Ibovespa fecha em alta, mas tensão política e queda nas Bolsas dos EUA pesam
Índice avança até 174 mil pontos, mas finaliza o dia em leve alta com preocupações fiscais no Brasil.
Ainda que o movimento tenha arrefecido e sido envolto por baixa liquidez, o Ibovespa sustentou alta do início ao fim do pregão nesta quinta-feira, 2. A máxima dos 174 mil pontos pela manhã veio com a leitura de que os Estados Unidos podem não precisar subir juros em 2026, após payroll mostrar criação de empregos menor do que a esperada.
Contudo, a piora das Bolsas de Nova York e os ruídos em torno de como ficará a relação do Brasil com a maior potência do mundo - com proximidade cada vez maior de novo tarifaço -, além de desconforto fiscal, fizeram o índice perder força.
Após abertura estável aos 171.697,17 pontos, o Ibovespa tocou máxima aos 174.425,69 pontos, com alta de 1,59%, diante da euforia dos mercados globais ao payroll, que mostrou criação de 57 mil empregos em junho, em resultado bem abaixo da mediana das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 110 mil. Os números de geração de vagas de maio e de abril foram revisados para baixo.
Plataforma do CME Group mostra que o mercado reduziu as apostas de alta dos Fed Funds em setembro de 64,3% para 50,6% após o payroll. Contudo, o relatório de emprego americano também mostrou que a taxa de desemprego recuou para 4,2% em junho, abaixo da previsão de manutenção em 4,3%.
Na avaliação do Bradesco, o payroll muda pouco o quadro para o Federal Reserve (Fed), visto que a fraqueza concentrada em devolução setorial e a pressão de custos controlada não alteram a função de reação de maneira relevante, ainda que contrastem com a comunicação recente, que vinha enfatizando um mercado de trabalho forte.
Diante de sinais divergentes do dado americano, os juros dos Treasuries acabaram invertendo o sinal e passaram a subir, o que engatilhou novas máximas da curva a termo brasileira, junto com o desconforto fiscal e político no Brasil. Isso acabou reduzindo o apetite na renda variável, com Ibovespa se afastando das máximas.
Após os investidores digerirem os dados do mercado de trabalho dos EUA, há uma renovação de temor quanto a como ficará a relação entre o Brasil e os Estados Unidos, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo.
Segundo ele, a aproximação do pré-candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, com os EUA pode aumentar a tensão política. A aproximação de Flávio Bolsonaro com os EUA, em detrimento do relacionamento que Lula e Trump nutriam nas últimas semanas, sugere que os próximos meses podem ser marcados por novos atritos com o governo e aumentar a volatilidade, avalia.
Flávio enviou nesta quinta-feira uma manifestação ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) na qual pede a suspensão imediata da tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. No documento, a equipe de Flávio reuniu reportagens para sustentar que a tarifa passou a ser explorada politicamente pelo governo e por veículos de imprensa alinhados ao Palácio do Planalto. Segundo o senador, a medida foi convertida em uma acusação de traição contra a oposição.
Já Lula afirmou, no X, que “é inaceitável que a família Bolsonaro queira submeter o Brasil aos interesses dos EUA” e que “a origem de tudo foi motivada pela própria família Bolsonaro, que defendeu a alta das tarifas”.
Pesquisas eleitorais recentes têm mostrado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa para a Presidência da República deste ano.
O estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, notou ainda que a Bolsa teve um volume fraco e com menor presença de investidores estrangeiros, com a proximidade do feriado nos Estados Unidos - com alguns ativos americanos inclusive tendo pregão reduzido, como foi o caso das Treasuries.
“Também tivemos a piora das bolsas americanas durante essa sinalização antes do feriado, e toda essa preocupação em relação a juros futuros no Brasil”, afirma, notando ainda que apesar da melhora marginal trazida por um payroll mais fraco, a falta de catalisadores e as incertezas com os juros limitam o apetite por risco. Ele também apontou que o noticiário político e fiscal segue no radar, com a curva de juros “muito estressada” e dúvidas sobre a condução da política econômica.
O Ibovespa, por fim, fechou com alta de 0,64%, aos 172.787,62 pontos, levando o índice a reduzir a perda semanal para 0,29% e alongando o avanço anual para 7,24%. O giro financeiro somou R$ 19,57 bilhões. Por fim, todas as blue chips, tanto financeiras quanto de commodities, fecharam no azul: Petrobras ON (1,27%) e PN (0,34%), Vale ON (0,35%) e alta dos bancos de Itaú PN (0,07%) a Banco do Brasil ON (1,37%).