ECONOMIA

Saída de estrangeiros da Bolsa continua em junho, mas saldo do ano é positivo

Estrangeiros retiraram R$ 7,785 bilhões da B3, reduzindo saldo, mas ainda superior ao do ano passado.

Por Estadao Conteudo Publicado em 04/07/2026 às 08:01
Bolsa (Foto AP/Seth Wenig

A B3 registrou saída líquida de capital externo pela segunda vez consecutiva em junho, totalizando R$ 7.785 bilhões retirados da Bolsa. Esse movimento depositou o saldo positivo de 2026 de R$ 41.632 bilhões para R$ 33.847 bilhões, com metade do registro de R$ 69.070 bilhões alcançados em 14 de abril. Apesar disso, o montante ainda é 26% superior ao primeiro semestre do ano passado.

Os fatores que impactam esse desempenho são tanto externos quanto internos. Globalmente, as negociações sobre o fim da guerra do Irã estão reacendendo o interesse pelos mercados asiáticos, além da busca por ativos relacionados à tecnologia e à inteligência artificial, setores com maior destaque em países como Coreia do Sul e Taiwan.

De acordo com João Scandiuzzi, estrategista-chefe do BTG Pactual, "a queda pela metade tem muito a ver com a rotação dos fluxos que passaram de ações de valor para crescimento. As ações brasileiras são, em sua maioria, de valor: são empresas consolidadas, pagadoras de dividendos e geradoras de lucro que, embora sólidas, não têm o mesmo apelo que as de tecnologia em termos de crescimento e potencial de mercado".

Com a forte presença de commodities, o Ibovespa recuou 1,1% em junho, impactado pela queda de 20% do preço do petróleo, após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã aumentar a oferta com a liberação das exportações iranianas. Isso gerou uma maior perda trimestral nos preços do petróleo desde 2020.

Internamente, as preocupações com juros e retornom. Ao invés do otimismo do início do ano, que prevê cortes significativos na taxa Selic, um ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe uma visão mais contundente, porém, que pode não haver cortes na taxa de juros.

Rodrigo Geraldes, head de Equities na Bradesco Asset Management, afirma que "no início do ano, tivemos um cenário claro, de dólar mais fraco no mundo. O Brasil era visto como uma das melhores opções, sendo o mercado emergente que mais teria cortes de juros em 2026."

Saldo estrangeiro

Apesar da queda no ritmo, o saldo de investimentos estrangeiros em junho de 2026 continua 26% maior que o mesmo período do ano passado. Para o segundo semestre, as projeções são de que o Ibovespa poderá ter ganhos e alguma volta de capital externo, embora dificilmente no patamar dos R$ 69 bilhões de abril.

O Citi destacou no relatório que o Brasil parece mais barato em comparação aos mercados desenvolvidos, apontando que o múltiplo de 8,4 vezes o preço sobre lucro projetado do mercado brasileiro representa um dos maiores descontos em relação a países desenvolvidos. Além disso, com a desescalada do conflito no Irã e a normalização do petróleo, junto com a possibilidade de cortes na taxa de juros pelo Banco Central, a relação risco-retorno começa a se mostrar mais favorável.

Entretanto, o mercado continua dividido quanto à direção dos juros. Scandiuzzi aponta que “as negociações para o fim da guerra do Irã trazem certo rompimento, mas não de forma que transformem significativamente o cenário, nem aqui nem no exterior”. Em relação ao Brasil, ele cita o impacto de fatores como o El Niño e surpresas inflacionárias. “Uma pergunta válida é quando as condições são adequadas para a retomada do ciclo de afrouxamento de juros, ou que deve ocorrer provavelmente no próximo ano.”

Neste cenário, há novas incertezas com as eleições brasileiras programadas para outubro. Segundo Geraldes, "ninguém quer mostrar disposição para ajustes, e há uma série de estímulos que sustentam a atividade, mesmo com os juros elevados. Embora não acreditemos que o fluxo do ano chegue a zerar, também não visualizamos alterações significativas que possam fazer com que o fluxo retorne aos níveis iniciais do ano."