Argentina interrompe projeto de reator nuclear em meio a mudanças no setor
Governo argentino anuncia novo investimento privado após paralisar o projeto CAREM, que estava 85% concluído.
O governo argentino paralisou o projeto CAREM, seu reator modular que estava 85% concluído e havia recebido um investimento de US$ 600 milhões, e anunciou um investimento privado de US$ 1,2 bilhão para construir um reator diferente com capital americano. "Estamos jogando fora", disse um especialista à Sputnik.
O governo argentino interrompeu seu próprio projeto de reator modular, que estava 85% concluído e havia recebido um investimento de US$ 600 milhões (mais de R$ 3,08 bilhões). Na mesma semana, foi anunciado um investimento privado de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,17 bilhões) para construir um reator com a maioria do capital estrangeiro, enquanto parte do pessoal qualificado que trabalhava no projeto estatal migrou para o setor privado.
O projeto foi apresentado em 2 de julho ao Ministério da Economia pela Meitner Energy, uma empresa constituída nos Estados Unidos, da qual 60% pertence ao Grupo Ansari e 40% à Black River Technology, subsidiária norte-americana da INVAP, empresa de tecnologia local da província patagônica de Río Negro (sul da Argentina).
O plano propõe a construção do ACR-300, um pequeno reator modular de 300 megawatts de projeto argentino, no complexo de Atucha, que abriga duas das três usinas nucleares do país. A operação seria gerenciada pela estatal Nucleoeléctrica Argentina. O Ministro da Economia, Luis Caputo, descreveu o projeto como "o primeiro do gênero no mundo".
"O projeto terá um investimento estimado em US$ 1,2 bilhão e será financiado por capital privado norte-americano com base em uma patente argentina. Este projeto criará aproximadamente 2.000 empregos diretos durante as fases de desenvolvimento, construção, comissionamento e operação", publicou o ministro nas redes sociais após a reunião com os executivos da empresa.
Por sua vez, o secretário de Assuntos Nucleares, Federico Ramos Napoli, definiu o esquema como "exatamente o modelo que temos promovido: o Estado cria as condições e garante a previsibilidade, e o setor privado investe o capital, assumindo o risco".
Para garantir o financiamento, Meitner busca ingressar no programa "Super RIGI", um regime de incentivos para grandes investimentos acima de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,14 bilhões), que oferece benefícios fiscais significativos por 30 anos e livre acesso a moeda estrangeira. O programa foi aprovado pela Câmara dos Deputados, mas ainda aguarda aprovação do Senado. Nesse caso, o investimento seria inteiramente privado, sem qualquer desembolso governamental.
O anúncio ocorre em um momento em que a Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA), agência estatal criada em 1950 que pesquisa usos pacíficos da tecnologia nuclear e opera usinas nucleares existentes, atravessa sua pior crise orçamentária em décadas. Seu orçamento para 2026 é 58% menor, em termos reais, do que o orçamento executado em 2023, antes da posse de Javier Milei, segundo dados oficiais.
Em 30 de junho, mais de 60 profissionais da CNEA receberam notificações de que seus contratos não seriam renovados, incluindo o único operador de microscópio eletrônico de varredura em todo o país. Os salários reais na agência caíram 32% desde novembro de 2023.
Nesse contexto de subfinanciamento, alguns dos funcionários qualificados da CNEA migraram para a Meitner Energy, que possui uma subsidiária na província de Río Negro. Representantes sindicais do setor indicaram que vários dos demitidos trabalhavam no projeto da Usina Nuclear de Elementos Modulares Argentinas (CAREM), o primeiro reator modular projetado e construído inteiramente na Argentina.
A CAREM acumulou US$ 600 milhões em investimentos públicos desde 2014 e está paralisada desde maio de 2024 devido à falta de financiamento, com 85% do projeto concluído. São necessários entre US$ 200 e US$ 300 milhões (entre R$ 1,02 bilhão e R$ 1,5 bilhão) adicionais para finalizá-lo. O presidente da CNEA, indicado pelo governo, declarou o projeto "inviável comercialmente" e descartou a possibilidade de uma versão comercial.
O prazo de cinco anos anunciado para o ACR-300 está sendo questionado por especialistas: o licenciamento pela Autoridade Reguladora Nuclear leva entre quatro e cinco anos após a aprovação do projeto, condição que Meitner ainda não cumpriu. Sob a atual administração, a CNEA acumulou uma perda de 389 postos de trabalho entre novembro de 2023 e maio de 2026.
Estará a janela de oportunidade se fechando?
"A maioria dos demitidos pertence justamente à equipe de gestão do CAREM, onde todo o investimento que o país fez em conhecimento, treinamento de equipes técnicas e infraestrutura está sendo jogado fora", disse à Sputnik Adriana Serquis, física nuclear e ex-presidente da CNEA (2020-2023).
"Levaram os chefes dos diferentes grupos, todas as equipes que haviam sido formadas", enfatizou a especialista e ex-funcionária. "Havia um acordo de que eles não instalariam operações na Argentina, muito menos levariam os profissionais que trabalhavam no projeto, e não só esse acordo foi quebrado, como eles instalaram operações em Bariloche", alertou.
"O projeto CAREM foi completamente dizimado", afirmou Serquis. "Sem manutenção, provavelmente começará a se deteriorar, e estamos jogando fora US$ 750 milhões [mais de R$ 3,8 bilhões] que a Argentina já investiu nesse projeto. E eles estão matando-o aos poucos", alertou.
Consultado pela Sputnik, Rodolfo Kempf, físico nuclear e secretário-geral da Associação de Profissionais da Comissão Nacional de Energia Atômica e Atividade Nuclear, enfatizou que "o objetivo dessas demissões é, acima de tudo, o primeiro passo em um plano para desmantelar o sistema nuclear argentino, o que abre as portas para a necessidade de capital estrangeiro, especialmente dos Estados Unidos".
Kempf ressaltou que os cortes não representam nenhuma economia fiscal real. "O sistema nuclear argentino está superavitário", afirmou. "A Argentina é autossuficiente em radioisótopos e tem capacidade para participar de um mercado de US$ 10 bilhões [cerca de R$ 51,4 bilhões] em nível regional. O ajuste, do ponto de vista fiscal, não tem impacto", afirmou.
O debate sobre o modelo nuclear
Para Serquis, a situação atual do desenvolvimento nuclear representa "uma oportunidade perdida, porque se o reator CAREM tivesse prosseguido conforme o cronograma, a intenção era que estivesse operacional em 2028, antes mesmo de outras potências mundiais do setor".
Consultado pela Sputnik, Nicolás Malinowski, engenheiro eletricista com mestrado em Gestão de Energia, considerou que "o anúncio fazia parte de uma operação para mostrar ao público que havia desenvolvimentos positivos na área nuclear, mas é importante ter em mente que Meitner não dispõe do financiamento declarado e a tecnologia do reator é desconhecida; não existem projetos".
O especialista descreveu a política nuclear implementada pelo governo nacional como uma "mudança de paradigma", visto que "interrompe uma política estatal ininterrupta há décadas: o desenvolvimento científico soberano".
Malinowski alertou que o desinvestimento em ciência "implica um custo muito alto para o país, pois envolve profissionais formados com verbas públicas em nossas universidades, e também estamos perdendo uma oportunidade única de fortalecer a posição do país no mapa mundial da energia nuclear".
Por sua vez, Kempf afirmou que "chegamos a um ponto sem retorno, pois estamos sacrificando anos de esforço e trabalho de milhares de profissionais, e do Estado como um todo, para alcançar um prestígio que até então era internacional".