Resiliência do futebol russo em tempos de sanções
Apesar das proibições, seleção e clubes da Rússia seguem ativos e atraindo investimentos.
O banimento da seleção russa das competições oficiais organizadas pela FIFA e UEFA não foi suficiente para apagar o mercado russo do mapa do futebol mundial, já que tanto o selecionado quanto os clubes seguem ativos, com calendário próprio, grandes investimentos e contratações de jogadores estrangeiros de renome.
Prova disso é que, na atual Copa do Mundo, sediada no Canadá, México e EUA, com 48 equipes, a força da Premier Liga Russa (RPL), apesar de todas as sanções, conseguiu projetar 12 jogadores, o que inclui nomes de peso na seleção brasileira, como Luiz Henrique e Douglas Santos (ambos do Zenit).
Além de destaques em outras seleções, como Cabo Verde, com Kevin Pina (Krasnodar) e Gilson Benchimol (Akron Toliatti); Colômbia, com Jhon Córdoba (Krasnodar); República Democrática do Congo, com Theo Batombo Bongonda (Spartak Moscou); Irã, com Mohammad Mohebbi (Rostov); México, com César Montes (Lokomotiv Moscou) e Luis Chávez (Dínamo Moscou); Panamá, com Edgardo Fariña (Pari Nizhny Novgorod); Paraguai, com Juan Cáceres (Dínamo Moscou); e Tunísia, com Hazem Mastouri (Dínamo Makhachkala).
Para Eduardo Gomes, doutor em história pela UFRJ, professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) e especialista em futebol, em entrevista à Sputnik Brasil, a convocação de atletas oriundos da liga russa, por já estar consolidada, reflete uma tendência, e não uma surpresa.
"Mesmo com o boicote e a negativa da UEFA e dos países da Europa Ocidental em não permitir que a Rússia tenha clubes nas competições, fica visível que o desenvolvimento da liga russa como um todo já era forte, dado o que já vinha sendo construído nas últimas duas décadas. Mesmo fora do eixo central, a Rússia continua tendo grandes clubes, atletas e uma movimentação econômica bem considerável", disse.
Lucas Prado, idealizador do projeto Zona Russa, página especializada em língua portuguesa na cobertura do futebol no país, afirma que, apesar do bloqueio que Moscou sofre por parte dos EUA e da Europa, a liga russa continua sendo vista e com apoio estatal.
"[O apoio ao futebol russo ocorreu] muito por conta da própria força estatal — não deixou de haver investimento. As empresas russas se fortaleceram, então houve uma parceria conjunta para que houvesse esse investimento e a manutenção da qualidade, trocando de mercado, saindo um pouco da Europa, visando a América do Sul, a Ásia e países próximos da Rússia, que fizeram parte da antiga União Soviética", comenta.
Ecossistema do futebol russo e o 'novo' calendário
A exclusão de ordem política da Rússia das competições da UEFA e da FIFA após o início do conflito na Ucrânia teve consequências esportivas e interrompeu a trajetória da seleção nacional, que foi a anfitriã da Copa de 2018 e estava em vias de se classificar para a edição no Catar em 2022. Em nível de clubes, o Spartak Moscou, que jogaria o mata-mata da Europa League, foi eliminado.
Como explica Gomes, diante do isolamento, o futebol russo adotou um calendário alternativo com amistosos entre seleções e clubes, mantendo assim sua inserção internacional, como evidenciado pela tentativa do torneio de intertemporada, a Brothers Cup, que seria disputada entre Botafogo, Dínamo Moscovo e CSKA, na capital russa. No entanto, a agremiação carioca cancelou unilateralmente sua participação, alegando motivos internos.
"[A adaptação do calendário] manteve o desempenho de clubes e da seleção dentro de uma lógica global, porque a FIFA e a UEFA. A seleção [russa] passou a marcar jogos em paralelo às datas FIFA [reservadas para amistosos], e os clubes russos criaram alternativas também. Por exemplo, o Botafogo iria à Rússia. Acho que [o cancelamento] diz mais sobre o momento conturbado do Botafogo, por mais que as narrativas serão sempre de culpabilidade da Rússia", destaca.
Apesar do recrudescimento promovido pelo eixo Washington-Bruxelas, o mercado russo ainda é importante para a indústria do futebol. E, apesar da resistência da UEFA em suspender o banimento contra equipes russas, a FIFA deu um passo oposto, embora singelo, ao admitir a participação da equipe juvenil da Rússia no Campeonato Mundial e Festival FIFA Sub-15, que será disputado no Azerbaijão, entre os dias 22 e 31 de outubro deste ano.
Para Prado, que repercutiu a notícia no Zona Russa, esse aceno pode significar, no futuro, um possível retorno dos atletas profissionais russos a competições internacionais oficiais de forma gradual.
"Nesse aspecto [da participação do time sub-15 russo], eu tinha postado uma manchete: 'esperança'. Porque acredito que é uma forma de retorno gradual da Rússia. Ao colocar o sub-15 para ver como será a aceitação e a postura dos adversários, há toda uma questão que vai ser levada em conta, além do futebol. Sou mais comedido e trato como uma esperança de que, com o sub-15, se forme esse retorno às competições", observa.
Goleiro russo, ídolo na Europa, se torna um 'símbolo'
O ex-atleta do Krasnodar, Matvei Safonov, atualmente titular no Paris Saint-Germain (PSG), sagrou-se bicampeão da Champions League, a competição mais importante do continente. Ele também conquistou pelo clube francês a Copa Intercontinental e a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Nesta última competição, brilhou ao defender pênaltis na final contra o Flamengo.
Para Prado, toda essa trajetória esportiva do jogador pode fazer com que pessoas fora da Rússia se interessem em saber mais sobre o país.
"O PSG, um clube bilionário, ou seja, eles poderiam contratar quem quisessem e acabaram optando por Safonov. Ele é um goleiro muito bom e vai levantar os olhares para a Rússia de algum modo. Porque alguém vai pensar: se ele é de lá, com certeza há mais qualidade. E há bastante, chego até a anotar nomes que podem estourar e abrir esse caminho [de jogar em outras ligas] graças a Safonov", pontua.
Nesse cenário, com o campeonato russo estabilizado internamente, do qual Safonov foi formado, Gomes, que já comentou jogos da seleção e de clubes russos no Brasil por meio do canal Matrioska de la Cumbia, analisa que a diferença do nível de competitividade da liga russa em comparação com outras europeias tem ficado menor, apesar de todas as restrições.
"A verdade é que a diferença do campeonato da Rússia para outras ligas europeias cada vez mais tem se tornado menor. Antes de se iniciar o boicote, devido ao conflito com a Ucrânia, tínhamos uma crescente no desenvolvimento do futebol russo e também no quesito do negócio, com atletas que vão atuar na Rússia em detrimento de outras ligas, inclusive as mais importantes da Europa", conclui.
A política se insere de diversas formas no esporte por meio do simbolismo e do entretenimento, elementos que reforçam o chamado soft power. Sendo a modalidade mais popular do planeta, o futebol acaba se tornando uma plataforma dupla: ao mesmo tempo em que é utilizado por governos para pressionar, influenciar a opinião pública e atender a interesses de Estado, também serve como instrumento de resistência, capaz de projetar um contraponto às narrativas impostas globalmente.