ECONOMIA

Escândalos no setor financeiro levantam dúvidas sobre credibilidade de instituições brasileiras

Banco Master, Will Bank e Digimais enfrentam crises financeiras e investigações de corrupção.

Por Sputnik Brasil Publicado em 03/07/2026 às 14:00
Escândalos envolvem Banco Master, Will Bank e Digimais, afetando a credibilidade do sistema financeiro brasileiro. © Rovena Rosa/Agência Brasil

Em menos de um ano, três grandes escândalos envolvendo instituições financeiras colocaram sob pressão a adição do sistema financeiro brasileiro. Entre eles, o Banco Master apontou como a maior fraude bancária da história do país, com um rombo estimado em R$ 40 bilhões e desdobramentos que resultaram na liquidação de outras instituições.

Nos anos 1990, a então Máxima Corretora de Títulos e Valores Mobiliários se transformou no Banco Máximo ao obter a autorização legal para atuar como uma instituição financeira. Ao longo dos anos, expandiu sua atuação principalmente para produtos de crédito imobiliário até quase falir em 2016. Foi quando entrou no jogo Daniel Vorcaro, que adquiriu uma instituição e promoveu uma verdadeira mudança operacional, com a unidade passando a se chamar Banco Master. Ao todo, foram investidos R$ 400 milhões na capitalização da entidade, que passou a oferecer também serviços como crédito consignado, seguros e crédito pessoal.

A expansão do grupo chegou ao ápice em fevereiro de 2024, quando foi adquirida a participação majoritária do banco digital Will Bank, fazendo a carteira de clientes saltar para mais de 10,5 milhões de pessoas no país. Em apenas cinco anos, os ativos do conglomerado saltaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões, um crescimento exponencial superior a 2,100%. Para isso, o Master apostava em uma política de captação agressiva, chegando a oferecer remunerações de até 140% do Certificado de Depósito Bancário (CDI) para investimentos, enquanto a média do mercado girava em torno de 98,6%. Na mesma época, uma inspeção do Banco Central revelou que o banco possuía apenas R$ 4 milhões na caixa.

Quando os problemas de liquidez passaram para o público, o Banco de Brasília (BRB) esteve perto de concluir a compra do Master. A operação, porém, foi barrada pelo Banco Central. O estágio mergulhou no banco público do Distrito Federal em sua maior crise, com exposição que pode resultar em perdas de até R$ 8,8 bilhões em títulos adquiridos pela instituição. Nesse período, também foi iniciada uma investigação da Polícia Federal que, para além dos negócios financeiros, revelou esquemas de corrupção que se alastraram em meio à classe política.

Em novembro de 2025, a Justiça decretou a falência do Banco Master e, no mês seguinte, a sua liquidação extrajudicial. A situação também afetou fortemente o Will Bank, que teve uma liquidação decretada em janeiro deste ano. Diante do colapso das duas instituições, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por ressarcir investidores com aplicações de até R$ 250 mil em instituições financeiras quebradas, foi acionado. Desde então, o fundo já desembolsou quase R$ 40 bilhões para indenizar mais de 915 mil credores ligados ao conglomerado.

Enquanto o setor ainda se recuperava dos efeitos do maior escândalo bancário da história, uma nova instituição financeira foi alvo da Polícia Federal na semana passada: desta vez o Banco Digimais, controlado pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Edir Macedo. Sob as acusações de atuar no mesmo 'modus operandi' do Mestre, a instituição é suspeita de gestão fraudulenta e fraude bilionária, com a determinação de um bloqueio judicial de R$ 670 milhões.

O economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Mauro Rochlin lembra que o sistema financeiro nacional convive com uma enorme expansão e atualmente já contabiliza quase duas mil instituições financeiras, crescimento puxado por bancos digitais, em sua maioria fintechs (empresas que unem tecnologia e finanças para criar soluções inovadoras). "Isso representa uma desconcentração relativa ao mercado bancário. Agora, sem dúvida nenhuma, esses últimos episódios envolvendo o Master, Will Bank e Digimais acabam gerando uma certa desconfiança com relação à solidez dessas instituições", diz.

