Alta dos juros futuros reflete aversão a riscos externos e leilão de títulos
Dados fracos do emprego nos EUA não impediram o aumento das taxas no Brasil após leilão do Tesouro e preocupações fiscais.
Os juros futuros negociados na B3 tiveram nova sessão de alta nesta quinta-feira, 2, mesmo com dados mais fracos do payroll nos Estados Unidos e ausência de novos gatilhos no quadro político local. As taxas reagiram ao leilão do Tesouro Nacional que colocou integralmente no mercado 23,65 milhões de papéis prefixados, e também acompanharam o movimento internacional de inclinação das curvas globais, desencadeado por ameaças de intervenções do governo do Japão no iene.
As iniciativas para conter a desvalorização da moeda japonesa têm sido interpretadas por investidores como uma tentativa de evitar que o Banco do Japão (BoJ) precise elevar os juros, o que impulsionou um 'steepening' das curvas de juros no mundo e também no Brasil. Fontes informaram à Reuters que o Ministério das Finanças busca aumentar a incerteza entre investidores e pressionar posições especulativas vendidas na divisa japonesa, sem indicar um nível específico do câmbio que motivaria uma intervenção.
No âmbito doméstico, o aumento das preocupações com a política fiscal e com a disputa eleitoral, além de um leilão agressivo de títulos prefixados do Tesouro Nacional, também não deram refresco aos juros.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 registrou alta de 14,025% no ajuste de quarta a 14,035%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 14,385%, de 14,26%. O DI para janeiro 2031 subiu de 14,349% a 14,49%.
"O mundo inteiro está 'steepando', meio puxado pelo Japão. O governo está ameaçando intervir na moeda, o que faz o mercado achar que é para o BoJ não precisar subir juros. Aí as curvas inclinam", explicou um estrategista de uma grande tesouraria à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).
De fato, apesar de o payroll ter mostrado a criação de apenas 57 mil vagas no mercado de trabalho norte-americano em junho, pouco mais da metade do consenso de mercado de 110 mil, o retorno da T-Note de 10 anos fechou em 4,486%, e do T-Bond de 10 anos, em 4,978%. A sessão foi encerrada mais cedo por conta do feriado do Dia da Independência dos EUA, comemorado no sábado e antecipado neste ano para amanhã.
Para Jonas Goltermann, economista-chefe de mercados da Capital Economics, o dado aquém do esperado jogou um pouco de água fria na ideia de que a economia americana está sobreaquecida. Ainda assim, a consultoria britânica segue avaliando que o Comitê de Mercado Aberto (FOMC), na sigla em inglês, do Federal Reserve continuará com sua postura mais conservadora, ao mesmo tempo em que a curva de juros dos EUA deve voltar a se achatar nos próximos meses, acompanhada de fortalecimento do dólar.
No Brasil, os juros futuros chegaram a ensaiar recuo na abertura dos negócios diante dos números do payroll, mas o alívio teve vida curta. Isso porque a colocação pelo Tesouro de 20 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e 3,650 milhões de Notas do Tesouro Nacional - Série F (NTN-F) voltou a pressionar a curva. Com risco adicionado ao mercado 9% acima do certame da semana passada, nos cálculos da Warren Investimentos, os dois lotes foram totalmente absorvidos pelos players.
"Esperávamos um leilão um pouco menor. Mas olhando a oferta de hoje, o Tesouro transmite a mensagem de que aproveitará as janelas para emissões de prefixados como também fez na semana passada. Hoje especificamente o mercado foi piorando ao longo da manhã e o leilão acabou contribuindo para a alta nos juros", afirmou à Broadcast Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren.
Head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida aponta que, além do leilão, os mesmos vetores que determinaram o aumento dos juros na última sessão também seguiram presentes: as pesquisas eleitorais que mostram o presidente Lula na dianteira são interpretadas pelo mercado como maior risco fiscal, o que se reverte em prêmios de risco maiores, sobretudo nos vértices mais longos.
"O conflito no Irã teve protagonismo nos últimos três a quatro meses, mas a pauta fiscal, quanto mais perto da eleição ficamos, historicamente deixa a curva mais volátil", observa Almeida. Nos últimos quatro pleitos presidenciais, menciona ele, a curva de juros futuros ganhou mais inclinação de forma proporcional ao grau de expansionismo da pauta fiscal dos principais candidatos.