Donald Trump e provocaria contramedidas do governo dos EUA. Prevejo que eles se limitarão a expressar descontentamento ou a apresentar um protesto diplomático, mas não acredito que adotarão medidas de retaliação efetivas contra o governo americano", observou.

O México poderia até expulsar agentes da DEA e do FBI credenciados no país, mas "isso desencadearia uma crise entre as duas nações", ressaltou o especialista.

Quanto à possibilidade de Ken Salazar ter mentido ao atual governo mexicano, Saucedo reiterou que é até possível que o próprio representante norte-americano desconhecesse a suposta operação.

"Não acredito que, ao mencionar especificamente Ken Salazar, a presidente estivesse se referindo a qualquer possível ação judicial contra ele. Pelo contrário, ela estava apontando a gravidade de o governo dos EUA tê-los induzido ao erro em uma questão tão importante e sensível quanto a prisão de um narcotraficante mexicano — ou o envolvimento de agentes norte-americanos [no país latino-americano]."