POLÍTICA

Audiência em Washington expõe fragilidade da estratégia bolsonarista

Senador Flávio Bolsonaro discute possíveis tarifas sobre produtos brasileiros com representantes dos EUA.

Por Sputnik Brasil Publicado em 07/07/2026 às 21:21
Flávio Bolsonaro participa de audiência sobre tarifaço em Washington, discutindo implicações para o Brasil. © Foto / Divulgação

O segundo e último dia da audiência pública sobre o "tarifaço" contra o Brasil ocorreu em Washington, D.C., com a presença do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A audiência, realizada nesta terça-feira (7) no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), avaliou uma proposta de taxar produtos brasileiros em 25%, com base na Seção de 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA.

Associados de setores impactados, como a indústria e o agronegócio, também participaram como expositores. Tanto o Planalto quanto o Itamaraty afirmaram que o tarifaço é uma afronta à soberania do Brasil, caracterizando-o como uma medida política.

Esta é a segunda vez que a Casa Branca impõe tarifas além do mínimo global de 10%, estabelecido no "Dia da Libertação", durante a presidência de Donald Trump.

Embora inicialmente tenha celebrado a imposição das tarifas como uma vitória, Flávio Bolsonaro alterou seu discurso e passou a defender a suspensão das taxas, alegando que elas fortalecem seu adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas próximas eleições.

Na semana anterior, o senador enviou uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, com uma solicitação similar, mas recebeu a resposta de que o documento estava mal endereçado e que a imposição de tarifas deveria ser mantida.

A decisão sobre as tarifas deve ser divulgada no dia 15 de julho. Especialistas em ciência política, economia e relações internacionais analisaram o encontro e concluíram que a estratégia do clã Bolsonaro não conseguiu atenuar o desgaste político enfrentado.

A analista internacional Ana Prestes, doutora em ciência política pela UFMG, destacou que as ações bolsonaristas não conseguiram apagar o erro inicial, já que teriam incentivado a imposição das tarifas contra o Brasil. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e residente nos EUA, chegou a antecipar o tarifaço nas redes sociais, agradecendo a Trump pelas medidas.

"Eles se apresentaram comemorando e dizendo que era um preço a se pagar pelo Brasil estar sob a condução do presidente Lula. Eles são percebidos pela opinião pública em geral como gratos ao tarifaço."

Eduardo Bolsonaro foi condenado no STF pelo crime de coação no curso do processo e justificou suas ações como uma tentativa de ajudar no julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Ana Prestes, mesmo sem influência na decisão da Casa Branca, Flávio Bolsonaro se destacou como um dos políticos brasileiros mais subservientes a uma potência estrangeira.

A análise do professor Lier Pires Ferreira, doutor em direito e especialista em relações internacionais, ressaltou que a participação de Flávio na audiência teve um peso simbólico, embora sem alcance decisório. Ferreira afirmou que a população vê o entreguismo do clã Bolsonaro de maneira negativa, reconhecendo que eles agem em prol de seus próprios interesses.

"O entreguismo do clã Bolsonaro não foi bem-visto pela população, que percebe cada vez mais que a 'famiglia' trabalha pelos seus próprios interesses, não pelos interesses do Brasil. [...] O Itamaraty vê a participação de Flávio como potencialmente prejudicial, pois legitima junto ao governo Trump a nítida divisão interna no Brasil sobre as políticas questionadas, mesmo que o senador não tenha chancelado a pretensão norte-americana."

Sobre as investigações e justificativas

As investigações que podem justificar a taxação são fundamentadas na chamada "seção 301" da legislação comercial dos EUA. Dentre as acusações, estão a retirada de conteúdos políticos da internet e a responsabilização de empresas de mídias sociais dos EUA com multas relacionadas à sua atuação no Brasil.

Além disso, o escritório alega que o Brasil não adota medidas suficientes para lidar com corrupção, falsificação de produtos e desmatamento ilegal, que, conforme argumentam, são motivos suficientes para a imposição de tarifas. O tratamento desigual às exportações de etanol dos EUA também está inserido nas denúncias.

O PIX é outro alvo das investigações, descrito como um serviço que prejudica de forma desleal os concorrentes estadunidenses, assim como acordos comerciais preferenciais em vários setores.

"As acusações dos EUA têm aparência técnica, mas forte conteúdo político [...] o contexto mostra uso político de instrumentos comerciais para pressionar decisões soberanas do Brasil", afirmou uma cientista política.

O professor Ferreira concordou, destacando questões técnicas relacionadas a patentes e à propriedade intelectual do comércio digital como essenciais. No entanto, ele caracterizou as acusações de corrupção e desmatamento como essencialmente políticas.

"Os 'tarifaços trumpistas' são majoritariamente reconhecidos como ações política imperialistas, intervencionistas, ilegais e ilegítimas."

Impactos de mais tarifas na política brasileira

Os impactos políticos para Lula podem surgir, especialmente se ocorrerem perdas de empregos e queda na renda, embora também haja a possibilidade de fortalecimento do governo ao posicionar Lula como defensor do Brasil contra agressões externas.

Analistas concordam que a reação do setor econômico, especialmente na agroindústria e na indústria de transformação, é imprevisível, mas todos concordam que Lula sai vitorioso nesta disputa simbólica com o bolsonarismo.

"Em que pesem efeitos setoriais sensíveis, essas novas e injustas sanções sobre o Brasil [...] permitem ao governo capitalizar politicamente a medida como 'ataque externo', mobilizando apoio nacionalista," disse Ferreira.

A postura do governo brasileiro, de buscar o diálogo diplomático e afastar o confronto, ao mesmo tempo em que mantém uma posição de soberania, é reforçada através das manifestações de parlamentares e entidades empresariais.

Referindo-se a outros países, como México e Canadá, Ferreira afirmou que esses líderes também defenderam os interesses soberanos e foram beneficiados politicamente.

Além disso, o fato de o governo Trump ter isentado produtos brasileiros como frutas, petróleo bruto e outros reduziu os impactos negativos sobre a economia do Brasil e sobre o governo Lula.

Para a cientista política, se as tarifas forem implementadas, perderão não apenas os trabalhadores e exportadores brasileiros, mas também consumidores nos EUA, prejudicando a relação entre os dois países, que têm laços diplomáticos de mais de dois séculos.

Máculas e consequências de longo prazo

O episódio pode causar marcas duradouras, como desconfiança e a percepção de interferência externa, além de aumentar a necessidade do Brasil em diversificar mercados e reduzir a dependência dos EUA, conforme concluiu a pesquisadora.

"A lição central é que soberania, integração regional, BRICS e multipolaridade não são temas abstratos: são instrumentos concretos de defesa nacional diante de chantagens comerciais."

Ferreira acredita que este episódio representa um passo para a degradação da confiança internacional nos EUA, possivelmente acelerando seu declínio em favor da China e evidenciando a erosão da confiança nas relações Brasil-EUA.

"Os 'tarifaços' e outras medidas também forçam uma mudança de paradigmas nas relações Brasil-EUA, migrando de uma 'parceria estratégica' para a 'gestão de contenciosos', com menor cooperação em temas sensíveis."