Ibovespa atinge o maior valor em um mês com expectativa de corte da Selic em agosto
Alta do índice reflete a aposta dos investidores em juros mais baixos após queda na produção industrial.
O Ibovespa conquistou a segunda alta semanal seguida e fechou no maior nível desde 2 de junho nesta sexta-feira, 3, retomando os 174 mil pontos. Embora a liquidez tenha sido reduzida por conta do feriado em Wall Street, a produção industrial menor do que a esperada em maio fortaleceu a tese de que há espaço para ao menos um corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic em agosto e reanimou o apetite por risco. Operadores de renda variável destacam que juros menores tendem a impulsionar os lucros das empresas, enquanto o valuation das ações segue atrativo.
Após mínima aos 172.790,39 pontos na abertura, com variação zero, o Ibovespa chegou a tocar os 174.664,35 pontos (+1,09%) na máxima durante à tarde. Sob giro financeiro de R$ 12,62 bilhões, aquém da média diária, o índice fechou aos 174.070,27 pontos, com avanço de 0,74%. No acumulado da semana, subiu 0,45% e do ano, 8,03%.
Ao término da sessão, quase todas as blue chips subiram, exceto o Banco do Brasil ON, que caiu 0,10% e fechou na mínima do dia, a R$ 19,98. O restante dos bancos teve altas que variaram de Bradesco ON (+0,19%) a Unit do BTG Pactual (+2,38%). A Petrobras avançou 0,69% (ON) e 0,76% (PN), enquanto a Vale ON subiu 0,77%. Destaque ainda para a Ultrapar, que subiu 3,50% e figurou entre as lideranças do índice após a Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) reportar o interesse da canadense Couche-Tard por uma fatia na Ipiranga.
Para a sócia advisor da Blue3 Investimentos, Bruna Centeno, considerando que os mercados em Nova York estavam fechados por conta do feriado da Independência dos EUA, os investidores acabaram focando na Bolsa brasileira e nas perspectivas de juros. "Toda vez que um dado de crescimento econômico ou de inflação vem abaixo do esperado, o mercado aposta em menor pressão sobre os juros. Não que haverá um corte na Selic ou que o BC vá abrir mão de uma postura mais contracionista, mas o mercado passa a negociar os juros futuros com maior otimismo", avaliou Centeno.
Nesta sexta, a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) mostrou que a produção industrial recuou 0,2% em maio, na margem, um resultado abaixo da mediana das estimativas do Projeções Broadcast, que previa expansão de 0,2%. Foi a primeira queda desde 2026, e tanto a indústria extrativa quanto a de transformação apresentaram resultados aquém do esperado, segundo o economista Heliezer Jacob, do C6 Bank.
O head de macroeconomia da Kínitro, João Savignon, destacou que a fraqueza demonstrada pela produção industrial em maio pode reforçar o cenário de desaceleração da economia doméstica, levando a mais um corte da Selic em agosto. Nesta sexta, a curva a termo cedeu, tendo ainda influência das falas do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que abriu a possibilidade de uma nova intervenção do Tesouro Nacional.
Neste sentido, pensando que "os juros são deflatores do orçamento das empresas" via fluxo de caixa, a queda dos juros futuros tende a impulsionar o lucro das empresas e, consequentemente, o preço das ações, segundo Centeno, da Blue3.
Em termos setoriais, "houve uma recuperação gradual, principalmente do setor financeiro, que performou melhor e puxou mais a Bolsa nesta sexta-feira", comentou o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno. Ele também mencionou a leve recuperação no preço do petróleo - Brent para setembro subiu 0,45%, a US$ 72,12 por barril -, o que contribuiu para uma performance melhor da Petrobras.
Ainda assim, o mercado ampliou o pessimismo em relação ao desempenho do Ibovespa na próxima semana. Segundo o Termômetro Broadcast Bolsa, 57,14% dos participantes projetam queda do principal índice da B3, ante 50% no levantamento anterior. As apostas em estabilidade recuaram de 33,33% para 28,57%, enquanto as projeções de alta diminuíram de 16,67% para 14,29%.
O analista Lucas Piza, do time de análise técnica do Itaú BBA, ressalta que o Ibovespa ainda precisa superar a região dos 174.900 pontos para entrar em tendência de alta no curto prazo. Já "as bolsas americanas seguem perto das máximas históricas, impulsionadas principalmente pelo setor de tecnologia, e seria interessante para a bolsa brasileira que parte dessa animação respingasse por aqui, afastando ainda mais o risco de um cenário baixista", ponderou.
Na semana, destaque ainda para o payroll com criação de vagas aquém da expectativa, reduzindo a chance de que o Federal Reserve (Fed) mantenha sua política monetária tão restritiva. Entre os fatores limitantes para uma alta mais acentuada da Bolsa brasileira, estão os ruídos envolvendo a relação entre Brasil e os Estados Unidos e o desconforto fiscal.