Famílias têm acesso a transcrições das últimas conversas do voo da Voepass
Um inquérito da Polícia Federal deve ser concluído até o final deste mês após o acidente que vitimou 62 pessoas.
Quase dois anos após o acidente do voo 2283 da Voepass, ocorrido em 9 de agosto de 2024, as investigações estão em fase final. O inquérito da Polícia Federal deverá ser concluído até o final deste mês, conforme informou a corporação.
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB) está em revisão por autoridades internacionais, segundo o órgão.
O advogado Luciano Katarinhuk, que representa as famílias, afirmou que se aguarda o indiciamento de pessoas que não estavam a bordo, mas que teriam responsabilidade pelo acidente.
O voo seguia de Cascavel para São Paulo e caiu em um condomínio em Vinhedo, no interior do estado. Todas as 62 vítimas, incluindo 58 passageiros e 4 tripulantes, faleceram, mas não houve danos a pessoas em solo. Após o acidente, a Voepass teve o alvará de operador aéreo cassado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A reportagem contatou a Voepass, que aguarda retorno. Em declaração anterior ao Estadão, a empresa declarou que apenas o relatório final do Cenipa poderá esclarecer, de forma conclusiva, as causas do acidente.
No dia 30 de outubro, familiares das vítimas do quinto acidente aéreo mais fatal da história do Brasil tiveram acesso às transcrições das conversas da cabine antes da tragédia. A presidente da associação das famílias, Fátima Albuquerque, relatou que os parentes estavam emocionados e optaram por não ouvir os áudios.
O delegado da PF decidiu apresentar somente as transcrições. “O laudo pericial conta com mais de 200 páginas e foi mostrado em primeira mão aos familiares, conforme prometido. O que se reiterou é que haverá indiciamentos, ou seja, pessoas serão responsabilizadas criminalmente pelo evento”, explicou o advogado ao Estadão.
Segundo ele, “o avião não poderia estar voando”. “Todos os responsáveis que mantiveram esse avião em operação devem ser responsabilizados, pois deveriam ter impedido seu voo. Se o piloto errou, ele pagou com a vida, mas existem outros culpados”, complementou.
O laudo pericial trouxe elementos relevantes, mas, devido ao sigilo do inquérito, não podem ser divulgados. Pessoas que foram ouvidas como informantes agora poderão prestar depoimento como indiciadas. “Houve uma sequência de fatores que resultaram no acidente e espero que não se transfira a culpa para os que já faleceram”, acrescentou.
Fátima, ao sair da reunião, se disse mais confiante de que os responsáveis serão punidos. “Nossa luta é para que as pessoas sejam indiciadas, especialmente aqueles que lideraram a equipe que resultou na morte de nossos entes. Nossos familiares não voltarão, mas é essencial que a sociedade compreenda que esse comportamento deve cessar no País”, afirmou.
Fátima é mãe da médica Arianne Albuquerque, que estava no voo. “Era minha filha única, minha vida. Quase dois anos depois, estou aqui devastada e esperando por justiça. O avião não estava quebrado naquela viagem, ele já estava em condições inadequadas”, relatou.
Segundo ela, a investigação demonstrou que o sistema de degelo não funcionava e havia previsão de chuva e frio durante o voo. “Aquele avião não deveria estar operando. É uma questão de responsabilidade, não realizar manutenção e colocar a tripulação em risco, resultando na perda de inúmeras vidas”, declarou.
Famílias buscam responsabilização criminal e administrativa
Na esfera civil, a maioria das ações já está avançando para acordos com as empresas envolvidas. As famílias agora lutam pela responsabilização criminal e administrativa dos supostos envolvidos. Os nomes dos potenciais indiciados não foram divulgados.
Fátima planeja uma cerimônia para homenagear os mortos, mas reconhece que a dor ainda é muito intensa. “Todos estão muito revoltados. Eu perdi minha única filha, uma médica excepcional. Os pacientes dela lançaram um livro em sua homenagem e quem lê se emociona bastante. A maioria das vítimas era muito jovem e tinha o futuro pela frente”, disse.
Ela mencionou a associação que reúne quase 50 mães, mas algumas estão afastadas devido à dor que sentem. “Tem mães em depressão, um casal que não sai do quarto. Uma mãe já faleceu de tristeza. Para nós, todos os dias é como se o avião caísse novamente, todos os dias perdemos nossos filhos. Restamos apenas à espera por justiça”, completou.
Como foi o acidente em 2024
No início da tarde do dia 9 de agosto de 2024, o avião ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, interior de São Paulo, matando 62 pessoas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná, e colidiu contra o quintal de uma casa em um condomínio. Alguns corpos ficaram carbonizados.
A aeronave despencou 13 mil pés (cerca de 4 mil metros) em apenas dois minutos. No momento do acidente, registros do Flight Radar mostraram que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4 mil pés (1,22 km) às 13h22, quando perdeu o sinal de GPS. A queda ocorreu cerca de 20 minutos antes do previsto pouso, atingindo residências do condomínio.
O piloto, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema de degelo, informação que foi divulgada em relatório preliminar do Cenipa em 6 de setembro do mesmo ano.
Além disso, foram registrados alertas de Cruise Speed Low (baixa velocidade de cruzeiro) e, posteriormente, Degraded Performance (performance degradada), quando o acúmulo de gelo prejudica a sustentação da aeronave.
A Força Aérea Brasileira (FAB), através do Cenipa, afirmou que a investigação do acidente aéreo envolvendo a aeronave de matrícula PS-VPB, registrado em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP) está avançada e atualmente em revisão final, seguindo os protocolos internacionais adequados.
O documento é submetido à apreciação dos representantes do Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, e do Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, ambos em função do projeto e fabricação da aeronave e motores, respectivamente.
O Cenipa ressalta que não há um prazo definido para a conclusão das investigações e apenas se pronunciará oficialmente sobre os resultados através da publicação do Relatório Final, conforme previsto no Código Brasileiro de Aeronáutica.
Após a conclusão da investigação, o Relatório Final Sipaer será disponibilizado no site do Cenipa para acesso público.