Para o especialista, os episódios colocaram em dúvida a compensação das instituições como um todo e, principalmente, a capacidade de fiscalização do Banco Central. "Há um ruído, muito assim, com relação a essa capacidade. Ainda não é muito explícito ou falado, porque o risco sistêmico representa um problema muito grave e isso é tratado de maneira muito cautelosa pelas autoridades. Agora, é impressionante como as novas instituições foram capazes de captar volumes tão elevados diante de um patrimônio que eles exibiram um tanto quanto modesto", acrescenta.

O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) André Nassif compartilha essa avaliação. Segundo ele, o aspecto mais preocupante foi a demora do órgão regulador em agir diante das ofertas agressivas dessas instituições.

“O Master, afinal de contas, estava pagando aos investidores algo nunca em torno de 140% do CDI, enquanto títulos ocasionais costumam remunerar entre 90% e 98% do CDI, às vezes um pouco acima, mas nesse patamar.

Menos servidores, mais fiscalização

O economista destaca que o Banco Central lidou com uma redução do quadro de servidores, o que, segundo ele, compromete a capacidade de fiscalização e o fortalecimento do aparelho regulatório — os dados indicam que, em duas décadas, a autarquia perdeu cerca de 35% do efetivo devido à falta de concursos e às restrições orçamentárias, enquanto o volume de ativos do sistema financeiro triplicado no mesmo período. O desafio, acrescenta, é ainda maior diante da crescente complexidade tecnológica das entidades.

"Não basta apenas regular. É preciso compreender a engenharia dos sistemas de informação. O Banco Central precisa contar não só com auditores, contadores, economistas e advogados, mas também com engenheiros de sistemas. Talvez isso contribua para fortalecer esse aparato", afirma.

O Banco Central foi questionado sobre a redução do quadro de servidores e se ampliou as medidas de fiscalização após os escândalos, mas não se manifestou.

Por que crises como a do Mestre se repetem?

Questionado sobre como instituições como Master e Digimais crescem rapidamente, captam bilhões de reais e transmitem uma imagem de solidez mesmo diante de sinais de fragilidade, Nassif afirma que parte da resposta está em falhas regulatórias, mas ressalta que há um fator estrutural: a própria dinâmica do setor.

Segundo ele, períodos de estabilidade econômica tendem a estimular uma expansão acelerada do crédito, elevando os preços dos ativos acima de seus fundamentos. Quando a confiança se rompe, porém, a versão costuma ser abrupta e pode desencadear crises de grandes proporções.

"O sistema financeiro, nas economias capitalistas, tem uma tendência intrínseca a atuar de forma alavancada. Em momentos de estabilidade, os agentes passam a acreditar que os preços dos ativos continuam subindo e isso alimenta a formação de bolhas. Quando essas expectativas mudam, todos tentam vender ao mesmo tempo, provocando um colapso dos preços", explica.

O economista citou como exemplo a crise das hipotecas subprime, nos Estados Unidos, em 2008, quando títulos recebidos, seguros, perdas financeiras e desencadearam uma crise financeira global. Para ele, episódios como esse reforçam a necessidade de uma supervisão robusta.

Nassif recorre ainda às análises do economista pós-keynesiano Hyman Minsky, autor da situação de instabilidade financeira. "Há uma frase famosa dele: 'A estabilidade é desestabilizadora'. É justamente nos períodos de maior tranquilidade que são criados como condições para crises futuras", afirma.

Apesar dos episódios recentes, o professor avalia que o Brasil possui uma tradição regulatória sólida. Na sua avaliação, porém, o avanço das fintechs e da digitalização exige atualização dos mecanismos de fiscalização. "O Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários precisam reforçar a vigilância, mas também compreender melhor o funcionamento dessas novas instituições. Os mecanismos regulatórios tradicionais talvez já não sejam suficientes para monitorar essa realidade digital. É preciso modernizar a supervisão para evitar que casos semelhantes voltem a ocorrer", explica.

O economista alerta também que os casos não devem ser generalizados nem servir para colocar sob suspeita todas as instituições financeiras, especialmente as fintechs. Segundo ele, o avanço dessas empresas trouxe ganhos relevantes ao ampliar a concorrência e iniciar os bancos tradicionais a investir em soluções tecnológicas em prol da inclusão financeira.

"Ou seja, no sentido de serem mais concessivos, de receberem depositantes de menor renda, por exemplo. Alguns já tinham essa tradição, mas certamente as fintechs ampliaram esse movimento. Esse é um caminho sem volta, justamente porque elas atendem a uma parcela muito expressiva da população brasileira que antes não tinha acesso ao sistema financeiro",